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Ilustração © Catarina Soares Barbosa.

a importância que uma farda tem (1)

 

percebeu que o mataram quando, por fim, ouviu
‘este finou-se’,
ou mais exactamente,
‘este caralho finou-se’,
embora a obscenidade o surpreendesse.

analisou, como pôde, a imobilidade,
toda a lava que, de súbito, lhe preenchia a aorta.
no peito um incêndio
por onde o sangue, em surdina, se escapava.

morto, pois, conforme o preveniram,
sentiu que o moviam
na calçada,
a seu lado uma faca que nunca vira,
brilhava diligente.
certamente o meliante a escondera,
no forro da farda,
para o caso de falhar a pontaria.

deixou, pois, que outros compusessem o cenário.
ainda lhes quis dizer que havia tempo,
e, por favor, encomendassem eles uma urna jeitosa,
duas coroas de rosas temporãs
(tinha uma fixação em rosas, mas raramente sobrara com que as comprar),
mas sobretudo poupassem assim essa despesa
à mulher-da-sua-vida,
que pouco tinha
e neste estado, defunto, o ignorava ainda.

quis dizer, mas não disse,
ou se o disse, calou,
pois nenhum murmúrio na sua voz ouviu.

em todo o caso, a vara de meliantes em frenesi:
atentos à posição da faca, estudada no quartel,
focados no esgar do cadáver,
que não lhes parecia completamente morto,
e, sobretudo, em salvar a própria pele.

não contaram, pareceu-lhe, com um desfecho assim,
ou, mais provavelmente, mijaram-se na farda
quando um deles lembrou ser necessário verter tal prosápia
em relatório padronizado ao chegar à sede
— nem sempre a valentia conduz a promoções,
sobretudo se o feito se souber.

uns minutos depois
(ignorava quantos pois agora só media eternidades)
ficou sozinho.
a sua visão cresceu, a íris dilatou-se,
prolongou-se ao longo da calçada,
galgou o bairro, o rio,
as comportas nocturnas do desejo.

assim mesmo surpreendeu os meliantes
a forçar a porta que conhecia bem,
onde até hoje o esperavam
teus olhos limpos
de ilusões, as mãos serenas,
certas promessas a prazo
(das melhores que se conseguem nos subúrbios)
e, sobretudo, um colo inacabado.

doeu-lhe a sombra nos teus olhos,
tiara de turmalina quase negra,
ou fumo apenas,
só a vida gasta o furor dos dias.

doeu-lhe a sombra mais que a bala
quando esta (ou o ódio) o alcançou
e, num repente, lhe rompeu o peito, inutilizou os braços,
a curva abdominal, a voz,
as noites estivais
que em cada dia de inverno antecipara.

em todo o caso, estava morto
e assim apareceria nos jornais,
se os meliantes não conseguissem evitá-lo.

respirou fundo, mas os pulmões não responderam.
insistiu, era um homem experiente,
para si mesmo repetiu irónico,
há anos, no fémur esquerdo, uma bala similar.
por lá continuava, bem alojada,
em morada permanente:
acordava se o tempo se virava,
mas nunca incomodava em demasia.

uma bala, lembrou, com que o Franzino lhe acertara
à custa de uns piropos desbocados.
o Franzino era assim: se o álcool lhe perturbava o pensamento,
as mãos turvavam-se,
fugindo para a frente em rebuliço.
como se viu, deixara-o desde então a coxear,
mas poupara-lhe, para hoje, o coração.

sóbrio, o Franzino pedira-lhe desculpa,
visitara-o diariamente na enfermaria,
que gracejasse com a garina, que mal tem?
quem desdenha também quer, digo-o aqui.

poupara-lhe o coração o mata-bicho
e ao Franzino vários anos na cadeia,
por homicídio.

à certa, o emprego também, e os biscates,
sempre precário, como todos por ali,
mas oito anos na oficina, diligente,
era demais:
qualquer dia pediria aumento,
começaria a acalentar distúrbios, a exigir direitos,
uma condenaçãozinha por homicídio,
qualificado e tudo, à queima-roupa,
um sonho para entidade patronal.

livraram-se de boa, o Franzino e ele.

mas onde o Franzino, agora que morrera?
(tinha-o por certo no velório,
pagaria algumas contas lá de casa,
à socapa,
e essa certeza doce o sossegou.)

felizmente não foi o tiro murcho do Franzino
que o deixou assim, quieto e putrefacto.
fica feliz por ele.

com os meliantes não se preocupa.
sabe que o cenário está montado e que, com sorte,
alguma coacção, talvez,
escaparão ilesos.
dentro em pouco voltarão ao giro,
aos exercícios de pontaria a curto alcance,
com alvo imóvel,
nos bairros circundantes,
para varrer as ruas, proteger o comércio.

do chefe receberão um postal solidário [2],
dos colegas um masculino abraço,
do ministro, quem sabe, em privado,
um público louvor.

o tribunal branqueará a sua morte,
diria até que a tornará inútil,
(nunca a teus olhos, porém,
que a sombra invade,
corrói aos poucos
cada noite ausente)

concluirá o colectivo que nada sucedeu.
a conduta que o matou, pasme-se, “não foi indigna
ou abuso
flagrante
e grave de funções”[3].
ao meliante uma pequena pena,
aliás suspensa,
que é tão novo o jovem,
a pagar três assoalhadas
noutro subúrbio qualquer.

nada tem a temer a criatura.
ao contrário do Franzino, não bebeu demais:
gente desta laia nunca bebe em serviço,
por isso não falha alvo parado,
a menos de meio metro,
e é meticulosa na coreografia que se segue.

a importância que uma farda tem, pensou,

e foi mesmo a última coisa que conseguiu pensar,
tão irritante a progressão da morte no seu cérebro.

sentiu ainda tuas mãos teimosas,
o alento surdo dos teus lábios enquanto cresce
por fim, majestosa, a madrugada.

amar-te-á em lume para lá das trevas.

o meliante, reparou, já foi trocar de farda,
despiu o sangue que lhe secara na gravata.
o planeta girará no seu eixo por uns milénios mais.

ele, porém, já morreu de vez:
não voltará ao serviço.

 

[1] “Agente da PSP que matou Odair Moniz regressa ao serviço”, Público, 26 de Agosto, 2026. A notícia recorda as declarações de Pedro Pereira, procurador do Ministérios Público que acompanhou o julgamento: “o segundo tiro foi desferido de forma fria, calculada e puramente punitiva contra um homem já ferido no tórax e sem qualquer capacidade de reacção ou oposição”.
[2] “No dia em que foi proferida a sentença, o director nacional da PSP, Luís Carrilho, expressou a sua solidariedade para com o agente”. Público, 26 de Agosto, 2026.
[3] Da sentença do tribunal de Sintra, proferida em Junho de 2026.

 

Luís Soares Barbosa ( luissoaresbarbosa.com) é professor na Escola de Engenharia da Universidade do Minho e autor, entre outros, de a poesia vende pouco (2023) e meu nome é ninguém (2025), ambos na Officium Lectionis. 

Esta rubrica toma de empréstimo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para estes “pequenos poemas da nossa circunstância” ( https://setemargens.com/a-nossa-circunstancia-em-pequenos-poemas-mensais-de-luis-soares-barbosa-no-7margens/ )  e é publicada aos dias 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal.

 

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