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Bispo Ildo Fortes no alpendre da sua casa, no Mindelo (São Vicente, Cabo Verde). Foto Clara Raimundo
O bispo Ildo Fortes no alpendre da sua casa, com vista para a baía do Mindelo (São Vicente, Cabo Verde). Foto © Clara Raimundo | 7MARGENS

Entrevista ao 7MARGENS (I)

Ildo Fortes, bispo do Mindelo: “Não basta parecer cristão, é preciso ser cristão na prática”

Nomeado bispo da Diocese do Mindelo (Cabo Verde) em 2011, Ildo Fortes – natural da ilha do Sal – está a celebrar 15 anos de episcopado. A efeméride é o ponto de partida para esta longa conversa com o 7MARGENS – tão longa que se estende por duas partes e geografias: uma em sua casa, no Mindelo, e outra no Vaticano.

Em ambos os lugares, recebeu-nos com o sorriso e a morabeza tão característicos das gentes de Cabo Verde e que nunca o abandonaram, apesar de ter rumado a Portugal com apenas dez anos e aqui ter feito a maior parte da sua formação e percurso enquanto padre.

Regressou ao arquipélago como missionário e foi ali que, aos 46 anos, acabou por assumir a responsabilidade com que nunca tinha sonhado: ser bispo. “Nunca me imaginei bispo, nem nunca ambicionei sê-lo”, confessou.

Entre a baía do Mindelo e as salas do Vaticano, Ildo Fortes falou-nos da evolução da diocese, dos desafios colocados aos padres e aos jovens, da experiência sinodal e da necessidade de formar cristãos capazes de levar a sua fé para a sociedade. Mas falou também do país e do mundo: da pobreza muitas vezes escondida, das desigualdades, da emigração e das alterações climáticas.

Uma conversa mantida entre dois locais muito diferentes, mas atravessada por uma mesma preocupação: como ser uma Igreja próxima das pessoas e comprometida com a transformação da sociedade.

 

7MARGENS – Passaram 15 anos desde a sua nomeação como bispo do Mindelo. Que memória guarda do momento em que soube que tinha sido escolhido?

ILDO FORTES – A nomeação foi em 25 de janeiro de 2011, uma data simbólica, a conversão de São Paulo. Eu vivi aquilo quase como uma espécie de grande conversão. Mas foi um processo muito doloroso. Estava em Cabo Verde em missão, depois de dois anos nesse trabalho, e preparava-me para regressar a Portugal. Eu era incardinado na Diocese de Lisboa e a minha vida toda tinha sido por lá, desde os meus dez anos.

Um dia, D. Arlindo [Gomes Furtado, que foi bispo do Mindelo até 2009 e depois bispo de Santiago] veio falar comigo e disse-me que o Papa Bento XVI me tinha escolhido para ser bispo e que tinha de dar uma resposta. A minha primeira reação foi: “Impossível, impossível.” E aí começou uma cruz muito grande, que durou vários meses.

Falei com o núncio, com D. Paulino [do Livramento Évora], que era bispo emérito, e com o próprio patriarca de Lisboa [cardeal José Policarpo]. Procurava alguém que me ajudasse a dizer que não. Mas ninguém me ajudou a dizer que não! [Risos] O patriarca disse-me logo: “Se a Igreja te pede, só tens de dizer ‘sim’.”

Acabei por dizer que sim, com muito sofrimento. Eu tinha 46 anos e sentia-me incapaz, não me sentia preparado. Mas havia também o receio de dizer “não” à Igreja…

 

7M – Nunca tinha imaginado ser bispo?

Nunca me imaginei bispo, nem nunca ambicionei sê-lo. Sempre me imaginei, sim, a servir a Igreja.

Depois descobri que ser bispo é uma outra forma de continuar a ser pastor, com mais responsabilidade e maior abrangência. D. Paulino dizia-me que ser bispo era como ser “pároco de uma paróquia muito maior”. Tentava consolar-me e motivar-me.

Mas os primeiros meses não foram fáceis. Nós temos uma ideia do que deve ser um bispo, e às vezes essa ideia não coincide com aquilo que o próprio gostaria de ser. Com o tempo, percebi que podia ser bispo à minha maneira: gosto de ser próximo das pessoas, gosto de ser descontraído, gosto da minha guitarra, de estar com os amigos… E nada disso deixei de fazer.

 

7M – Encontrou depois um modo próprio de exercer o episcopado?

Sim. Percebi que há momentos para as solenidades litúrgicas, para representar aquilo que somos, e há momentos em que temos a nossa família e os nossos amigos e continuamos a ser nós próprios.

Depois conheci o Papa Francisco e identifiquei-me muito com aquilo que ele apresentava como modelo de pastor: próximo, simples, humano. Quando ele mostra que um pastor pode ser próximo das pessoas e continuar a ser ele próprio, percebi que era também esse o caminho que eu queria seguir.

Hoje sinto que encontrei o meu perfil. E, passados 15 anos, sinto também que o nosso povo nos estima muito. Somos muito amados aqui em Mindelo e em Cabo Verde, e também na diáspora.

 

Uma diocese com leigos (e leigas) à frente

Ildo Fortes 7 Foto Clara Raimundo

Ildo Fortes fala aos fiéis durante a missa em que assinalou o aniversário da sua entrada na diocese, na Paróquia de São Vicente, em abril deste ano.  Foto © Clara Raimundo | 7MARGENS

7M – Quando olha para estes 15 anos, o que destaca da evolução da Diocese do Mindelo?

Procurei sempre dar continuidade ao que já vinha sendo feito. Até porque isto não é como no campo político, em que cada pessoa chega com o seu programa e tem de começar tudo de novo…

Eu era colaborador próximo de D. Arlindo. Ele chegou a uma diocese nova, com poucos padres e praticamente sem estruturas, e já tinha começado um caminho. Quem chega deve continuar esse caminho.

Depois fomos criando estruturas e serviços. Criámos o Conselho Pastoral, o Conselho Presbiteral, o Conselho Económico, as vigararias. Criámos também vários secretariados. Mas uma grande parte destes serviços continua entregue a leigos e religiosos, e não necessariamente a padres.

Também criámos novas paróquias. É uma realidade diferente daquela que encontramos hoje na Europa, onde muitas vezes se fecham paróquias. Aqui precisamos de criar novas comunidades, porque as igrejas não chegam para as pessoas!

 

7M – Portanto, é uma Igreja ainda em crescimento?

É uma Igreja jovem, com muita gente envolvida. Temos crescido muito nas equipas de casais, por exemplo, e fizemos uma aposta muito séria na família.

Ao mesmo tempo, ainda estamos numa fase de estruturação. Precisamos de criar serviços, espaços pastorais e estruturas físicas. E não é fácil encontrar meios. Contamos muito com ajuda exterior, porque os recursos são poucos.

 

7M – Fala muito da participação dos leigos. Isso já acontecia antes de o Papa Francisco ter colocado a sinodalidade no centro da vida da Igreja?

Sim. Quando cheguei, e mesmo antes de existir este grande movimento sinodal, já vivíamos muito essa experiência.

Tenho dois grandes encontros anuais em que reúno os padres, alguns religiosos e religiosas e leigos com responsabilidades nas áreas da família, juventude, catequese, ação social. Somos talvez 40 ou 50 pessoas e, juntos, programamos o ano pastoral e o triénio.

Há decisões que o bispo não toma sozinho. Vamos decidir juntos se avançamos para um seminário, se criamos uma paróquia, onde devemos apostar…

Enquanto a sinodalidade para alguns parece uma novidade, outras partes do mundo já têm esta experiência. No Mindelo, fomos quase obrigados a fazer este caminho porque não tínhamos muitos padres. Mas isso acabou por ser uma riqueza.

 

7M – E aceita decisões que vão num sentido diferente daquele que inicialmente pensava?

Quando há desacordo, deixamos a coisa amadurecer. O importante é expor às pessoas as coisas como elas são. Se as pessoas não têm todos os dados, podem decidir em sentido contrário. Mas se manifestamos a nossa realidade, as nossas limitações e as nossas condições, é mais fácil.

E, quando sinto que a maioria deseja caminhar noutro sentido e percebo que é por ali o espírito, tudo bem.

A minha carta pastoral, por exemplo, foi fruto de uma semana em que estivemos reunidos e fomos falando: “O que é que vocês acham? Era bom apostar por aqui, por acolá, numa missão popular…” Depois a carta tem, evidentemente, o meu toque pessoal, mas nasceu também daquilo que surgiu da comunidade. E assim é mais fácil de ser assumida pela comunidade.

 

7M – Há o risco de as estruturas acabarem por matar esse espírito?

Tenho algum receio das estruturas. Elas são necessárias e estão previstas no direito canónico, mas podem meter-nos numa forma e apagar um pouco a espontaneidade do Espírito.

Espero que as estruturas que fomos criando mantenham o espírito que já tínhamos. Porque pode ser perigoso termos estruturas sem espírito.

O Sínodo reforçou ainda mais isto em mim: a escuta dos outros, o parecer dos outros, não ter medo de chamar pessoas a participar.

Nos meus secretariados, à frente da maior parte deles estão leigos. A catequese está entregue a uma leiga, a família a uma leiga, a liturgia a uma leiga. Desde que sejam capazes, os leigos assumem responsabilidades. Não há esta ideia de que tem de ser o padre a ficar à frente.

 

“A Igreja é, sobretudo, comunidade”

Ildo Fortes 8 Foto Clara Raimundo

O bispo é recebido com palmas por paroquianos e amigos no salão da Igreja de São Vicente, no dia em que se assinalava o 15º aniversário da sua entrada na diocese. Foto © Clara Raimundo | 7MARGENS

7M – Num país com nove ilhas habitadas e com comunidades muito diferentes, como se constrói esse espírito de comunidade?

Hoje temos uma sociedade muito individualista. Antigamente as comunidades estavam mais isoladas e isso não impedia a existência de comunidade. Agora toda a gente tem televisão, internet, redes sociais. É mais cómodo ficar em casa do que pôr-se a caminho para encontrar a comunidade.

Mas estar juntos não significa necessariamente comunidade. Um centro comercial pode estar cheio de gente e não há comunidade nenhuma. Comunidade é aquela em que nos sentamos, olhamos uns para os outros, partilhamos a mesa, fazemos um momento de oração, partilhamos um tema. Esse é um desafio enorme, em Cabo Verde e na diáspora.

A Igreja é, sobretudo, comunidade. Jesus Cristo não chamou cada pessoa isoladamente: a primeira coisa que fez foi criar uma comunidade de discípulos. Não se pode ser cristão sozinho, em casa, acompanhando à distância o que se passa na paróquia. Temos de nos juntar, perder tempo para estar com os outros, pastores e fiéis leigos. A Igreja tem de ser um lugar que acolhe, protege e cuida dos mais pobres e necessitados. Para ser um “porto de misericórdia”, tem de ser uma comunidade, não apenas uma instituição ou uma repartição.

 

7M – Sentiu isso também ao participar no Sínodo sobre a Sinodalidade?

Este Sínodo teve uma dimensão de fraternidade enorme. Desde o primeiro momento. Nos três dias de retiro em Sacrofano (Itália), havia pessoas vindas do Oriente, da Ásia, da América do Norte, de África. Falávamos línguas diferentes e tínhamos culturas diferentes.

Para mim, um dos grandes ganhos foi ter sido uma grande experiência de comunhão, de fraternidade universal. É isso que o mundo precisa hoje e foi isso que o Papa Francisco foi pedindo.

Agora estamos na fase da implementação. É fundamental que as pessoas conheçam o documento final: caminhar juntos, escutar o Espírito, formação, discernimento, atenção aos mais frágeis, participação dos leigos e missão.

Isso não acontece rapidamente. Os próprios padres já me ouviam falar disso há dois ou três anos, mas só agora sinto que alguns agarraram a questão por dentro. E os padres são fundamentais: são os animadores das comunidades. Se os padres não pegarem nesta matéria, não vai avançar.

 

7M – E qual é o papel das mulheres na vida da Igreja do Mindelo?

Na generalidade dos casos, são as mulheres que têm mais responsabilidades na Igreja: na catequese, nos grupos litúrgicos, na ação social, na educação, nos jardins de infância…

Às vezes diz-se que as mulheres são esquecidas na Igreja, mas é um engano. O que seria das nossas igrejas sem as mulheres?

Há exceções, naturalmente. Temos, por exemplo, uma aldeia de pescadores, Salamansa, onde a maior parte das pessoas mais comprometidas são homens. Mas isso não é o habitual.

Ildo Fortes 9 Foto Clara Raimundo

Ladeado pelos pais, o bispo Ildo Fortes parte o bolo comemorativo mandado fazer por um grupo de fiéis da diocese, enquanto uma jovem regista o momento. Foto © Clara Raimundo | 7MARGENS

7M – E os jovens, não estão cada vez mais afastados da Igreja, como acontece na Europa?

Há alguma semelhança com o que acontece em muitos países da Europa. Somos influenciados pelo mundo ocidental, pela Europa, pelos Estados Unidos. E hoje os jovens estão muito ligados às redes sociais…

Temos também menos filhos a nascer. Se há menos jovens, isso naturalmente tem consequências nas vocações.

Depois há a migração. Os jovens saem das suas localidades, vão para o Sal, para a Boa Vista, para a Praia, para o estrangeiro. Ao sair do seu espaço habitual e da sua comunidade, muitos demoram a reencontrar a Igreja. Uma pessoa com convicção forte talvez não tenha esse problema. Mas quem ainda está numa fase de encontro e crescimento pode afastar-se.

 

7M – Como pode a Igreja chegar a esses jovens?

Não podemos ficar na igreja à espera que as pessoas venham, temos de criar redes. Hoje, aquilo que não aparece na televisão ou nas redes sociais não existe para muitas pessoas.

Estou a renovar o Secretariado da Juventude e temos procurado criar novas dinâmicas, envolvendo as paróquias e os próprios jovens.

Mas o fenómeno juvenil é muito móvel. Há ilhas onde, quando vou, sou capaz de encontrar mais de 50 jovens que antes não estavam lá. E depois, de repente, já não está nenhum…

7M – De que modo tem procurado combater o risco de clericalismo e isolamento dos padres, sobretudo nas paróquias mais remotas?

O sacerdote deve ser um membro da comunidade, não alguém que olha de cima para baixo.

Uma coisa que temos procurado fazer é que nenhum padre fique sozinho. Atualmente, não há nenhum padre da diocese que viva sozinho. Há padres que vivem juntos, mesmo quando acompanham várias paróquias. Isto ajuda a perceber que nós, que somos mestres da comunhão e queremos ligar a comunidade, também temos de viver a comunhão, partilhar a vida e as dificuldades.

Temos também formação permanente. Em muitas localidades, uma vez por semana, procuramos encontrar-nos para rezar, preparar as leituras do domingo e trocar ideias sobre as homilias.

Não basta a boa intenção… É preciso criar meios, marcar reuniões, ir aos encontros. Isto é importante também para a saúde dos padres.

E não se pode confundir a vida celibatária com a vida de solteirão. O padre não é chamado a ser um solteirão: tem vida afetiva, deve ter com quem falar e partilhar a vida. E esses são os seus fiéis, mas também, em primeiro lugar, os seus irmãos no presbitério.

 

Formação para “ser mais”, e não apenas “saber mais”

Ildo Fortes 4 Clara Raimundo

O bispo do Mindelo mostra o baixo relevo do sacrário na capela de sua casa, representando o momento em que os discípulos de Emaús reconhecem Jesus ao partir do pão. Foto © Clara Raimundo | 7MARGENS

7M – Se tivesse de definir uma prioridade para os próximos cinco anos, qual seria?

Formar cristãos missionários! A formação é sempre importante. A catequese que recebemos não chega, infelizmente. Precisamos de uma formação que não seja apenas teórica: conhecer a Palavra de Deus, conhecer os fundamentos da fé, para que um cristão possa dialogar com o mundo.

Se não conhecemos quem somos, não temos identidade. Eu digo aos cristãos: vocês não têm de fugir das outras religiões. Um católico, quando alguém bate à porta, às vezes fecha-a. Isso não é normal: recebe-o! Se conheces bem a tua religião e os fundamentos da tua fé, dialoga. Não tens de ter medo do que é diferente. O mesmo com alguém que é ateu ou tem outra filosofia.

Precisamos de cristãos que continuem permanentemente a formar-se, que sejam discípulos, mas que tenham uma missão.

 

7M – Quem se encontrou com Cristo, como é que não vai falar dele?…

Exatamente. Há uma parte dos cristãos que vem cumprir o seu preceito: “Já apanhei a minha missa.” Isso é pouco. A missa deve ser como carregar baterias para ir para a luta, para estar na Igreja inserida na sociedade.

Por isso, para mim, é preciso formar cristãos conscientes, leigos comprometidos, que tenham a noção de que têm de sair. A formação não pode ser apenas para eu saber mais. Tem de ser para eu ser mais.

Temos de ter cristãos na política, na cultura, no desporto, na sociedade. Quando os cristãos estão presentes nesses espaços, podem ajudar a transformar o mundo.

 

7M – Mas há pessoas que se dizem cristãs e defendem posições que parecem contradizer a própria fé cristã.

É contraditório. Estamos a falar de armamento, de xenofobia, de violência, de rejeição dos migrantes… Muitas vezes essas posições são protagonizadas por pessoas que se dizem cristãs.

A religião, só pela religião, não chega. Podemos dizer que temos um país muito cristão, entre aspas. Gente que foi batizada. Não chega! É preciso ser. Não basta parecer, é preciso ser na prática.

 

7M – E aí a Igreja e a família têm um papel importante a desempenhar?

Sim, isso começa dentro da família. Enquanto não houver famílias que assumam a sua missão, não haverá uma sociedade mais sã, não haverá paz. A família está na base de tudo. É a célula vital da sociedade. É no berço que recebemos os primeiros valores. Se todas as famílias fossem escolas de valores do bem, o mundo estaria melhor…

E a Igreja tem de apoiar a família. A escola tem a sua parte, as associações têm a sua, os espaços desportivos têm a sua. Todos contribuímos para formar a pessoa.

E hoje temos ainda as redes sociais, através das quais muita coisa entra pelos olhos e fica no coração sem sabermos.

Por isso, há uma pergunta que devemos fazer: quem está a formar os nossos jovens hoje? Quem está a formar as nossas crianças? Serão os pais? Não sei. Mas é uma pergunta que temos de fazer…

 

A segunda parte da entrevista será publicada este domingo, 13 de setembro.

 

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