“Estás tão bem para a idade”! A expressão surge com a evolução social e cultural ao longo do século XX. O valor humano ligado às fábricas, à produtividade na Revolução Industrial, assim como o nascimento da publicidade moderna, transformaram a preservação da aparência em dever social. A este propósito, no final dos anos 60, o gerontólogo Robert Butler utiliza o termo ageism (idadismo), que vem identificar este tipo de frases “simpáticas” como um sintoma verbal de rejeição da própria mortalidade.
Atualmente, e apesar de a esperança média de vida ter aumentado, a linguagem não acompanha a biologia. Há poucos feitos tão heroicos como o de continuar a respirar após os cinquenta anos sem ter a falta de educação de parecer um fóssil. Se por acaso conseguiu a proeza de chegar a “uma certa idade” com postura ereta e a audácia de não vestir um pijama de flanela às quatro da tarde, já deve ter sido brindado com este galardão da diplomacia social:
– Eh pá…estás tão bem para a tua idade!
A intenção é nobre, o interlocutor sorri e dá uma palmadinha afável no ombro, esperando que a frase seja recebida como medalha de honra. Mas a gramática é traiçoeira e aquela preposição – para – estraga a festa toda, pois afinal o que lhe querem dizer, com tanto carinho, é simples: – Pelas minhas contas, deverias estar miserável, mas até disfarças bem a tua ruína biológica!
Não se elogia a vitalidade: elogia-se a capacidade de enganar o calendário, ou seja, a sociedade contemporânea tolera a velhice, desde que ela venha mascarada de juventude. Aceita a data de nascimento no cartão de cidadão, desde que o corpo continue em excelente performance e não aborreça com a inconveniência da fragilidade.
Se este policiamento estético-biológico já é sufocante na vida privada, em público passa a ser cruel. E nada ilustra melhor a incapacidade coletiva de lidar com o tempo a passar do que a forma como tratamos os nossos ídolos, aqueles que ousam envelhecer. Foi o que verifiquei há uns dias, num concerto que Rui Veloso deu na Amadora. O que esperava vir a ser o privilégio simples de ver aquele que é, para mim, uma lenda viva, transformou-se num exercício miserável de escrutínio: “Já não canta nada!”; “Ele não estará bêbado?”; “Nem se percebe nada, mas que melodia é esta?”; “Fôlego para cantar não tem, mas harmónica toca!”, fui ouvindo na plateia.
Inconformados, queriam o Rui Veloso de 1980, com a mesma voz que soava na fita da cassete que ouviam na adolescência. E quando lhes foi entregue o homem real que ali estava, preferiram acusá-lo de decadência a admitir que o tempo passou, para todos.
Exige-se que os heróis fiquem congelados no auge dos seus vinte anos para que façam esquecer a própria finitude. Não se perdoa a vulnerabilidade. Não se aceita que um músico com décadas de estrada adapte o seu repertório para poder continuar a partilhá-lo.
Mas, ao recusar a fragilidade nos outros, está a construir-se a prisão onde se vai viver amanhã. O envelhecimento passou a ser um exame contínuo, em que a nota de passagem é parecer ter, no mínimo, menos dez anos. E quem falha o teste – quem ganha rugas, assume os cabelos brancos, ajusta o tom da voz ou desacelera o ritmo – é visto como desleixado, como se envelhecer não fosse a consequência lógica de estar vivo.
Pois bem, a solução é simples: da próxima vez que forem a um concerto de algum artista com carreira longa, e já mais velho, exijam-lhe que peça desculpa por não ter morrido jovem, porque envelhecer é uma enorme falta de consideração.
Post Scriptum
O público foi muitas vezes implacável com ele, focando-se no desgaste físico, na voz mais rasgada e nas fragilidades que expunha em palco. Mas, hoje, os cínicos já o perdoaram: o artista cometeu a “cortesia” de morrer.
Refiro-me a Jorge Palma, que – entre outras coisas – nos ensinou que a beleza do tempo também se revela na pele e na voz. A sua arte, a música, não precisa de juventude para nos comover. Cada ruga, cada pausa ao piano e a rouquidão acrescida nos seus últimos concertos não eram falhas no espetáculo: eram a prova de uma vida inteiramente gasta a fazer canções. Celebrar o Jorge Palma é agradecer ao homem que teve a generosidade de envelhecer connosco, sem artifícios nem máscaras, até ao último compasso.

Jorge Palma em concerto no Castelo de Aljezur, a 28 de agosto de 2024. Foto © Júlia Costa
Todos os dias nos cruzamos com frases feitas e dogmas do senso comum. Funcionam como atalhos mentais confortáveis, mas raramente resistem a quem se atreve a questionar. É aqui que nasce o Lugar (in)comum.
Esta rubrica surge para desarmar os automatismos da linguagem e dar espaço ao espírito crítico. Queremos desmontar as certezas absolutas que bloqueiam o debate de ideias, substituindo a reflexão por muletas intelectuais que encerram as conversas antes do tempo.
Porque as palavras que repetimos moldam a forma como pensamos. E levar estes clichés demasiado a sério não é sabedoria — é uma preguiça mental que nos afasta do essencial.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Equipa de Comunicação e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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