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[Entre Margens]

Para ler a Bíblia com informação histórica

| 20/07/2026

Todos estamos mais ou menos lembrados do terramoto cultural que foi a proposta da “evolução das espécies” por Darwin, no século XIX. A nova leitura dos fenómenos da vida atravessou os crentes sob a forma de pergunta: mas foi Deus que criou o Homem ou ele resultou da evolução das espécies? Muitos jovens, confrontados entre o ensino na catequese e o ensino na escola, nunca tiveram quem os ajudasse a encontrar uma resposta. O mesmo se repetiu com a teoria do Big Bang.

E ainda hoje há quem ensine o Genesis à letra. No entanto, a leitura literal da Bíblia já era considerada por Santo Agostinho, no século V, um erro, “ridícula aos olhos dos não crentes”. E a Pontifícia Comissão Bíblica condenou, em 1993, a leitura fundamentalista da Bíblia.

Um novo episódio da mesma série está prestes a acontecer, quando os crentes forem (e já estão a ser) confrontados com as descobertas de uma nova ciência, agora a História. Podem fechar os olhos e os ouvidos, ou podem querer saber o que se passa. E precisam de dar boa resposta – aos outros e a si mesmos – sobre como ler a Bíblia face ao que se vai descobrindo.

Um dos preciosos auxiliares pode ser o livro A Bíblia do Princípio ao Fim: Um guia de leitura para hoje, de Alberto de Mingo Kaminouchi (editora Paulus, 2020). O título diz tudo. Kaminouchi é licenciado em Sagrada Escritura e doutorado em Teologia Bíblica. Sabe, portanto, do que fala. E que diz ele?

Pega na Bíblia e, livro a livro, “do princípio ao fim”, do Genesis ao Apocalipse, vai cruzando o que diz o texto bíblico com o que dizem a História e a Arqueologia sobre o mundo a partir do qual foram escritos cada um dos ditos livros. E cruza tudo isso numa leitura teológica. Há 2.500 anos, por exemplo, os autores não tinham ao seu dispor os recursos culturais que existem hoje. Mas nós hoje dispomos deles e não devemos ignorá-los, sob risco de nos negarmos a nós próprios e também fazermos figura “ridícula” perante as pessoas informadas.

Biblia do principio ao fim capa Paulus

O livro, editado em Portugal pela Paulus, vai cruzando o que diz o texto bíblico com o que dizem a História e a Arqueologia.

O autor, especialista e crente, é, portanto, um bom guia para quem quer ler, hoje, a Bíblia com inteligência. Até porque começam a estar disponíveis leituras de todos os tipos a partir das recentes descobertas históricas.

A obra é volumosa (633 páginas), mas lê-se com facilidade, pois o autor mastiga a ciência tornando-a acessível a leitores sem grande formação escolar nestes domínios. É uma obra que interessa também a não crentes, na medida em que lhes permite aceder a um património da Humanidade.

A Igreja Católica em Portugal parece ter esquecido, em grande medida, fora dos grandes centros, um diálogo pastoral entre a fé e a cultura, incluindo a cultura científica. Não admira que muitos crentes se vejam confrontados com um analfabetismo para lá da fé mais ou menos ingénua quanto à dimensão crítica do conhecimento. É claro que uma pessoa imersa numa cultura popular e tradicional não tem menos fé e não é menos crente que uma pessoa ilustrada nos vários tipos de conhecimento. Mas esta pessoa, informada e dotada de exigências críticas, não pode nem deve calar as perguntas, suas e de outros, que o confrontam. E, se calar as perguntas ou não cuidar das respostas, começa a criar fissuras e buracos no edifício da sua pessoa. A Igreja há muito insiste na “formação integral da pessoa humana”. Que não existe se houver uma recusa de diálogo entre a cultura religiosa e a cultura profana, entre fé e ciência, entre crentes e não crentes.

E como a Bíblia é alicerce de três grandes religiões, este livro parece interessar a cada uma delas.

 

P.S. – Um outro livro, Para Além da Bíblia: História Antiga de Israel, de Mario Liverani (edição brasileira, Paulus e Loyola), conta com mais minúcia a História por detrás do Antigo Testamento.

 

José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com

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