“A Igreja do futuro será pequena e, em grande medida, terá de recomeçar do zero.
Já não conseguirá encher muitos dos edifícios construídos em tempos de esplendor.
A par da diminuição do número de fiéis, perderá muitos dos seus privilégios na sociedade. Apresentar-se-á, acima de tudo, como uma comunidade
na qual só se entra por decisão voluntária.
Enquanto comunidade pequena, exigirá muito mais iniciativa dos seus membros.
Certamente adoptará novas formas no seu ministério e
ordenará sacerdotes entre cristãos com experiência profissional comprovada.
Será uma Igreja com uma espiritualidade mais profunda.
Mas desta Igreja mais espiritual brotará uma grande força.
Pois os homens de um mundo completamente planeado sofrerão uma solidão indescritível. Quando Deus desaparecer das suas vidas, sentirão a sua total e terrível pobreza.
Assim, descobrirão a pequena comunidade de crentes como algo completamente novo,
como uma esperança, como uma resposta da qual, no íntimo, sempre estiveram à procura.”
(Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, entrevista radiofónica na Hessischer Rundfunk, 1969)
Nota importante: Quero deixar claro que não vinculo directamente os movimentos e grupos religiosos mencionados neste artigo com os grupos políticos ultra-direitistas; está sim em causa a tentativa destes últimos para se ligarem àqueles como forma de conseguir alterar leis existentes ou criar leis ultra-conservadoras, uma vez que tenham chegado ao poder. Não se pode negar que “uma boa parte das pessoas”, que compõem ou estão relacionadas com estes grupos religiosos são também membros dos grupos políticos ultra-direitistas, ou dos que assumem os seus postulados. O que descrevo aqui é sobretudo a partir da realidade espanhola, mas os comentários podem ser abrangentes para outros países.
A origem e a situação

Retrato oficial do Presidente Ronald W. Reagan: há quatro décadas, a “Moral Majority” apoiou a candidatiura de Reagan, criando uma máquina ideológica poderosa. Foto © Michael Evans/Wikimedia Commons
Nada acontece por acaso. Os movimentos evangélicos dos Estados Unidos criaram, no início dos anos 80 do século passado, uma organização chamada Moral Majority para apoiar a candidatura do republicano Ronald Reagan.
Dois mandatos consecutivos no cargo são prova de quão bem orquestrado foi o apoio. Nasceu uma máquina ideológica que, embora não fosse nova, estava muito melhor lubrificada para esmagar liberdades de todos os tipos – religiosas e políticas, de pensamento e consciência. Uma dinâmica que tornou visível a aliança entre o nacionalismo populista, caracterizado por um conceito de cristianismo e de Deus do mais mercantilista que há, e pela exclusão e mais do que previsível eliminação de tudo o que não se enquadrava no seu esquema – começando pelas pessoas.
Esta aliança não se ficou pelo apoio eleitoral. Na década de 1980, o Presidente Reagan e a CIA elaboraram um plano para desestabilizar governos e países, desde a fronteira do México até à Terra do Fogo, e não o calcularam para um prazo curto. Vemos agora os efeitos devastadores nos países da América Latina, quando um tsunami ultra-direitista com efeito dominó está a implantar uma única ideologia envolta num falso retorno aos valores de um suposto cristianismo adaptado a essas ideologias. Por exemplo, a manipulação do terramoto de 10 de Agosto na Colômbia pelo seu novo presidente, Abelardo de la Espriella, numa chave “divina”, para justificar a alteração de várias leis do Governo anterior, porque a tragédia era um sinal do desejo de Deus. Também é conveniente lembrar a semana de retiro que ele e os seus futuros ministros fizeram, como preparação para a nova vida que iam começar e o uso de imagens religiosas, especialmente marianas, durante a tomada de posse.
Este plano de Reagan e da CIA deu lugar à proliferação das chamadas “igrejas evangélicas” – a esmagadora maioria não são nem igrejas nem evangélicas – que na realidade respondem às estruturas dos grupos sectários e agem como tal.
Vendo os bons resultados obtidos nos anos 80, a “era Trump”, apoiada por outra organização recém-criada, mas com uma filosofia antiga, chamada Evangelicals for Trump (2020), viu as possibilidades que se apresentavam de estabelecer um plano semelhante ao que Reagan fez para a América Latina, mas agora para a Europa.
Quem foram aqueles que viram a importância de chegar a estes pequenos grupos, movimentos e organizações com um ar jansenista que, sem essa ajuda, não teríamos sabido que existia?
Aqui estão alguns deles: Rupert Murdoch (Fox Corporation e New Corp), um conservador da ala republicana mais tradicional; Elon Musk (X-Twitter), com o seu liberalismo de direita e ultra-conservadorismo populista; Larry e David Ellison (Paramount, Skydance, CBS), e o seu conservadorismo tecnocrático e de direita; Jeff Bezos (The Washington Post) e o seu centrismo corporativo, bem como o seu liberalismo moderado; a família Ochs-Sulzberger (The New York Company), um progressista moderado; e Mark Zuckerberg (Meta/Facebook/WhatsApp). Com o seu pragmatismo corporativo, foram eles os responsáveis por financiar a maioria destes movimentos de comportamento sectário, para a sua chegada à Europa.
A Inteligência Artificial (IA) também está a desempenhar o seu papel nesta invasão ideológico-religiosa por duas razões: é um negócio lucrativo e as pessoas que integram ou abordam estes grupos, movimentos e organizações são, muitas delas, facilmente manipuláveis, por isso presas fáceis.
Peter Thiel, o perigo para o Vaticano II vindo da IA

Peter Thiel: o seu objectivo é que a União Europeia desapareça. Foto © Gage Skidmore | Wikimedia Commons CC BY-SA 3.0
A maioria dos magnatas anteriormente mencionados tem parte do seu bolo também em negócios com IA. No entanto, a pessoa mais perigosa no campo da IA é aquela que quase nunca aparece nos media. Chama-se Peter Thiel, fundador do PayPal na sua época e actual proprietário (e este é o perigo), da Palantir Technologies. Este texto não é o espaço para descrever o seu negócio obscuro e o que já está nas suas mãos, mas é interessante saber que o seu verdadeiro objectivo é que a União Europeia desapareça. Precisa dela para vender a Palantir Technologies aos governos que serão seus fantoches. E se o meio, no campo eclesial, for destruir o Concílio Vaticano II, isso faz-se. Porque, não sejamos ingénuos, a ultra-direita “cristã” já criou toda uma contraproposta teológica e a sua base não é exactamente o evangelho.
Que ninguém acredite que alguns destes magnatas são menos perigosos do que outros. Todos têm o mesmo perigo: são todos eles os ventríloquos que fazem falar – em suma, dizer o que eles querem – o boneco laranja chamado Donald Trump. O Presidente dos Estados Unidos, incapaz de escutar quem lhe faça a mais pequena advertência, passeia a sua incapacidade, tal como o rei do conto de Andersen passeava nu, acreditando que usava o fato mais maravilhoso do mundo. É isso que acontece com a megalomania, a tolice, a arrogância, a incompetência…
Trump e, sobretudo, os magnatas e o grupo Evangélicos por Trump criaram a “teologia MAGA”, que não deixa de ser a suposta versão religiosa do slogan Make America Great Again. E, retomando o bom trabalho do plano Reagan & CIA, estão a financiar a maioria desses grupos neocatólicos, de crescimento e expansão vertiginosa, que já mostram à evidência o seu perigo na Europa. A sua ideologia aproxima-se da de qualquer partido de extrema-direita com o seu nacionalismo conservador populista, como o Rassemblement National, de Marine Le Pen, em França; o Vox, de Santiago Abascal, em Espanha; o Chega, de André Ventura, em Portugal; Reform UK, de Nigel Farage, no Reino Unido; AfD, de Alice Weidel e Ulrich Siegmund, na Alemanha.
Com esta ideologia fascista-totalitária, a manipulação das consciências é um exercício obrigatório e apenas uma questão de tempo. Esse é o grande perigo que, mesmo hoje, uma boa parte da Igreja Católica não vê ou não quer ver. E já é uma nova religião! O uso de vários elementos do cristianismo para justificar os seus fins é evidente.
No meu país, organizações políticas de ultra-direita e ultra-católicas como HazteOir, Infocatólica, Infovaticana, El Yunke ou a Associação de Juristas Cristãos, entre outras, criaram uma aliança sólida que alguns bispos não desaprovam. É também importante mencionar uma instituição académica, o Instituto Superior de Sociologia, Economia e Política (ISSEP), liderada pela Vox e com extensões já em vários países. Basta entrar no seu site e ver quem compõe o grupo de professores: deputados do Vox, líderes das organizações mencionadas, jornalistas dos meios de comunicação ultra-conservadores… O actual arcebispo de Valladolid e presidente da Conferência Episcopal Espanhola foi professor de antropologia nesse centro.
Agora já não faz parte do corpo docente. Imagino que, aparentemente, para se distanciar dessa ideologia enquanto está no cargo da Conferência Episcopal. Mas o arquivo digital não perdoa.
O discurso de ódio contra valores verdadeiramente evangélicos está solidamente estruturado. Tem vozes relevantes, media com ideias semelhantes e, acima de tudo, dinheiro. Muito dinheiro é o elemento indispensável.
Como funcionam e são usados os movimentos

María Milagrosa Pérez Caballero, até 28 Julho 2025 superiora das Filhas do Amor Misericordioso, expulsa da associação pelo arcebispo de Madrid, cardeal José Cobo, por acusações de abuso de poder e de consciência. Foto: Direitos reservados.
Os partidos políticos ultra-conservadores perceberam as possibilidades de manipular a consciência através do elemento religioso: manipular a consciência é anular a pessoa; matá-la enquanto está viva, fazendo-a acreditar que é livre; tirar-lhe a fé em Deus (mesmo que acredite que continua a acreditar) e também na humanidade.
Estes novos grupos religiosos, talvez mesmo sem se aperceberem, são usados pelos grupos políticos que, por sua vez, vêem neles formas de abuso de poder e de consciência que podem ser muito lucrativas. É verdade que muitos destes grupos e movimentos neocatólicos estão a consolidar-se à sombra deste ambiente que uma parte da hierarquia eclesiástica, na sua ingenuidade ou talvez nem tanto, considera ser de “recuperação católica-cristã”.
É difícil, mas parece que não entendem o que Martin Dreher diz: “A teologia da glória mantém as pessoas num estado de contemplação, a teologia da cruz imerge-nos na decisão da fé.” Ou seja, são grupos que, acima de tudo, se centram numa religiosidade muito introspectiva e interiorizada; o seu culto leva-os a uma visão de glória que não envolve qualquer compromisso com os outros… Por outro lado, não querem ter nada a ver com a teologia da cruz, do auto-sacrifício e do sofrimento, que implica lidar com os pobres, os migrantes e os abandonados, e eles não gostam deste tipo de compromisso social. Muitos destes grupos não dão o passo de uma teologia para outra – por não saberem ou por não quererem.
Estes movimentos neocatólicos nunca fazem grandes campanhas publicitárias, nem a sua presença nas redes sociais é particularmente poderosa. Não precisam, porque brincam com algo com que lidam muito bem: sentimentos e sentimentalismo. Na verdade, esta forma de agir chama-se “método do impacto”. E, como em muitas dioceses – pelo menos no meu país –, o protocolo de informação nas dioceses não é seguido, porque se fica fascinado pelo grande número de seguidores, quase ninguém descobre o que está por trás desses movimentos, quem está na linha da frente, como recrutam, o que dizem, que ideologia têm… Assim, o desastre está servido. Claro que, quando algumas pessoas alertam para os perigos, a resposta que se ouve de algumas dioceses é uma frase tão simples quanto devastadora devido à ignorância que expressa: “Não exagerem. São bons rapazes e boas raparigas.” Quando querem reagir, já é tarde demais.
Um exemplo destas “boas raparigas” é a associação de fiéis Filhas do Amor Misericordioso, conhecida como HAM, da sigla em espanhol. Acabaram de ser suprimidas na arquidiocese de Madrid porque o seu arcebispo, o cardeal José Cobo, depois de receber queixas de várias famílias cujas filhas caíram na armadilha desta seita, levou o caso ao Tribunal da Rota, que sentenciou a sua dissolução e a decretou. O comunicado de imprensa deste decreto pode ser lido na página da diocese de Madrid.
Entre as suas práticas, estavam o abuso de poder, abuso espiritual, abuso de consciência, abuso económico e as práticas de sexo oral da fundadora, María Milagrosa Pérez, conhecida como Marimí, como parte da iniciação das jovens que chegavam – porque Deus pediu-lhe que as jovens o fizessem. As jovens viviam o afastamento das suas famílias, o isolamento e a entrega da sua vontade à fundadora, como se fosse a coisa mais natural do mundo e, acima de tudo, porque fora dali, não havia verdade, nem Igreja, nem salvação.
Foram proibidas em Madrid, mas há outras dioceses onde continuam a viver e, acima de tudo, agora procuram expandir-se para além de Espanha. Tudo indica que o México e os Estados Unidos da América será o seu próximo destino.
Além de serem muito perigosas em si mesmas, trabalham em rede com outros movimentos porque, na realidade, todos esses grupos são uma grande unidade.
Todos estão ligados

Basílica de São Pedro: “Como é que o Vaticano não consegue rever constituições e estatutos de forma mais aprofundada quando estas são apresentadas para aprovação?” Foto: Arquivo 7Margens.
A forma como agem é muito semelhante em todos esses grupos. De certa forma, todos estão ligados. São como uma grande sopa de letras onde se encontram sempre os seus nomes, ou como uma serpente com cabeças diferentes, mas uma serpente na mesma. O seu fundo teológico (que não o é, mas para o designar de alguma forma) é um vento de aroma profundamente jansenista que, caracterizado pelo habitual rigorismo teológico e moral, encontra nesta convulsiva mudança de era o húmus apropriado para proliferar. Curiosamente, são capazes de misturar jansenismo com sentimentalismo e emotividade incríveis.
Aliás, isso é algo a que algumas novas congregações religiosas não são estranhas: juntamente com estes novos movimentos, há congregações a insistir, nas suas constituições e estatutos, naquilo que há 40 anos já se sabe que não deveria lá estar. Muitos desses movimentos e congregações, aprovados entre os anos 80 e 90 do século passado, foram interditados, suprimidos ou intervencionados por causa dos abusos nas suas múltiplas formas. Foi um período da nossa Igreja em que os números eram tudo, sem perceber que tipo de supostos profetas carismáticos, falsos e com óbvios problemas de personalidade, estavam na linha da frente. Agora, cuidamos das vítimas que deixaram pelo caminho.
Há pouco tempo, Jordi Bertomeu, do Dicastério para a Doutrina da Fé, responsável por investigar, entre outros, abusos no Chile e avançar com o desmantelamento do Sodalitium após a sua dissolução no Peru, disse que as associações leigas estão a ser aprovadas com demasiada ligeireza. Para ele, a palavra-chave que repete insistentemente é “vigilância, vigilância, vigilância.” E alerta para o facto de a proliferação deste tipo de abusos nos movimentos laicais ser uma tendência crescente e de existirem os mesmos abusos de poder, de consciência, espirituais, sexuais e económicos, como nos ligados ao clero ou à vida religiosa.
Como é que não aprendemos com o passado? Como é que o Vaticano não consegue rever constituições e estatutos de forma mais aprofundada quando estas são apresentadas para aprovação? Estamos a voltar, mais uma vez, à ideia de que o importante é a quantidade?
As mudanças de época, como a que estamos a viver, são períodos convulsos e incertos, que não ajudam a que a confiança e a esperança sejam apreciadas e valorizadas. A espiritualidade, entendida como esse estado permanente de busca sem respostas fechadas e normativas, também não está a passar por um bom momento.
Devemos compreender que nós, humanos, somos barro – acariciados por Deus, mas barro. A fragilidade é algo nosso e não devemos desprezá-la: a partir dessa fragilidade, ficamos conscientes da nossa vulnerabilidade e, além disso, ela lembra-nos que não somos deuses. No entanto, há aqueles que, em vez de nos acompanharem e ensinarem a passar por este momento delicado da história, o usam para se estabelecerem como pequenos deuses, pois consideram-se detentores da verdade. Acima de tudo, pensam que são eles quem tem de ditar o que os outros devem fazer – os outros que, atraídos por uma possível solução para as suas fragilidades, os seus medos e as suas incertezas, acabam por ser manipulados e, em última análise, abusados de várias formas.
Não podemos esquecer que o abuso na Igreja não é apenas sexual e que sofrer abuso de poder sob a forma de abuso espiritual e/ou abuso de consciência não é algo menor. Um abuso de consciência, hoje, exige muito mais tempo de tratamento para que a vítima perca o seu estatuto de vítima.
Um nicho de mercado para “influenciadores”

Há uma legião de influenciadores que, com a tecnologia e as redes sociais, descobriram um nicho de mercado muito suculento para a sua própria economia. Foto © Filipe Moisés
Para além destes movimentos novos ou nem tão novos, há uma legião de influenciadores que descobriram um nicho de mercado muito suculento para a sua própria economia. São pessoas sem a mínima formação religiosa e menos ainda teológica, mas que descobriram que Deus é um importante activo económico e, acima de tudo, prepararam-se para vender o produto como se fosse exactamente uma empresa. E, na realidade, é isso que é. Eles não evangelizam, não acompanham e, claro, nada é gratuito. Tudo conta. São os grandes convidados, com contrato, para iniciativas organizadas por esses movimentos neocatólicos manipuladores que, ao manipular, controlam até a piedade eucarística e as exposições do Santíssimo Sacramento, usadas como manifestações não da verdadeira adoração, mas para mostrar que eles, e só eles, são os verdadeiramente dados a Deus, próximos d’Ele, enquanto o resto dos seres humanos são estranhos a Deus ou estão suficientemente distantes para que Deus os tenha em conta.
Tudo isso se traduz numa mensagem clara: se queres estar próximo de Deus, isso só acontece se pertenceres a este movimento. A isto, que já é suficientemente perigoso, junta-se a afirmação de que só na exposição do Santíssimo Sacramento Deus está presente. Ele é um Deus absolutamente desmembrado, exclusivamente espiritualista.
Estes influenciadores pertencem a uma classe social alta que vive numa bolha, alheia a qualquer realidade em que vive a maioria das pessoas. São, juntamente com parte destes movimentos, os mais altos representantes em Espanha dessa teologia MAGA, também chamada teologia da prosperidade – que visa substituir a Teologia da Libertação – que sustenta que, se se é branco e rico, é-se abençoado por Deus; e se é negro ou branco e pobre, é porque se fez algo de mal e não se é abençoado por Deus. Além disso, defende que a pessoa não tem possibilidade de sair da situação em que vive porque essa é a vontade de Deus. Um exemplo claro e legitimador do neoliberalismo mais extremo e da supremacia ariana.
Estas barbaridades e aqueles que as sustentam desfrutam de um altifalante mediático gratuito de longo alcance: são normalmente convidados destacados em programas religiosos da COPE e da 13Tv, ambos pertencentes à Igreja Católica em Espanha (ou onde a Igreja tem a maioria como accionista). Ninguém vê realmente o perigo que eles implicam?
Alguns destes influenciadores foram aprender técnicas de manipulação-comunicação nas escolas de telepregadores nos Estados Unidos e sabem falar, gesticular e, acima de tudo, manipular pouco a pouco com a sua mensagem. Quem não teve essa oportunidade de ir aos Estados Unidos, só tem de copiar as técnicas, porque não é difícil. Por exemplo, as palavras finais de uma destas influenciadoras num dos maiores espaços de Madrid, a Movistar Arena, no final de uma reunião dos famosos Jantares Alpha: “Se tiveres dúvidas sobre a existência de Deus, pede-lhe provas.” Ninguém, absolutamente ninguém, comentou isto e, claro, ela é uma das convidadas dos media da Igreja acima mencionados. Curiosamente, nenhum desses influenciadores pertence a nenhum dos movimentos neocatólicos citados. Eles seguem sozinhos: negócios são negócios.
“Jantares Alpha”: adorar o Santíssimo por 50 euros – no mínimo

Jantar Alpha em Madrid, em Janeiro deste ano, que reuniu seis mil pessoas. Foto reproduzida das redes sociais do movimento.
A rentabilidade do negócio de marketing religioso é fácil de perceber pelo último dos Jantares Alpha em Madrid. Movimento cristão de evangelização que nasceu em 1977 na paróquia anglicana da Santíssima Trindade Brompton, em Londres, foi popularizado, nos anos 1990, por Nicky Gumbel, que conseguiu criar uma fórmula de marketing religioso que, no início, tinha boas intenções – e sucesso.
A fórmula é muito simples (pelo menos até agora) e consiste em aproximar os distantes, os ateus: jantar grátis num ambiente que nada tem a ver com a Igreja, onde os convidados são tratados como anfitriões; projecção de um vídeo seguida de uma palestra com perguntas muito bem direccionadas; e, finalmente, discussão em pequenos grupos. Porque é que agora têm tanta presença? Porque conseguiram unir duas realidades em que os jovens estão imersos e perdidos: a crise de sentido na vida e a solidão. É um movimento interdenominacional, pois integra católicos, protestantes e ortodoxos.
Nesse último jantar na Movistar Arena, em Madrid, com o título “Chamados 2033”, que decorreu em 12 de Janeiro deste ano, reuniram-se seis mil pessoas. Consistiu num momento de testemunhos – incluindo a “prova da existência de Deus” – para terminar com um acto de adoração. Cobraram entrada: a mais barata foi 50 euros. Houve membros de paróquias que viajavam, alugavam um autocarro e viajaram até oito horas (ida e volta), num dia útil, para assistir à iniciativa.
O que havia de tão especial naquele Santíssimo Sacramento para pagar 50 euros de entrada mais o aluguer do autocarro? Não valia a pena o que estava exposto em qualquer paróquia de forma gratuita? A resposta está mesmo à nossa frente: um negócio de marketing religioso perfeitamente oleado, e uma taxa de entrada para pagar aos influenciadores “católicos” convidados.
Os negócios de marketing religioso são agora grandes negócios. A questão é se este tipo de marketing, apresentado como religioso, serve o evangelho e a Igreja, ou utiliza o evangelho e a Igreja. O sucesso económico, muito bem estudado, não garante o sucesso da evangelização. Porque, por acaso, quando uma pessoa se dedica à tarefa de evangelização, não se apresenta como um modelo a seguir, nem conta tudo aquilo de que abdicou.
Curiosamente, todos estes empresários do “evangelho” aludem ao abandono das suas grandes carreiras e dos seus empregos com altos salários. Isto, que é um padrão de explicação e comportamento comum a muitos destes gurus do marketing religioso, é uma das luzes vermelhas mais visíveis que poucos querem ver. Porque acontece que toda a gente continua a ter um padrão de vida muito elevado.
Um grupo não é uma comunidade

Retiro da rede Emaús em Sevilha: “Aqueles que frequentam os seus retiros são obrigados a manter silêncio sobre o que lá acontece.” Foto reproduzida da página da diocese de Sevilha
Emaús (adultos), Epheta (jovens), Bartimaeus (adolescentes), sempre separados por sexo e uma organização paralela para padres, são os ramos da rede Emaús, que não tem uma estrutura rígida não tem estatutos nem reconhecimento canónico e organiza retiros de fim-de-semana. Nascido em Miami no final dos anos 70, teve uma rápida expansão em Espanha na última década. Aqueles que frequentam os seus retiros são obrigados a manter silêncio sobre o que lá acontece. Dizem isso para preservar o factor surpresa. Não se pode negar que conseguiram algumas conversões e até o baptismo de alguns adultos, mas isso não nos impede de ver que nem tudo o que brilha é ouro, e que há mais perigo do que graça.
Quem participa tem de entregar o relógio e o telemóvel quando chega ao retiro, não para procurar que as pessoas tentem centrar-se no retiro, mas como forma de controlo absoluto, para que a pessoa esteja literalmente incomunicável. Uma prática que, pelo menos, provoca já algum alarme. Porquê querer isolar a pessoa e fazê-la perder a noção do tempo? Isto não é uma prática cristã, é antes sectária.
Algumas pessoas falam sobre o que acontece ali, sem quererem expor-se publicamente; reconhecem que, se chegam ao retiro numa fase da vida em que nada de extraordinário acontece e estão espiritualmente bem, o risco de serem manipuladas praticamente não existe. Estar e chegar nesse estado permite-nos ver a estranheza de certas práticas e manipulações. No entanto, quando se trata de uma pessoa facilmente manipulável ou que, por qualquer motivo, está a passar por um momento emocional difícil e delicado, o afastamento e a manipulação pode ser uma armadilha que a afundará ainda mais.
Vale a pena lembrar que um grupo não tem nada a ver com uma comunidade. Um grupo tende a anular o indivíduo. Uma comunidade saudável nunca faz isso. Por isso, nestes movimentos e também nestes retiros, a pressão do grupo é imensa e muitas pessoas são pressionadas a agir e dizer o que não sentem para não serem marginalizadas no grupo.
Como os organizadores rapidamente detectam a situação das pessoas, também sabem manipulá-las. Aos testemunhos comoventes em que as pessoas expõem o mais íntimo de si, que cumprem a função do primeiro impacto e geram a necessidade humana de encontrar conforto, acrescentam-se, rapidamente, as figuras dos “servidores” – os organizadores e companheiros que têm a função de reforçar esse impacto emocional em qualquer lugar e a qualquer momento. Isto acontece numa tarde/noite de sexta-feira.
O sábado é o impacto final. Aproveitando uma catequese sobre os sacramentos, a pessoa é sujeita à descida ao inferno das suas verdadeiras misérias ou causadas pelos organizadores. O eco dos testemunhos ouvidos atinge a mente e, acima de tudo, o coração da pessoa. A exposição permanente do Santíssimo Sacramento, os cânticos escolhidos criam expressamente a ideia de que o que ali acontece é “a verdade”. E, no domingo, supostamente, ressuscita-se sem deixar rasto da sua situação real porque tudo é uma versão expresso. Sem acompanhamento, sem processo, sem escuta, sem verdadeira cura… Não há liberdade nem aprofundamento. Sem ambas, há verdadeira evangelização?
Quando o retiro termina, as pessoas são convidadas, ou melhor, chamadas a entrar numa espécie de organização desorganizada, Emaús, sem qualquer estatuto canónico, ou a dirigir-se a um dos outros movimentos que fazem parte da rede. A vida não começa no dia em que um destes retiros termina. Todos temos uma vida, um passado, que não podemos e não devemos negar, mas aprender com ele, crescer e mudar, se necessário. Fazer as pessoas acreditarem no contrário e, além disso, fazê-las acreditar que a vida não é possível fora dessa bolha que estes movimentos constituem, é um abuso de poder e consciência em todos os aspectos.
Manipular com música

Concerto do grupo Hakuna: conquistar espaço no universo da piedade eucarística, através da música. Foto reproduzida da página do Hakuna.
Como se tudo o que se refere não bastasse e como todos estes grupos estão ligados, quem é responsável por acompanhar estes retiros? Bem, entre outras pessoas, as Filhas do Amor Misericordioso, as HAM já mencionadas – para que não haja dúvidas, as do sexo oral com a fundadora, entre outras barbaridades. Têm espaço e tempo para manipular e “pescar” outras vítimas.
Noutras ocasiões, chamam grupos Hakuna para o desempenho musical, cujo site é como “ver” o paraíso.
Este grupo está a conquistar um grande espaço no manipulador universo da piedade eucarística, através da música. O seu fundador é José Pedro Manglano, antigo membro do Opus Dei. O grupo é visto como uma cisão do Opus Dei, mas há quem desconfie de que pode ser mais uma estratégia desta organização. Os seus membros negam a filiação e, mais ainda, a estratégia, mas não se pode negar que no seu ADN está o Opus Dei, onde a fé e a rentabilidade nos negócios são indissociáveis.
Um movimento de classes onde há um pensamento único e onde o pensamento livre é um luxo não permitido (isto é muito o que acontece por vezes na Opus Dei e, em geral, neste tipo de movimentos); o seu merchandising muito caro é a forma de dizer que uniformidade é força. Nascido entre 2012 e 2013, consolidou-se após a JMJ no Rio de Janeiro. As suas actuações enchem campos de futebol e praças de touros. As dioceses, felizmente não todas, estão muito felizes por ter este grupo numa das suas paróquias. Claro, nas melhores paróquias localizadas nas zonas mais caras das cidades. Os seus actos de adoração agregam muitos jovens. Agora precisam de entender que durante a celebração da missa, o Santíssimo Sacramento não pode ser exposto. Já têm um itinerário para jovens, para casais noivos, para famílias… Toda uma estrutura com uma única referência que é o seu fundador, a quem chamam Dom “JosePepe” culto da personalidade puro e risco absoluto. De transparência económica, nada. Nada mesmo.
É também necessário mencionar outros movimentos e organizações como o Opus Dei ou o Caminho Neocatecumenal – conhecido como Kikos pelo nome do seu fundador, Kiko Arguello – entre outros. Estes grupos geraram tantas vítimas que, felizmente, alguns criaram um site na sua época para recolher queixas. Há páginas das vítimas do Opus Dei e das vítimas dos Kikos.
Os testemunhos que se podem ler em ambas as páginas são de partir o coração, mas ambos os sites são também um caminho de esperança. Pelo menos, as vítimas destes movimentos não estão sozinhas e podem contar as suas experiências.
Na plataforma HBO, já foram apresentados dois episódios sobre o Opus Dei, dedicado às mulheres e outro aos homens, porque na instituição as mulheres são secundarizadas. Estes episódios revelaram que o que acontece dentro do Opus dei é estrutural e que precisa de acontecer para que a instituição seja o que é. Sem essa estrutura, não é nada.
Em Espanha, o Opus Dei nunca responde publicamente ao que se diz sobre a instituição; desta vez, foi muito surpreendente que apenas alguns dias antes da apresentação do segundo episódio, a Opus Dei tenha apresentado um livro (na televisão e na rádio da Conferência Episcopal) e também em outros meios de comunicação. Nele, a organização apresenta-se como constituída por pessoas “normais” que se dedicam apenas a trabalhar, rezar e aproximar outras pessoas de Deus.
A extrema-direita não procura tantos eleitores dentro do opus dei como noutras formas de influência. a extrema-direita poderia aprender com o opus dei formas de manipular as pessoas. A opus dei sabe como colocar os seus membros onde é conveniente para eles estarem. Ela, a presença política foi total durante vários governos de Franco. Porque precisaria de mais?
A pressão da comunidade nos “Kikos”

Kiko Arguello com o Papa Francisco: nos kikos, o grupo faz pressão dizendo que se um dos seus membros não cumprir o processo, toda a comunidade sofre um retrocesso. Foto © Vatican Media.
Nos Kikos, a pressão do grupo – que não é uma comunidade, mesmo que se chame assim – é infernal para os seus membros: a evolução no grupo, o continuar a avançar no “caminho”, tem de ser confirmado por toda a comunidade. Se um dos seus membros não cumprir o processo, toda a comunidade sofre um retrocesso, um fracasso. Para essa pessoa é um inferno, porque a caridade da comunidade não aparece muito. Em Janeiro deste ano, numa audiência com os líderes deste movimento, Leão XIV deixou-lhes muito claro o que não devem fazer porque, precisamente, é isso que fazem. O discurso está no Vatican News e já o Papa Francisco lhes pedira “docilidade e obediência”, com atenção à ligação com os bispos de cada diocese e dizendo que é preciso fazer “tudo na Igreja, nada fora da Igreja”.
Outra questão que terá de ser posta em cima da mesa, debatida em todos estes grupos e movimentos, é a falta de transparência económica. Desde o que os seus membros entregam, até ao quadro económico que merece a melhor engenharia financeira. Em suma, mais um abuso. Abuso económico.
Nem o Opus Dei nem os Kikos estão a ganhar membros, mas é isso que querem fazer-nos acreditar. Pelo contrário, sabemo-lo graças à coragem de algumas das pessoas que conseguiram sair (e só elas sabem o que custa sair devido às enormes pressões, assédio e manipulações que sofrem).
É certo que os Kikos não têm as mesmas ligações políticas directas que os outros movimentos. O lamentável é que os políticos de extrema-direita estejam a utilizar estes movimentos para alargar a sua influência.
A Conferência Episcopal Espanhola publicou uma nota intitulada Cor ad cor loquitur (“O coração fala ao coração”),
alertando para o perigo da manipulação emocional por parte desses grupos – sem os nomear, mas vê-se quem são nas entrelinhas –, para o perigo da manipulação através de uma emotividade que está muito próxima do abuso espiritual.
Messianismos

“Não permitir o pensamento é possibilitar o abuso espiritual.” Foto Doidam10
Todo este apelo à emotividade em pessoas com feridas reais provoca profundas recaídas quando a pessoa vê que, no seu dia-a-dia, o “método de impacto” de um fim-de-semana é inútil e abre caminho ao abuso espiritual. Afastar as jovens das suas famílias para que sigam apenas a “fundadora” (como já aconteceu com vários grupos) é prova de um messianismo pouco saudável, de abuso espiritual e de abuso de consciência. Fazer da música um elemento classista de supressão da diferença e não permitir o pensamento é possibilitar o abuso espiritual e empobrecer a vida dos jovens que serão chamados a lutar contra a uniformidade para a qual caminhamos. Sujeitar as pessoas a tratamentos de impacto para resolver os seus problemas num fim-de-semana é abuso espiritual.
Enfim, usar Deus para, através da manipulação da piedade eucarística, fazer muitas pessoas acreditarem que, fora desse movimento, Deus não ouve, é abuso de consciência. Já sabemos o que é um abuso de consciência e o que isso implica. E o abuso de consciência é o elemento que une a ultra-direita política que se apresenta como “cristã” a estes grupos e movimentos. Querem colonizá-los e estão a conseguir.
O uso da linguagem cristã para dar credibilidade a estes “métodos de impacto” e outros que se mantêm ao longo do tempo, mas que impedem as pessoas de evoluir e manipulam a emotividade da pessoa, é prova de quão falsos podem ser e da necessidade que têm de se sentirem “homologados”.
Quando certas questões destes grupos são expostas, a resposta não visa desmontar ou negar a acusação, pela simples razão de que não podem. Atacam simplesmente quem escreve ou fala sobre qualquer assunto. Como não têm argumentos para refutar, a resposta é articulada, sem fazer muito ruído, mas de uma forma que tenta torná-la eficaz, em três pontos: avisos a quem expõe a situação publicamente, ameaças subtis e ameaças veladas difíceis de demonstrar, mas que semeiam dúvidas de todo o tipo sobre essa pessoa. Esta é uma das piores experiências que uma pessoa pode vivenciar.
Estas são práticas absolutamente sectárias.
A extrema-direita sabe onde pescar

Jordan Bardella com Marine Le Pen, do Rassemblement National. Foto X Alertes Infos
É importante estar vigilante para ajudar a curar estes movimentos religiosos, para que os grupos políticos não tenham tantas facilidades em encontrar zonas de pesca dos votos das pessoas, muitas vezes bem-intencionadas, mas enganadas e manipuladas na sua religiosidade. Não nos esqueçamos do Ressemblement National, de Marine Le Pen, em França; do Vox, de Santiago Abascal, em Espanha; Chega, de André Ventura, em Portugal; Reform UK, de Nigel Fareg, no Reino Unido; AfD, de Alice Weidel e Ulrich Siegmund, na Alemanha, e daqueles que adoptam as suas ideias. Todos têm as práticas referidas porque viram neste campo rentabilidade política. A religião em si e a espiritualidade das pessoas importam-lhes tão pouco quanto a sua liberdade. E as consciências dessas pessoas muito menos. Consideram-se superiores (a extrema-direita acredita-se sempre superior), mas estamos a caminhar para um mundo onde políticos, todos eles, serão marionetas e presas dos oligarcas da comunicação e da IA, que são os mesmos. Vamos tentar não lhes facilitar tanto a vida.
Como se reage a esta realidade? É muito urgente articular um cuidado pastoral e uma comunicação cristã que contrariem a presença ultra-direitista e, acima de tudo, estas visões contrárias ao Evangelho de Jesus Cristo.
Vale a pena perguntar-nos se o que fazemos é pastoralmente útil. Estamos expostos a um alerta que parece não se ouvir. Construir demora muito tempo. Destruir, faz-se em dias e até apenas algumas horas. Missas não chegam, e missas e mais missas, e mais “catequese” não valem mais do que isso, se não despertam a curiosidade e a aproximação ao Evangelho e a Deus, para descobrir o que Deus diz hoje, o que Ele diz a cada um de nós.
Não vale a pena (e não o podemos permitir), que estes grupos continuem a dizer a muitas pessoas o que Deus quer delas através dos seus líderes, porque essa não será a vontade de Deus, mas sim a de cada um deles. Devemos perder o medo de acreditar que é melhor esconder a cabeça como avestruzes e esperar que o perigo passe. Este perigo não passa. Este perigo cresce.
Se o medo está a matar a democracia e a possibilidade da necessária diversidade política, o medo também pode acabar com a maravilha que é, na Igreja, a comunhão na diversidade. O medo é manipulação, pura manipulação.
O rosto de Cristo está no evangelho e em cada homem e mulher que cruza o nosso caminho. Não nesse cristofascismo que a ultra-direita política ou os partidos que assumem os seus postulados querem fazer acreditar e crescer, capturando a vontade de muitas pessoas através de movimentos para os quais a religiosidade e a piedade são mais um elemento de manipulação. Enfim, é evidente que há um uso da religião para que o populismo da ultra-direita pareça algo bom e aceitável. A ultra-direita é sempre um lobo com pele de cordeiro.
Por isso, creio que deveríamos recuperar o pensamento e a acção de Dietrich Bonhoeffer: a sua denúncia do nazismo pré-bélico e bélico poderia ajudar-nos a perceber que não estamos num momento assim tão diferente do que ele viveu há oito décadas.
Devemos enfrentar o perigo de um silêncio cúmplice porque a vida de muitas pessoas depende dele. Ou fazemos algo, ou continuarão válidas as palavras de Karl Rahner na sua obra Mudança Estrutural da Igreja (1972): “O verdadeiro problema da Igreja é continuar a puxar, com crescente resignação e tédio, pelos caminhos habituais da mediocridade espiritual.”
Cristina Inogés Sanz é teóloga e foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. É autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora).
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