[domingo xviii do tempo comum ― a ― 2026]
1. Iniciámos, ontem, o mês de agosto,
durante o qual muita gente faz habitualmente as férias.
Há quem se desloque para lugares diferentes
à procura de descanso e de conhecer realidades novas;
outros há que preferem voltar às suas origens, como os emigrantes,
ou permanecer por casa, num ritmo mais pausado e retemperador.
Não faltam opções para, segundo as possibilidades e as vontades,
fazer com que esta altura nos retempere segundo a libertação do tempo.
E ― porque não dizê-lo? ―, segundo a libertação
que a bela mensagem e os gestos de Jesus proporcionam.

[Borboleta-colibri bebendo o seu néctar do meio dia, no Jardim Místico do convento dos Carmelitas Descalços, Veneza. Foto © Joaquim Félix]
2. Durante a semana passada, numa volta por Itália,
vi como os programas de férias podem ser diferentes.
Na Via Marmorata, em Roma, sobre as passadeiras,
junto ao cruzamento que dá para o Instituto Litúrgico Santo Anselmo,
vi uma criança ― mais ou menos da idade do Duarte ou da Eduarda ―
agarrada a uma trotinete com a mão dada, provavelmente, ao seu pai.
Chamou-me a atenção o lema que trazia gravado na sua T-shirt:
«Faz desporto, lê um livro.
Exercício quotidiano para treinar o teu cérebro».

[Lema na T-shirt de uma criança. Via Marmorata, Roma. Foto © Joaquim Félix]
Já na Praça de S. Pedro, entre os braços da colunata de Bernini,
enquanto aguardava para passar nas portas de controlo,
vi um jovem adulto com outro propósito bem distinto,
igualmente gravado na sua T-shirt, como um poema:
«Uma bebida fresca
o calor do sol
rir com o teu melhor amigo
e a ideia de não fazer nada».
Sem termos de escrever os nossos programas nas T-shirts,
podemos delinear a forma como a vida pode ser por inteiro.

[Lema na T-shirt de um jovem adulto. Praça de S. Pedro, Vaticano. Foto © Joaquim Félix]
3. Reunimo-nos, em família, num sítio isolado na floresta.
Como saberemos, esta ermida ― S. Vicente de Fragoso ―,
situa-se num lugar de grande significado
para a comunidade de que fazemos parte,
pois, no ano de 1127, recebeu a primeira Carta de Couto
concedida pelo infante D. Afonso Henriques.
Além disso, aqui ao lado, encontra-se a Fonte da Virtude,
na qual, segundo a lenda, a rainha Santa Isabel fez brotar água
para dessedentar os peregrinos na passagem por este lugar fragoso,
a caminho de Santiago de Compostela.
Mais, no antigo tanque, as pessoas tinham o costume de mergulhar,
persuadidas de que as suas águas frescas curavam as suas doenças.
Durante as festividades de S. João Batista,
há quem mergulhe nas suas águas para refrescar a alegria folgazã,
mas também há quem aqui vem ― de noite, para não ser visto ―
com a mesma fé de antigamente, esperando a cura de enfermidades.
4. «Todos vós que tendes sede, vinde à nascente das águas.
Vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei.
Vinde e comprai, sem dinheiro nem despesa, vinho e leite» (Is 55,1).

[Alvoroço entre as aves, depois de um pobre ter partilhado o seu alimento com elas. Roseto Comunale, Aventino, Roma. Foto © Joaquim Félix]
Estas palavras foram escritas, em primeiro lugar, para os judeus,
que se encontravam no exílio babilónico, desde o ano 597 a.C.
Porque demorasse a sua libertação,
duvidando da palavra dos profetas, muitos começaram a instalar-se,
desacreditados da possibilidade de regresso a Jerusalém e suas casas.
As palavras animadoras que ouvimos, lidas desde o livro de Isaías,
são as últimas do designado «livro da consolação» (cf. Is 40-48).
O Senhor não deseja que o seu povo se habitue à escravidão.
Antes, Ele quer que o seu povo viva por inteiro, em liberdade.
Porque, sem liberdade, não é possível a vida nem o culto.
5. Num contexto outro, estas palavras podem servir-nos de consolo,
sobretudo num tempo em que, também nós, andamos fatigados.
Vivamos as férias com experiências de libertação do tempo,
da rotina dos trabalhos e de inúmeras canseiras.
Porque não havemos de acolher o convite do Senhor,
que acrescenta ainda, em tom pessoal:
«Prestai-me atenção e vinde a Mim;
escutai e a vossa alma viverá» (Is 55,2).
Sem atenção, mesmo em férias, como poderemos viver?
Se ensurdecermos, como havemos de ouvir os outros?
A escuta é o alimento da alma.
Quem poderá viver sem escutar Deus, os outros e as criaturas?
Deixando de escutar, não morre apenas a alma,
sucumbe também o corpo, o ser na sua integridade.

[Quem poderá viver sem escutar Deus, os outros e as criaturas? Na porta da Basílica de Santa Maria em Aracoeli, Roma. Foto © Joaquim Félix]
6. O escultor Manuel Rosa, amigo de longa data,
disse-me que um dos problemas do nosso tempo
reside na acelerada perda da atenção.
Se não prestarmos atenção, deixaremos de ir até ao Senhor,
de dialogarmos com Ele e os outros,
porque, como escreveu Simone Weil, «a oração é feita de atenção».
Também a propósito da atenção,
o amigo Eduardo Jorge Madureira recordou-me, há dias,
algo que a Simone Weil escreveu no seu precioso ensaio,
intitulado «Reflexões sobre o bom uso dos estudos escolares
em vista do Amor de Deus»:
«A formação da faculdade da atenção
é o verdadeiro fim e quase o único interesse dos estudos».
7. Tendo prestado atenção às palavras do Evangelho,
recordamos que Jesus, depois de saber da morte de João Batista,
se retirou «num barco para um local deserto e afastado» (Mt 14,13).
Contadas as parábolas do reino, três delas ouvidas no último domingo,
Jesus mostra, através de uma experiência concreta,
como se realiza esse mesmo reino entre as pessoas.
A narração do acontecimento fornecida por S. Mateus
está repleta de detalhes, nenhum deles desprovido de importância.

[Formação da faculdade da atenção. Jovem escutando atentamente músicas e textos de Hildegarda de Bingen, insetos, nomes de frutos, etc., no Jardim Místico. Pavilhão da Santa Sé, Bienal de Veneza. Foto © Joaquim Félix]
8. Jesus escolhe uma refeição como forma de realização do reino.
O banquete, a partir da multiplicação dos pães e dos peixes,
sucede num lugar improvável; desértico, sim, mas com relva.
Jesus nunca desperdiçou o conforto dos assentos para comer!
Sem desconsiderar a multidão, cujas pessoas o seguiram a pé,
mal desembarca, logo se enche de compaixão e cura os doentes.
Afastados das suas cidades e em «hora avançada» (Mt 14,15),
parecem a multidão de marroquinos e de outras proveniências,
que atravessaram a fonteira e entraram em Ceuta.
Que nos parece, Jesus teria também compaixão desta multidão?
9. Os discípulos aproximaram-se de Jesus
referindo as dificuldades para as alimentar, tantas eram,
e para que fosse Ele a mandá-las embora.
Que lhes respondeu Jesus?
«Não precisam de ir embora; dai-lhes vós de comer» (Mt 14,16).
Só a partir de então passaram a ver a escassez do alimento:
cinco pães e dois peixes;
muito pouco para largos milhares de pessoas.
Sabemos como Jesus procedeu para transformar essa míngua.
Na semelhança do que sucede durante a celebração da Eucaristia,
Jesu elevou os olhos ao céu e pronunciou a bênção.
Qual foi o resultado?
Todos ficaram saciados e ainda sobraram pedaços
― só em pedaços é que tudo pode sobrar ―,
para, desde os doze cestos, alimentar todo o povo de Israel.
Com a partilha dos nossos bens, também nós podemos ajudar Jesus
a fazer milagres de multiplicação, sem desperdiçar os dons de Deus.

[«Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes». Robalinhos pescados no rio Lima, Viana do Castelo. Foto © Joaquim Félix]
10. Jesus, que não nos dispensa de proporcionar o alimento ao povo,
soube sempre cuidar da sua mesa,
numa lógica que parte da partilha do pouco ou muito que se tenha.
Mesmo a partir da escassez, se toda servida,
Ele multiplica os alimentos até sobrar sem desperdício.
Na semana passada, tive a oportunidade de contemplar com atenção
várias mesas da sua Última Ceia.
Com grande espanto, reparei que, na mesa da Última Ceia
que se encontra numa parede lateral na basílica de San Zeno Maggiore,
em Verona, se encontram além do pão e do vinho,
cerejas e ― imaginemos a qualidade da refeição! ― lagostins.

[Mesa da Última Ceia que se encontra numa parede lateral na basílica de San Zeno Maggiore, Verona. Foto © Joaquim Félix]
11. Em Jesus, cumprem-se as palavras ditas pelo Senhor:
«Firmarei convosco uma aliança eterna» (Is 55,3).
Jesus cuida bem da sua Ceia definitiva,
fazendo com que todos dela se alimentem,
quer na Eucaristia, quer em todos os lugares onde há gente com fome.
Para combater a fome, porém, Jesus não nos quer só saciados de comida.
Porque, como escreveu S. Paulo aos romanos, pode até haver fome,
mas nem essa carência nem outros perigos e violências
poderão afastar-nos do amor de Cristo (cf. Rom 8,35.37-39).
Notemos bem, Jesus pensa no que a comida pode proporcionar,
mas o reino comporta outros bens além do alimento.
Quase dá, creio eu, para recordar uma música rock,
a partir de dois temas, nem mais «O Que/Comida»,
originalmente gravada pelos Titãs e, mais tarde,
reinterpretada por Arnaldo Antunes, Marcelo Former e Sérgio Brito,
em formato acústico.
Nela, podemos meditar na versão longa, do que Jesus estará a propor:
«Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte
A gente não quer só comida
A gente quer bebida, diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida como a vida quer»
(…)
«A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro e não pela metade».

[Pessoas praticando desporto matutino, no lago junto a Pieve di Cadore, Itália. Foto © Joaquim Félix]
12. Tendo isto presente, alimentando-nos dos dons do Senhor,
poderíamos ficar a pensar na resposta a dar à sua pergunta:
«Porque gastais o vosso dinheiro naquilo que não alimenta
e o vosso trabalho naquilo que não sacia?» (Is 55,2).
Dirijamos-lhe, também, uma súplica, inspirados no salmo 144:
Abri, Senhor, as vossas mãos!
Saciai-nos a todos com generosidade.
Abri, Senhor, as vossas mãos!
Postos em vós estão os olhos de todos os esfomeados.
Nesta hora crepuscular do mundo,
transformai, pela partilha, a nossa escassez em abundâncias.

[Cristo partido, na igreja monumental de Longarone, Itália, projetada pelo arq. Giovanni Michelucci, depois da tragédia ocorrida no dia 9 de outubro de 1963, na qual morreram cerca de 2000 pessoas. Foto © Joaquim Félix]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens e Teorbas da Palavra. Este texto corresponde à homilia de domingo, 2 de agosto,[domingo xviii do tempo comum ― a ― 2026], proferida na Ermida de S. Vicente, em Fragoso, no arciprestado de Barcelos..










