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autores_Maria do Sameiro Pedro

[Entre Margens]

Que Igreja Católica é esta?

 

Uma primeira versão deste texto resulta das minhas reflexões, na sequência dos diálogos mantidos no seio de um grupo de leitores do 7MARGENS que se tem ocupado da Sinodalidade. Em boa hora, deparei-me com uma mensagem do Papa Leão XIV dirigida aos participantes do II Encontro italiano de Representantes Locais para a Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis, noticiada pelo Vatican News e pela Agência Ecclesia. Aí é afirmado: “Uma comunidade cristã experimenta a conversão evangélica quando não se defende da dor daqueles que sofreram, mas se permite ser questionada; quando não minimiza o mal, mas o reconhece; quando não se fecha por medo do escândalo, mas aceita o exigente caminho da verdade, da justiça e da cura.” Recomendo vivamente a leitura do texto integral, cujo conteúdo ultrapassa, em muito, as fronteiras de Itália.

1. Como ponto de partida, não posso deixar de afirmar que calar é uma forma de ser conivente. Mais ainda, calar é normalizar o inadmissível, até porque calar traz-nos à memória todos os silêncios ensurdecedores que não queremos que se repitam. Por isso, não nos devemos escusar a fazer ouvir a nossa voz e a perguntar: que Igreja Católica é esta? Onde está a misericórdia? Que testemunho damos do Evangelho?

Como é manifesto, temos confirmado, uma e outra vez, o conhecimento que a Igreja Católica tem desde há largas décadas da existência de vítimas de abusos no seu seio, assim como de agressores, sempre escondendo e protegendo estes últimos. Recentemente, e a título de exemplo, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) decidiu pela redução do valor das indemnizações a pagar às vítimas de abusos sexuais, ao passo que a Arquidiocese de Braga aceitou sem reservas conhecidas a reabilitação, pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, de um seu cónego, pelos atos do qual o arcebispo tinha chegado inclusive a pedir perdão junto dos paroquianos de Joane.

2. Está em causa a relação com o outro, a empatia e a proximidade. A linguagem revela-o: as vítimas são eles, os outros, aqueles que chegam a ser designados por “denunciantes” (no recente comunicado da Arquidiocese de Braga). Efetivamente, as vítimas são os destinatários de um discurso assético e educado, evidenciando tão só uma função burocrática. Pelo que não podemos deixar de inquietar-nos. Afinal, onde está a genuína consternação que resulta da relação com o outro? Onde está a vergonha desarmada e desarmante, como os sulcos das lágrimas no rosto de Pedro? Será medo do mundo? Resultará de uma cultura de obediência em função do poder, das expectativas de carreira eclesiástica?

Em fim de contas, não nos propõe Deus a todos um diálogo mediado pelo decálogo, como tão bem nos explicou o Papa Francisco? Não nos ensinou Jesus a tratar Deus com intimidade, partilhando um “Pai nosso” que nos lembra a fraternidade que nos define? A quem serve esta cultura de preservação do carácter sagrado dos sacerdotes? Não somos, antes de tudo, iguais pelo batismo? Não é a função de todos servir?

Reunião do Conselho Permanente da CEP, 13 janeiro 2025. Foto Ecclesia MC

Reunião do Conselho Permanente da CEP, 13 janeiro 2025. Foto © Ecclesia MC

3. A CEP apresenta-se como estrutura máxima de poder, centralizada e autocrática, com repercussões em cada paróquia, por intermédio de cada diocese. Uma organização piramidal de poder que faz perdurar um anacronismo, a qual deveria ter terminado com os ensinamentos do Concílio Vaticano II. Como pode a sinodalidade avançar se, de facto, não somos considerados todos iguais? Não somos todos equidistantes de Cristo? Assim, como podemos, todos os que somos Igreja, não ser sensíveis à dor e ao grito do irmão que está ao nosso lado?

Em última análise, é a dignidade humana que está em causa. E esta encontra em Cristo o seu mais elevado expoente e o seu mais consistente defensor. Acreditamos nisto? Agimos em conformidade? São respeitados os direitos humanos das vítimas e a Doutrina da Igreja mesmo para lá da estrita legalidade, cingindo-nos ao previsto no Regulamento sobre o processo de compensações financeiras às vítimas de abusos sexuais sofridos enquanto menores ou adultos vulneráveis no contexto da Igreja Católica em Portugal? Fará sentido que ainda surjam testemunhos de vítimas sobre a situação de vulnerabilidade e abandono a que foram expostas quando foram ouvidas neste âmbito? Por outro lado, fará sentido que lhes seja vedado pleno acesso à memória produzida do testemunho que deram, como as próprias afirmam não ter?

4. Temos em Cristo o testemunho de um homem extraordinário que, mais de dois mil anos após o seu nascimento, continua a desafiar-nos para viver como ele viveu, num absoluto amor gratuito. Sabemos que acabou morto pelas autoridades do seu tempo, pois as estruturas de poder desse tempo viam nessa gratuidade uma ameaça. Acreditamos que ressuscitou. Acreditamos que, pelo nosso batismo, com ele morremos e com ele ressuscitamos. Não o conseguimos provar, efetivamente, mas tal não nos impede de sentirmos o dever de não calar o que nos inquieta, pois a cada um dos cristãos, como a todos os seres humanos, cabe a responsabilidade de construir um mundo de relações fraternas entre iguais.

Sabemos que o mundo inteiro está numa profunda crise que não parece parar de agudizar-se. Por isso, acompanhamos com júbilo o pontificado de Francisco e depositamos forte esperança em Leão XIV. Estamos progressivamente mais conscientes de que calar a discordância relativamente a caminhos que não contribuem para um mundo fraterno nos torna cúmplices duma Igreja que não consegue assumir a sinodalidade na sua plenitude.

Vivemos a vida em situação de fragilidade; aí reside a força de nos abrirmos a Deus, de fazermos a experiência da sua Misericórdia, do seu Amor sem tamanho, que chega a nós como uma fonte que nunca se esgota, que sempre nos dá mais e mais, sempre, qualquer que seja a nossa circunstância. Afinal, onde está misericórdia nas estruturas temporais de poder da Igreja em Portugal? Que testemunho daí recebemos? Que imagem de Cristo aí encontramos? Onde está o testemunho do homem que perdeu a vida, condenado por defender os pobres e injustiçados deste mundo? Pilatos lavou as mãos, mas nós não somos representantes do poder de Roma. Queremos ter parte com Cristo nas ações da nossa vida. E também nas palavras, quando necessárias. Felizmente há esperança nas palavras do nosso Papa Leão, como comecei por referir na abertura deste texto.

Papa Leão XIV

Papa Leão XIV. Foto © Vatican News

Mensagem do Santo Padre, assinada pelo Cardeal Secretário de Estado Cardeal Pietro Parolin, por ocasião do II Encontro Nacional de Representantes Territoriais para a Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis ​​​​[16-18 de abril de 2026]

Ao Cardeal Matteo Zuppi Presidente da Conferência Episcopal Italiana Do Vaticano, 10 de abril de 2026

Vossa Eminência Reverendíssima,

Transmito as cordiais saudações do Santo Padre Leão XIV a Vossa Eminência e aos participantes no segundo encontro nacional de representantes locais para a proteção de menores e adultos vulneráveis, organizado pelo serviço nacional da Conferência Episcopal Italiana.

O tema, “Gerar relações autênticas”, aponta para uma tarefa essencial das comunidades cristãs. De facto, quando cada pessoa é reconhecida na sua dignidade e a sua liberdade é salvaguardada, as paróquias, associações e movimentos tornam-se confiáveis, capazes de acompanhar, educar e proteger; onde, por outro lado, falta respeito, as relações empobrecem, distorcem e podem causar graves danos.

Na perspectiva cristã, o respeito não é uma mera questão de decoro: é uma forma exigente de caridade, expressa na protecção do outro sem apropriação, no acompanhamento sem dominação, no serviço sem humilhação. Desta raiz brota a possibilidade de relações claras, maduras e seguras. Por esta razão, a proteção não pode ser entendida apenas como um conjunto de regras a aplicar ou procedimentos a seguir: exige uma sabedoria que perpassa o estilo das comunidades, a forma como a autoridade é exercida, a formação dos educadores, a vigilância sobre os contextos e a transparência no comportamento.

A presença dos mais jovens e dos mais vulneráveis ​​apela à consciência da Igreja e mede a sua capacidade de expressar um cuidado autêntico, isto é, de proteger, de escutar, de prevenir e de não deixar ninguém sozinho. Também por isso, o trabalho daqueles que promovem a formação, o discernimento, a coordenação e as boas práticas representa um contributo valioso para o desenvolvimento de comunidades mais acolhedoras e conscientes.

É necessário dar especial atenção às pessoas que sofreram maus tratos: as suas feridas exigem proximidade sincera, escuta humilde e perseverança na busca do que é certo e possível para reparar o dano. Uma comunidade cristã vive a conversão evangélica quando não se defende da dor dos que sofreram, mas se deixa desafiar por ela; quando não minimiza o mal, mas o reconhece; quando não se isola por medo do escândalo, mas aceita trilhar os caminhos exigentes da verdade, da justiça e da cura.

Por isso, o vosso encontro assume um significado que ultrapassa o âmbito prático, convidando a Igreja a crescer numa cultura de prevenção que é, antes de mais, uma cultura de cuidado evangélico. A peça que estreará na vossa conferência, Ed io avrò cura di te (“E eu cuidarei de ti”), também contribuirá para isso.

Sua Eminência, caros amigos, o Papa Leão XIV encoraja-vos a prosseguir com confiança o vosso trabalho, para que floresçam nas dioceses italianas comunidades onde os mais vulneráveis ​​sejam acolhidos, protegidos e amados. Ele confia a cada um de vós, juntamente com o seu serviço, à intercessão da Santíssima Virgem Maria, Mãe da Igreja, e concede-lhes cordialmente a sua Bênção Apostólica.

Desejo-lhes também muito sucesso nesta iniciativa e muitas bênçãos pelo seu serviço à Igreja e à sociedade.

Aproveito esta oportunidade para confirmar, com o máximo respeito,

Sua Eminência Reverendíssima seu devotamente no Senhor Cardeal Pietro Parolin Secretário de Estado

 

Maria do Sameiro Pedro é professora adjunta de Língua e Literatura Portuguesas no Politécnico de Beja. Integrou a Comissão de Acompanhamento do Programa do Ensino do Português no 1º Ciclo e faz parte da Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura 2027. Foi catequista de adultos (2019-2024) e é colaboradora do 7MARGENS.

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

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