AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

[Sete Partidas]

O ecumenismo ao pé da porta

 

Não posso negar que as primeiras impressões de viver no centro da Europa foram desoladoras no que diz respeito à vivência da fé. O espírito comunitário é anémico; a privatização da fé é dominante; e a tolerância, tantas vezes celebrada, significa mais relativismo do que verdadeira aceitação das diferenças – essa que exige troca, proximidade e envolvimento, o que aqui muitas vezes não passa de uma miragem.

Da ausência de relação, ou da sua superficialidade, resulta uma cidadania aparentemente polida e correta. Mas o lastro que fica é frieza, distância, ligeireza nos vínculos e ausência de afeto, desafios para os cristãos de todos os tempos.

A privatização da fé faz-nos, muitas vezes, sentir sós e raros. E assim vamos aprendendo a ler a procura de Deus nos olhares e nas vidas dos outros. Porque o despojamento faz-nos livres e ávidos – uma avidez que reconhece a avidez dos outros e a ela se junta.

E assim o círculo alarga-se e o inesperado acontece: as almas peregrinas atraem-se mutuamente, reconhecem-se sem palavras, antes por uma forma de estar que revela mais aquilo que se busca do que o lugar que se ocupa no mundo.

No encontro das sedes – histórias pessoais, buscas discretas, fidelidades silenciosas – pisa-se um solo comum, partilhado por todos os cristãos, todos eles. As diferenças doutrinais não desaparecem, mas perdem centralidade. O essencial impõe-se. E assim, viver no centro da Europa revelou-se uma experiência inesperada: o ecumenismo ao pé da porta.

Entre viagens e encontros “fortuitos” convergimos no tempo e no espaço com protestantes e ortodoxos, sedentos como nós. É impossível não reconhecer neles, uns e outros, tanto de nós, cada um ao seu modo: a procura incessante, o conhecimento, para os protestantes; a reverência, o sentido do mistério, uma fé vivida mais com o corpo e com o tempo do que com explicações, para os ortodoxos. Aquilo que parecia distante revelou-se familiar. Aquilo que julgávamos outro mostrou-se irmão.

E entre os católicos participamos na primeira pessoa numa nova aculturação. O sangue sul-europeu aqui presente empresta piedade física e calor de proximidade a um cenário culturalmente tímido nestas manifestações, rejuvenescendo, sem infantilizar, comunidades locais cansadas, mas fiéis e ainda vivas.

O sinal justo deram-no os pagãos ao olhar para os primeiros cristãos: “Vede como se amam.” Sim, amamo-nos: toda a cristandade, vasos de barro carregando, de forma inábil, a graça que nos é dada.

Em certo sentido, viver no centro da Europa catapultou-nos para um percurso espiritual feito de rostos concretos, todos a caminho: homens e mulheres que vivem a fé e amam a Deus “às apalpadelas”, cheios de bons desejos e pureza de alma. Uma pureza que, no quotidiano, torna tudo mais claro e límpido, revelando ao seu modo o rosto de Deus.

 

Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This