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Cardeal Sarah acusa Europa de uma nova “colonização” de África

| 29/07/2026

 

Perante uma sala cheia no Parlamento Europeu, o cardeal guineense, Robert Sarah, criticou a utilização de fundos, acordos comerciais e programas de cooperação para promover conceções de família, género e direitos que considera estranhas às culturas africanas.

Robert Sarah. Parlamento Europeu

“Entre o público estavam eurodeputados de várias bancadas políticas, pessoas das instituições europeias, representantes de organizações da sociedade civil. Foi perante esta audiência que o cardeal guineense Robert Sarah proferiu uma intervenção sem concessões, intitulada Europa e África. Foto: Cardeal Robert Sarah no Parlamento Europeu. DR

A sala 5B1 do edifício Spaak, no Parlamento Europeu, estava à pinha no passado dia 15 de julho. Entre o público estavam eurodeputados de várias bancadas políticas, pessoas das instituições europeias, representantes de organizações da sociedade civil. Foi perante esta audiência que o cardeal guineense Robert Sarah proferiu uma intervenção sem concessões, intitulada Europa e África.

A pergunta de partida parecia simples: quando Europa e África falam de “direitos humanos”, “dignidade”, “desenvolvimento”, “género” ou “família”, estarão ainda a atribuir às palavras o mesmo significado? Para Sarah, a resposta é cada vez mais negativa. Segundo o cardeal, as instituições europeias recorrem a uma linguagem técnica e aparentemente neutra para impor, através de tratados, programas educativos, fundos e condições comerciais, uma visão antropológica que muitos povos africanos não escolheram.

Sarah chamou a esse processo “colonização ideológica”, retomando uma expressão usada repetidamente pelo Papa Francisco. No centro da sua crítica colocou a promoção do aborto como direito, as políticas sobre orientação sexual e identidade de género e os programas de educação sexual que “procuram redefinir a diferença entre homem e mulher e enfraquecem a família.”

O cardeal não se limitou, porém, a uma denúncia moral. Procurou demonstrar como resoluções parlamentares, acordos de cooperação e instrumentos financeiros podem constituir um verdadeiro sistema de condicionalidade. A ajuda ao desenvolvimento deixa, assim, de responder às prioridades definidas pelos países africanos para passar a depender da aceitação de categorias políticas e culturais estabelecidas em Bruxelas.

Sarah apontou como exemplo o relacionamento da União Europeia com o Uganda, criticando a utilização de sanções, pressões diplomáticas ou ameaças de retirada de benefícios comerciais para obter alterações à legislação nacional. A seu ver, a cooperação transforma-se, nestas circunstâncias, num instrumento de poder e numa violação do princípio da autodeterminação dos povos.

‘Um dos momentos mais duros surgiu quando recordou a intervenção de António Guterres em defesa da descriminalização da homossexualidade em África. Sarah contrapôs essa prioridade à falta de água potável, comida, cuidados de saúde básicos. “Não se pode fazer depender a dignidade dos pobres da aceitação de uma agenda cultural definida noutro continente.”‘ Foto: DR

Um dos momentos mais duros surgiu quando recordou a intervenção de António Guterres em defesa da descriminalização da homossexualidade em África. Sarah contrapôs essa prioridade à falta de água potável, comida, cuidados de saúde básicos. “Não se pode fazer depender a dignidade dos pobres da aceitação de uma agenda cultural definida noutro continente.”

O discurso não foi apenas um alerta para a Europa. Sarah reconheceu a responsabilidade dos próprios dirigentes africanos na corrupção e na má governação e pediu uma solidariedade assente no alívio da dívida, na transferência de tecnologias para a saúde e a agricultura e no apoio às redes escolares e sanitárias.

Também dirigiu um apelo à Igreja ocidental, que considera enfraquecida pela perda da sua identidade e da sua voz profética. “Escutem África. Respeitem a sua soberania cultural. Ofereçam uma cooperação livre, não condicionada por agendas ideológicas”, pediu.

Num Parlamento habituado à linguagem prudente dos compromissos, Robert Sarah escolheu a frontalidade. A questão incómoda que permanece é: pode a Europa apresentar-se como parceira de África se define previamente os valores que os africanos devem aceitar para poderem receber o seu apoio?

 

Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.

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