Neste período que para muitos é de férias, convidamos os leitores e colaboradores do 7MARGENS a escrever sobre uma música, um livro, um disco, um filme ou uma obra de arte que tenha marcado, de forma especial, um dos seus verões.
Publicamos a seguir o quarto texto dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória. E ficamos a aguardar receber muitos mais em setemargens@setemargens.com.
Trago comigo a recordação de passeios na Serra de Sintra e arredores onde mensalmente um grupo se reunia para conhecimento de lugares pouco explorados e de difícil acesso. Percorríamos muitos quilómetros por trilhos cheios de pedras, de tojo e de ramos secos. Andávamos à beira mar, junto de precipícios, ou pelo meio do arvoredo onde os vestígios deixados nos levavam a adivinhar quais os seres não humanos que habitualmente os percorriam – não havia sinais de outros habitantes que não fossem cabras, cabritos e cobras, muitas cobras, que aprendemos a distinguir, evitando as perigosas.
O grupo era orientado por um professor de Educação Física, profundo conhecedor da zona, o que nos levou à descoberta de lugares onde raramente passava gente, mas dos quais se desfrutavam vistas deslumbrantes sobre mar, praias e falésias. Por vezes parávamos em aldeiazinhas perdidas nos montes, onde éramos sempre bem recebidos e interrogados – de onde vêm? quem são? porque vieram até aqui? o que acham da nossa terra? podemos tirar uma fotografia com o grupo para ficarem com uma recordação nossa?
Os passeios realizavam-se sempre ao sábado e os passeantes eram na sua maior parte adultos, com um ou outro adolescente. Como o grupo era divertido e acolhedor resolvemos levar connosco duas das nossas netas, nessa altura com nove e dez anos. O objectivo nesse dia era visitar o convento de Mafra, tendo sido Colares o ponto de partida. Havia paragens para desfrutar as vistas pois grande parte do trajecto era à beira mar. O ritmo da caminhada não era acelerado, mas andava-se bem pois havia um horário estabelecido para a visita a fazer ao convento e os participantes do grupo – excepto essas nossas netas – era gente habituada a andar.
Para nosso espanto e inquietação, ao fim de meia hora as meninas começaram a abrandar o ritmo, a pedir água e comida e a perguntar incessantemente “quando é que chegamos?” Lá as fomos entretendo com bolachas e histórias – a maior parte das vezes inventadas – sobre as terras por onde íamos passando até que chegámos a Mafra, onde todo o grupo se sentou na praça, à espera de um guia que nos fizesse uma visita guiada ao Convento.
Alertada por esta quantidade de pessoas, de bengala e óculos escuros, a gente da terra iniciou conversa com membros do grupo, tirando as suas conclusões sobre quem éramos e o que vínhamos fazer. Não me lembro das perguntas que fizeram nem do que lhes foi respondido. Só sei que, dias depois, no jornal da terra, saiu uma notícia da nossa visita, tendo como título “Grupo de invisuais vem conhecer o Convento de Mafra.”
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.










