A relação da poesia portuguesa com a transcendência, a partir do lugar da interrogação, será o foco do próximo Encontro de Reflexão Teológica, promovido pelo Metanoia – Movimento Católico de Profissionais. O orientador da reflexão, o poeta, professor e editor José Rui Teixeira, abordará, além da sua própria poesia (à volta da perda e da regeneração) também a de Tolentino Mendonça, Daniel Faria e Sophia (Teixeira é também o responsável da cátedra Poesia e Transcendência Sophia de Mello Breyner, na Universidade Católica).
Entre 30 de Julho (a partir das 18h) e 2 de Agosto, José Rui Teixeira apresentará sucessivamente cinco temas: “Um cosmorama da relação da poesia portuguesa com a transcendência desde o lugar da interrogação”; “A experiência do mistério. Da nudez e da inteireza”, sobre a poesia de Sophia de Mello Breyner; “A experiência metanóica. Da procura e do pressentimento” (José Tolentino Mendonça); “A experiência mística. Da noite escura e dos territórios do abandono” (Daniel Faria); e “A experiência da regeneração: Da perda e da recuperação: leituras auto-interpretativas da poesia de José Rui Teixeira”.
O tema ficará completo com duas intervenções sobre outros autores: Ruy Cinatti será lido por Peter Stilwell (autor do livro A Condição Humana em Ruy Cinatti) e Ruy Belo, por Manuel António Ribeiro. O encontro terá como tema genérico “Religar a palavra ao silêncio, o visível ao invisível – percursos espirituais a partir de leituras da poesia portuguesa contemporânea”. A inscrição no encontro é feita através de formulário digital: https://forms.gle/Wn9whVzLesXmEbCa9
“A poesia serve para tudo e não serve para nada. É sempre muito angustiante quando colocamos a pergunta” sobre a sua utilidade, “porque ela traz uma pequena malícia, a malícia do mundo pragmático em que nós vivemos e a utilidade das coisas”, dizia Teixeira há dois anos, em entrevista ao 7MARGENS e Antena 1. [ver 7MARGENS]
Ou, como se debatia nessa entrevista, limar as unhas do diabo é uma empreitada que se pode transformar num verso de poema. “Às vezes perguntam-me se [a poesia] salva o mundo; eu acho que não; mas salva o dia, salva o momento. Há uma redenção que a poesia possibilita, alertando-nos para a importância tão tremenda das coisas que não são necessariamente úteis.”
José Rui Teixeira tem licenciatura em Teologia, ciência que é um “factor de resistência”. De “resistência do humano, contra a tentação das ciências humanas em resvalar para a zoologia”, dizia ele, numa outra entrevista para o livro Teologia como Resistência, de António Marujo, editado pela Universidade Católica Editora. No âmbito académico, Teixeira tem também um mestrado em Filosofia e doutoramento em Literatura, além de pós-doutoramentos em Filosofia, Filologia e História (este a decorrer), José Rui Teixeira desenvolve desde 2020 (em plena pandemia) o projecto da Officium Lectionis, editora de poesia cujos livros se têm afirmado pela qualidade gráfica e dos autores escolhidos para o catálogo.

O poeta, professor e editor José Rui Teixeira, abordará, além da sua própria poesia (à volta da perda e da regeneração) também a de Tolentino Mendonça, Daniel Faria e Sophia (Teixeira é também o responsável da cátedra Poesia e Transcendência Sophia de Mello Breyner, na Universidade Católica). Na imagem, a poesia de Sophia. Foto: Direitos reservados.
Acontecimento poético e espiritualidade
Nascido no Porto em 1974, José Rui Teixeira integra centros de investigação na Europa e na América Latina e já foi responsável do Colégio Luso-Francês no Porto.
O catálogo da editora inclui a publicação da poesia integral de importantes nomes como Guilherme de Faria, António Pedro, António Nobre ou Teixeira de Pascoaes. “Pascoaes, saudosismo e escatologia” foi o tema da dissertação de José Rui Teixeira em teologia. O que o faz estabelecer uma relação entre poesia e teologia: “O acontecimento poético era um acontecimento do qual eu não dissociava a expressão da minha espiritualidade, ou seja, a minha vivência deste lugar, de um lugar mais íntimo ou menos íntimo para a transcendência.”
Pascoaes escreveu biografias romanceadas de São Paulo, Santo Agostinho ou São Jerónimo. E José Rui Teixeira chegou a ele por via do padre Ângelo Alves, da diocese do Porto, grande especialista no poeta de Amarante, que “entrou como leitura nesse espaço, nessa caixa de ressonância que foi a teologia”.
Com quatro volumes já publicados da sua poesia, além de um volume de Pensamentos e Máximas, José Rui Teixeira considera aquela uma obra “marcadamente espiritual, também ela gnóstica” – uma dimensão que se revela, por exemplo, num dos seus grandes poemas, “Jesus e Pã”, remetendo para uma espécie de diálogo entre Jesus e o deus dos bosques da mitologia grega. “A visão de Pascoaes também passa pela alegria da ressurreição, dessa Páscoa da natureza e simultaneamente a Páscoa da criação inteira”, explica o editor da Officium.
Também Joaquim Félix de Carvalho, de quem o 7MARGENS tem publicado múltiplos textos, ou Luís Soares Barbosa, que tem publicado “pequenos poemas da nossa circunstância” na rubrica “Todo o dia é véspera”, são outros autores publicados na editora. Jaime Rocha, Maria Eulália de Macedo, Rui Nunes, Ruy Ventura, Valter Hugo Mãe e, mais atrás no tempo, Frei Agostinho da Cruz são outros nomes do catálogo.
Além dos portugueses, destacam-se ainda poetas como o espanhol López Vega, as galegas Nieves Neira Roca, Chus Pato ou Miriam Reis, o venezuelano José Antonio Ramos Sucre, o argentino Hugo Mujica e a alemã Hilde Domin, que morreu em 2006. [ver outros elementos no 7MARGENS].
Entre os livros que José Rui Teixeira já escreveu, estão os dois volumes de Luto, que reúne a sua obra poética, e Sismo, o mais recente. A entrevista que deu há dois anos ao 7MARGENS pode ser escutada na RTP Play.










