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Papa assina a sua primeira encíclica, magnifica Humanitas. Foto Vatican Media
"Convido a olhar com lucidez para as cadeias de produção digital", pede o Papa na sua primeira encíclica. Foto © Vatican Media

Primeira encíclica de Leão XIV

“Magnifica Humanitas”: um roteiro ético e espiritual para a era da inteligência artificial

| 25/05/2026

A tão aguardada primeira encíclica de Leão XIV foi apresentada esta segunda-feira, 25 de maio de 2026, no Vaticano. Intitulada Magnifica humanitas (Humanidade magnífica), a carta diz logo no seu subtítulo — “Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial” — ao que vem. O Papa foca-se na urgência de proteção da pessoa humana, da Casa Comum e da justiça social face ao avanço da inteligência artificial (IA) e da robótica, alerta para os riscos da concentração do poder nas mãos de poucos, repudia o conceito de “guerra justa”, e propõe um exame de consciência às próprias estruturas internas da Igreja Católica, ao mesmo tempo que recupera a matriz da sua Doutrina Social como um caminho que precisa de continuar a ser percorrido.

O texto, já disponível no sítio da Santa Sé em português, sublinha com clareza que a tecnologia não é neutra. “Ela tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam” e “precisa de ser desarmada”, escreve o Papa, recusando tanto o entusiasmo ingénuo como o medo estéril.

Ao longo de 245 parágrafos e 41.500 palavras (esta encíclica tem três vezes o tamanho de Rerum novarum, escrita por Leão XIII, e sensivelmente o mesmo que a Laudato si’ de Francisco), Leão XIV defende que o verdadeiro progresso só pode ser medido pela capacidade de proteger os mais frágeis e de garantir a dignidade de cada pessoa.

 

Quando a injustiça se torna “silenciosa”

Um dos eixos centrais da encíclica é a denúncia do “paradigma tecnocrático” e do imenso poder digital concentrado no setor privado. Leão XIV nota que, ao contrário do que sucedia no século passado, quando os Estados dirigiam a inovação, os principais motores de desenvolvimento são agora sujeitos privados e transnacionais, havendo entidades que detêm recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos.

Esta assimetria traduz-se numa soberania de facto que dita as regras de visibilidade, o acesso a oportunidades e as condições de participação social. O Papa alerta para o perigo de decisões humanas fundamentais — como a atribuição de crédito, o acesso ao trabalho ou a serviços básicos — serem inteiramente delegadas em sistemas automatizados. E avisa que os algoritmos opacos correm o risco de reproduzir preconceitos e discriminações, mascarando o descarte dos fracos sob uma capa de neutralidade e objetividade técnica. “E assim, a injustiça torna-se silenciosa, e desaparecem do horizonte a compaixão, a misericórdia e o perdão, não como mera aparência, mas enquanto gestos políticos”, lamenta.

 

Pedir prudência e regulação não é ser contra o progresso

 

Para fazer face a esta deriva, Leão XIV opera uma atualização dos princípios fundamentais da Doutrina Social da Igreja [ver 7MARGENS]. Na continuidade histórica de encíclicas como a Rerum novarum (1891) de Leão XIII ou as recentes Laudato si’ e Fratelli tutti do Papa Francisco, o atual Papa estende o princípio da “destinação universal dos bens” ao ecossistema informativo.

Na encíclica, Leão XIV defende objetivamente que patentes, algoritmos, plataformas digitais, dados e infraestruturas tecnológicas não podem ser monopólios absolutos. Sendo a riqueza contemporânea gerada pelo conhecimento, a retenção opaca destes recursos aprofunda o fosso entre integrados e excluídos.

Por isso, o Papa exige auditorias independentes, clareza algorítmica e a intervenção reguladora dos Estados e de instituições supranacionais para assegurar uma governação ética e transparente. E esclarece: “Apelar à prudência, a auditorias rigorosas e, por vezes, a um abrandamento na adoção da IA não significa ser contra o progresso, mas sim exercer a salvaguarda responsável da família humana”.

Paralelamente, a carta transparece uma forte preocupação ambiental relacionada com a IA . Leão XIV recorda o impacto ecológico da revolução digital, apontando o consumo intensivo de água e energia exigido pelos grandes modelos linguísticos e centros de dados, e apelando ao desenvolvimento de soluções sustentáveis.

 

Viver a justiça na própria Igreja

Apresentação da enciclica Magnifica Humanitas, 25 maio 2026. Foto Vatican Media 5

O texto vincula a subsidiariedade e a justiça interna ao aprofundamento de um estilo sinodal de governação. Foto  © Vatican Media

Num gesto de honestidade e coerência, o Papa dedica parte da carta a aplicar estes princípios à própria Igreja Católica. Magnifica Humanitas assume que a Doutrina Social deve ser, antes de tudo, um “exame de consciência” eclesial.

O texto vincula a subsidiariedade e a justiça interna ao aprofundamento de um estilo sinodal de governação, onde a transparência e a prestação de contas devem ser efetivas. Para Leão XIV, não restam dúvidas: viver a justiça na Igreja exige a eliminação de “distorções que geram desigualdades, opacidades e prevaricações”.

O Papa declara explicitamente que a escuta atenta das vítimas de abusos espirituais, económicos, institucionais, sexuais, de poder e de consciência é parte integrante deste caminho inegociável, o qual “inclui o reconhecimento do dano causado, a justa reparação e a prevenção”.

 

O verdadeiro progresso, em tempos de IA

A encíclica encerra com uma exortação à esperança e à ação. Leão XIV convida os católicos e todas as pessoas de boa vontade a “sujar as mãos no estaleiro de obras do nosso tempo”, resistindo à tentação de delegar a construção do futuro nas máquinas. Para o Papa, o verdadeiro progresso nascerá sempre de “um coração aberto ao outro, de uma inteligência disponível para ouvir, de uma vontade que procura mais o que une do que o que separar”, salvaguardando a beleza singular da experiência humana.

“Convido a olhar com lucidez para as cadeias de produção digital, para as condições de trabalho escondidas por trás dos nossos dispositivos, para os mecanismos que tiram partido da manipulação e da guerra; e, ao mesmo tempo, a procurar caminhos concretos para fazer crescer a equidade, a participação e o cuidado da criação”, escreve na conclusão da encíclica.

Porque, acredita o Papa, “na humilde fidelidade de cada dia, também a era da IA pode tornar-se uma etapa em que o Espírito faz amadurecer a civilização do amor na nossa vida”… na vida desta magnifica humanitas.

 

 

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