Lídia nasceu perto de Lisboa, numa família de classe média, foi educada num colégio de freiras, depois de concluir o ensino secundário andou em institutos a aprender línguas (inglês, francês, italiano) e, depois, teve o azar de se apaixonar por um rapaz de quem os seus pais não gostavam.
O casamento mudou a sua vida: o pai deixou de lhe falar, mas em compensação a vizinhança falava cada vez mais dela. Não aguentou os mexericos e a pressão social. Em 1961 meteu-se num carro com o marido e uns amigos e abalaram para Frankfurt. O marido já tinha trabalhado na Alemanha, facilmente arranjou emprego numa fábrica. Nos primeiros anos viveram num quarto pequeno, com a cozinha a um canto e o quarto de banho de serviço no corredor. Tomavam banho à sexta-feira nos banhos públicos, com duches que funcionavam com moedas, “tinha de ser rápida, caso contrário acabava-se a água e ainda estava cheia de champô!”
O marido, que já tinha os papéis e podia trabalhar legalmente, ganhava 90 marcos por semana. O quarto custava 200 marcos por mês, o dinheiro não chegava. Lídia, sem papéis, começou a procurar um emprego. Percorria as ruas de vivendas ricas, tocava às campainhas, perguntava se tinham algum trabalho para ela fazer. Arranjou trabalho na cozinha de um hotel. Era clandestina, só podia trabalhar à noite. Lavava a louça, limpava, ajudava. “Vai-me buscar as batatas”, dizia o cozinheiro, e ela ficava aflita a olhar para a caixa de metal, enorme e pesadíssima, que não conseguia nem sequer arrastar. Punha-lhe uma corda à volta, tentava puxá-la, às vezes os colegas espanhóis davam uma ajuda. Mas não se deixava abater – “as coisas resolvem-se por si”, diz.
Quando o filho nasceu, em 1964, não tinham condições para o criar naquele quarto minúsculo, e sem creches nem avós por perto para ajudar. Com o coração desfeito, foram levar o bebé de três meses a Portugal, para ser criado pela mãe dela. Viam-no nas férias de Verão, o seu menino. “Havia muitos como nós”, conta Lídia. “Ninguém tinha condições para trabalhar e criar os filhos pequenos.”
Um chefe reparou nela e levou-a para o escritório. Legalizou a sua situação, e deu-lhe responsabilidades: a gestão das equipas de limpeza, onde trabalhavam muitos portugueses. Com o filho ainda em Portugal, dedicou-se ao trabalho de corpo e alma. Entrava às cinco e meia da manhã, saía às dez da noite, com duas ou três horas de descanso pelo meio. Na empresa tinha duches, serviam almoço e jantar. Ela e o marido só iam a casa dormir. Às vezes chegou a adormecer em pé, no trabalho.
Com o passar do tempo, a situação financeira do casal foi melhorando. Conseguiram alugar um apartamento inteiro, compraram um carro, foram buscar o filho – que já tinha sete anos – a Portugal. A avó ficou inconsolável – tinha criado aquele menino como se fosse sua mãe, e agora via-o partir para longe.
Entretanto veio o divórcio, e ela foi com o filho para outra cidade, bem maior que aquela a que estavam habituados. Continuava a trabalhar arduamente, faltava-lhe o tempo para acompanhar a criança. Pô-lo num internato, porque não o queria a crescer na rua.
Continuava a fazer a gestão de equipas de portugueses. Muitos deles chegavam do interior de Portugal, nem sequer sabiam o que era energia eléctrica. As mulheres não conheciam ainda os pensos higiénicos – limitavam-se a dar um nó nas combinações, entre as pernas. Para além da gestão das equipas, Lídia tentava ajudar a resolver os problemas burocráticos e prepará-los para a vida num mundo novo que os surpreendia permanentemente.
A rua de sentido único

Festa de portugueses em Berlim: Lídia está grata pelas experiências que teve. Foto © Helena Aráujo.
“Uma vez”, conta ela, “estava a ajudar uma mulher a preencher um formulário, mas ela não sabia onde morava. Disse-lhe que fosse a casa e anotasse o nome que via numa tabuleta na esquina, e que terminava com «straße». Ela voltou toda contente, e tinha escrito «Einbahnstraße» (em português: rua de sentido único)”.
Conta mais, tem inúmeras histórias para contar: “Na cantina da empresa comíamos todos juntos – tanto chefes como os empregados dos serviços mais humildes. Havia lá umas raparigas que tinham vindo de aldeias remotas do interior, tinham umas tranças muito compridas, cheias de piolhos. Estavam na fila da cantina, e os piolhos passeavam-lhes pela bata. Vieram dizer-me que tinha de fazer alguma coisa. Eu chamei o pai e ele disse que ter piolhos era normal, sempre os tinham tido. Respondi que ali não era normal, e que era preciso cortarem o cabelo, por muito que lhes custasse. A contragosto, foram ao cabeleireiro. Não sabiam que a porta era de vidro, e deram uma cabeçada tão grande que a partiram. A porta partida, e elas com a testa num estado lastimoso. Mas o cabelinho cortado, e todo aos caracóis porque fizeram uma permanente.”
Viu o filme A Gaiola Dourada, e gostou. “Aquilo não era só na França”, comentou. “Na Alemanha também nos acontecia. Uma vez a secretária da empresa onde nós trabalhávamos viu o nosso carro e comentou que não conseguia acreditar que pessoas como nós tivessem um carro assim bom. E outra vez estava na empresa com uma das minhas equipas, no intervalo do pequeno-almoço, e telefonaram-nos para irmos imediatamente falar com umas pessoas a outro sector da empresa. Largámos as chávenas de café acabado de fazer e fomos para lá a correr, muito preocupados. Era para nos ralhar, porque não havia papel higiénico numa das casas de banho. Eu disse que sim, pedi desculpa, e pelo canto do olho fiz sinal aos homens que ficassem calados. Eles sentiam-se humilhados e zangados, porque não há direito de nos interromper o intervalo do pequeno-almoço para fazer aquela cena. Mas nós precisávamos do emprego, ouvíamos calados.”
À pergunta sobre o que é difícil no trato com os alemães, responde de forma lapidar: “Temos de saber aguentar as pessoas como elas são, todos os povos têm as suas manias”, e acrescenta: “Os portugueses também. Também têm inveja, e gostam muito de falar dos outros. Eu faço é por não ouvir, sempre se vive melhor.”
Apesar de algumas más experiências, sentiu-se muito bem acolhida na Alemanha. Aprecia a boa-educação dos alemães e a atenção aos outros revelada nos mais pequenos gestos. Sente-se grata pelo chefe que reparou nela e lhe deu um trabalho mais exigente e bem pago, grata pelo autarca que a deixou ir para uma casa muito boa que estava devoluta, grata pela empresa que imediatamente lhe arranjou um bom lugar noutra cidade quando teve de se divorciar.
Advento e Natal, sim, mas a Páscoa alemã…

Festa de portugueses em Berlim: Lídia tira de cada país e cultura aquilo que lhe agrada mais, e faz uma síntese muito sua. Foto © Helena Aráujo.
Fala das coisas que aprendeu neste país, em especial da maneira calorosa de fazer festas. “Em Portugal, o mais importante é uma mesa farta. Aqui há mais cuidado, mais carinho na maneira de estar com as pessoas. Uma vez organizei uma festa de Natal lá em casa, convidei amigos alemães e uma portuguesa que estava sozinha e até dormiu lá em casa, e mais dois soldados franceses, que estavam longe da família. Arranjei as letras da Marselhesa e de canções de Natal francesas, e cantámos todos juntos. Foi uma festa de Natal muito bonita com portugueses, alemães e franceses – isto é que não se faz em Portugal.” Gosta muito do Advento na Alemanha, e de todos os rituais de Natal, dá exemplos: “A igreja está às escuras, e a certo momento canta-se Oh Du Fröhliche e acendem-se as luzes – é muito especial.” Mas já não gosta tanto da maneira alemã de celebrar a Páscoa.
Custou-lhe muito habituar-se à comida alemã. Os doces não eram doces e, de um modo geral, nada lhe sabia bem. Nem sequer o café era saboroso como o português. Agora as coisas estão muito diferentes, já se habituou à culinária deste país, e já encontra à venda muitos produtos portugueses.
Fez muitos amigos alemães, mais do que portugueses. Não queria misturar o trabalho com a amizade, e os portugueses que conhecia eram quase todos membros das equipas que ela chefiava. Além disso, os alemães revelaram-se amigos preciosos. Como dizem os espanhóis: “Amigo e cão, ou alemão ou catalão!” Com ela, os alemães aprenderam a gostar da comida portuguesa, do vinho, da música e até do país: levou muitos amigos a conhecer a sua terra.
Vive há 65 anos na Alemanha, e já não sabe dizer se é portuguesa ou alemã. Tira de cada país e cultura aquilo que lhe agrada mais, e faz uma síntese muito sua.
Hoje, já reformada, não seria capaz de regressar a Portugal. Ia sentir falta de tudo aquilo que conheceu na Alemanha e tanto aprecia: as casas com bom isolamento, que tornam o Inverno tão suportável; os horários de trabalho que começam mais cedo e têm pausas curtas para o almoço, que permitem às pessoas gozar em sossego o fim do dia; os serviços de saúde; e até os edredons (“Em Portugal, quando estou num hotel, a primeira coisa que faço é puxar os lençóis para os soltar!”, comenta rindo).
Se recomeçasse a vida sabendo o que sabe hoje, viria para a Alemanha. Je ne regrette rien! – diz, e ri. Há muitos anos, na época em que se ofereciam pagelas de santinhos para seduzir as moças, um rapaz deu-lhe um cartão onde se lia “que todas as tuas orações sejam de acção de graças por uma vida feliz”. Ela ainda namorou com ele durante uns meses, mas deixou-o “porque era muito parado”. A frase da pagela ficou com ela. Sente que é uma boa síntese da sua vida.
Helena Araújo é autora do blogue Dois Dedos de Conversa.










