Assisti à estreia, em Maputo, do filme intitulado “O Ancoradouro do tempo”. A realização é de Sol de Carvalho, num roteiro co-elaborado com Mia Couto, este último, autor do romance A Varanda do Frangipani, livro adaptado para a referida longa-metragem de 105 min. Trata-se de um filme com muitas camadas simbólicas, umas óbvias e outras por descortinar (porque mágicas ou simbólicas), o que faz dele um bom filme.
Há, na obra que origina o filme, a representação de Moçambique pós-guerra colonial. Do ponto de vista espacial, o enredo tem a maior parte da sua acção na Fortaleza São Nicolau, esta que tem existência real, datada do séc. XVI (início da sua construção), com o nome de Fortaleza de São Sebastião. A trama, nesse livro, contém um asilo, o fantasma de um carpinteiro (Ermelindo Mucanga); a morte do director do asilo (Vasto Excelêncio), entre outras e há um inspector da polícia (Izidine Naíta), para investigar a morte desse director. A temática envolve a cosmovisão da tradição oral africana, a morte, o mundo mágico e o mistério, envoltos numa narrativa de pendor policial e sobrenatural, contada pelo espírito do carpinteiro que recebe conselhos de um pangolim para possuir o polícia, a fim de investigar a morte do director do asilo. É uma narrativa polifónica, o que torna difícil a resposta relativa à busca policial. Cada personagem conta, à sua maneira, a sua versão sobre a morte em investigação.
Alguns desses elementos são retomados no filme. Grande parte dos personagens do livro e respectivos nomes se mantêm. Mas importa dizer que, do livro para o filme, vai uma distância muito grande, e ainda bem que assim é, na medida em que uma peça artística não deve ser, necessariamente, a cópia da outra.

“Há, na obra que origina o filme, a representação de Moçambique pós-guerra colonial.” Cartaz do filme.
Trata-se de uma película, cuja temática de fundo são crimes humanitários e ambientais, para os quais, no início, é necessário prestar-se muita atenção para perceber, por serem referenciados a partir de símbolos (escamas de pangolins e, ainda, pedidos de uma personagem, para que seja retirada daquele lugar, no qual acontecem práticas obscuras, para um outro supostamente melhor). Só mais tarde, no final do filme, é que os crimes são revelados explicitamente. A temática aborda ainda o lado negativo das tradições africanas, como a bruxaria e os crimes de que esta se alimenta, que, sugestivamente, se liga a tais crimes humanitários e ambientais. Vale a pena assistir ao filme, para os compreender, por serem realistas.
A cena principal, a mais longa, e que atravessa o filme, é a pesquisa que o inspector da polícia faz acerca da morte do director de um asilo, situado na fortaleza de São Nicolau. Este interroga todos os habitantes, idosos, e todos assumem a culpa. Ali, a culpa não é solteira e ninguém desvenda o mistério sobre a morte investigada, de quem em vida maltratara os idosos. Muitos interesses estão por trás dessa ocultação. As respostas às perguntas de investigação situam-se num limbo entre o sim e o não, um nim.
Do grupo desses habitantes do asilo, faz parte uma enfermeira, que sendo protagonista no apoio ao inspector da polícia, guarda, afinal, um grande segredo relacionado com a morte do director do asilo. Um outro segredo esconde-se por trás da personagem que faz o papel de mulher do carpinteiro. Vive isolada e finge estar louca. Neste caso, o realizador utilizou a memória e o esquecimento, como técnica, para ocultar uma grande verdade. Essa técnica me recorda um poema de Celso Manguana (2007:2), escritor moçambicano, no seu livro Pátria que me pariu, que diz:
“Minha pátria”
Pátria/ Quero só uma/ O lugar de/ Morte//A nenhuma/ cidadania/ pertenço/ conheço/ três/ lugares/ de exílio// O amor/a memória/a loucura// Memória/ percorrida/ loucura/ visitada/ e quantos/ amores// Vou/ para norte/ sempre/ para morte/ caminho/ sozinho// Não/ despeço/ peço/ lume// Charro/ aceso/ prossigo// para norte/ obviamente/ para/ morte/.
Nessa condição de louca e, dito de outro modo, para não revelar verdades constrangedoras, a senhora remeteu-se ao silêncio e à solidão. O que saberia, ela, acerca das mortes do carpinteiro e do director do asilo ou sobre a vida naquele lugar? Que memórias desejava apagar? Ou desejava fazer o apagamento dos acontecimentos da época colonial e da actual? Isso diz muito do país representado no filme, no qual grandes verdades continuam por desvendar.
É curiosa e misteriosa, no filme, a actuação de três personagens que aparecem com um papel aparentemente secundário: a criança, o antigo polícia e o espírito do carpinteiro.
A criança, que parece inocente e sem papel de relevo é a que desencadeia e revela os crimes e os seus locais, isto mostra a exploração da ideia de que, aparentemente inocentes, as crianças são as melhores testemunhas que se pode ter em algum evento. Uma outra actuação que parece opaca, mas suscita muita atenção é a de um antigo polícia que, tendo se tornado negociante, é morto, no final, supostamente, para os espectadores (porque o filme não o revela), por ser alguém que poderia denunciar quem cometia os crimes ambientais, no espaço narrado pela longa metragem. Mas os seus actos são colocados como um mistério, para desviar o olhar do espectador, aos reais mandantes dos crimes. O carpinteiro, que só aparece em forma de lembrança ou de sonho do seu filho (o inspector da polícia mandado para investigar os crimes na fortaleza). Este julgava que o seu pai fosse conivente na morte do director do asilo, quando, na verdade, os criminosos eram outros, os que até desviavam a sua atenção da pesquisa, assumindo-se todos eles os culpados pela principal morte em investigação.
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“A criança, que parece inocente e sem papel de relevo é a que desencadeia e revela os crimes e os seus locais, isto mostra a exploração da ideia de que, aparentemente inocentes, as crianças são as melhores testemunhas que se pode ter em algum evento.” Foto retirada do trailer do filme.
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O filme questionou-me sobre assuntos culturais moçambicanos. As acções têm lugar em Nampula, na Ilha de Moçambique e há personagens que falam changana, num território de língua macua. Parece, de algum modo, irrealista. Além disso, do conhecimento que se tem sobre a distinção entre charlatões, feiticeiros e curandeiros, foi colocada a realizar o papel de curandeira – com os trajes típicos dessa profissional – uma mulher cuja legenda a designava de feiticeira. No final de contas, descobre-se que se trata de uma charlatã.
Tratando-se de um filme, há, de facto, espaço para invenção. Mas não sei se essa era a real intenção, uma vez ser comum, na vida real, utilizar-se de modo incauto, e, indiscriminadamente, a palavra feiticeiro, para designar curandeiro. É um tipo de criação que confronta os saberes que já temos acerca das realidades factuais. Além disso, perpetua a ideia de que os velhos são feiticeiros.
O filme é um convite para a recuperação da memória, uma vez que, grande parte das sua acções decorrem em torno de diferentes crimes, num espaço simbolicamente de um grande evento colonial real, que é o tráfico de escravos, a fortaleza de São Sebastião. Faz, por isso, sentido, que ao ouvir o inspector da polícia a dizer que o espaço no qual o director do asilo deveria ser isolado, a enfermeira tenha respondido que, a ser assim, toda a fortaleza deveria ser isolada. É uma alegoria com poder muito forte, tanto dentro do filme, quanto da memória de um espectador informado possa ter sobre o lugar Histórico que é a fortaleza.
Do ponto de vista espacial, o filme recordou-me o documentário “Anne Frank – vidas paralelas”, isto porque, todas as acções decorrem num mesmo lugar, o da fortaleza. E, até posso estender essa referência à questão da recuperação da memória, pelo facto de o documentário ter sido reconstituído a partir do diário de uma sobrevivente do holocausto, Anne Frank. Ademais, se em contexto real Auschwitz foi um campo de concentração e de extermínio racial, onde os prisioneiros realizavam trabalho escravo; a fortaleza de São Sebastião, não é tão diferente, em termos de crime contra a humanidade, por ter sido contruída a partir de trabalho escravo. “O Ancoradouro do tempo” guarda momentos que a alguns não interessa recordar.

“Do ponto de vista espacial, o filme recordou-me o documentário “Anne Frank – vidas paralelas”, isto porque, todas as acções decorrem num mesmo lugar, o da fortaleza..” Foto retirada do trailer do filme.
A película apresenta iluminações diferentes para distinguir o sonho da “realidade-actual”, sendo a do sonho, a mais ténue, portanto menos saturada e mais saturada a que corresponde à “realidade”. Em algumas cenas, uma pequena distração na visualização da película, pode fazer com que o espectador não consiga perceber que o carpinteiro não intervém directamente na história (aparece sob a forma de um sonho) e se o director do asilo, que também foi morto, esteja ou não vivo. Ou seja, não é um filme para se assistir de ânimo leve. É desafiador, além de que, julgo ser importante passá-lo numa tela de qualidade, para melhor se usufruir da excelente fotografia e imagem.
O elenco é representado por conhecidos actores moçambicanos, nomeadamente: Josefina Massango (personagem Nãozinha), Isabel Jorge (Ernestina), Maria Adamogy (Marta), Horácio Guiamab (Izidine), Elliote Alex (Salufo Tuco), Mário Mabjaia (Nhonhoso), Adelino Branquinho (Navaia) e Tomás Bié (Vasto Excelêncio). Stewart Sukuma (Bandeira) actua, nesta obra, enquanto actor e director musical. Do elenco, consta ainda o português Vitor Goncalves (Mourão – Xidimingo). Não percebi a razão de as fichas técnicas, em jornais e em blogues, que falam sobre o filme, terem ocultado o nome da personagem que faz o papel de criança. E eu, no final do filme, não pude ler todos os nomes.
Dos bastidores que, entretanto, participaram do filme, gostava de mencionar José Agualusa (que fez o script); Jacinta Barros, Paula Ferreira, Rui Simões, Paulo de Carvalho, David Constantin, Gudula Meinzotlt e Zézé Gamboa, que com Sol de Carvalho fizeram o trabalho de produção; André Guiomar, que fez a direcção da fotografia e da câmara., num filme da Real Ficção e da Promarte, entre outros.
Vale a pena assistir! Parabéns aos realizadores e às suas equipas!
Sara Jona Laisse, docente universitária, membro do graal – Movimento internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.
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