“Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. É uma expressão bem conhecida e frequentemente utilizada. Mas nem todos sabemos qual é a sua origem. Trata-se de um slogan criado no final da década de 1920, por ocasião da chegada a Portugal de uma das marcas mais famosas do mundo: a Coca-Cola. E, para surpresa de muitos, desenvolvido por um dos maiores poetas portugueses: Fernando Pessoa, então um ilustre desconhecido que trabalhava numa das primeiras agências publicitárias (a Hora).
A bebida acabou por ser proibida no país, pelo Estado Novo, devido a dúvidas sobre a sua composição e efeitos. Apesar de a campanha não ter avançado, a frase transformou-se quase num dogma nacional, uma espécie de justificação para tudo o que é absurdo, desagradável ou medíocre. Se a música é má, se a moda é ridícula ou se o novo horário de trabalho é incomportável, o diagnóstico é sempre o mesmo: é só uma questão de tempo, estranha-se agora, entranha-se depois.
Mas a mensagem subjacente é perversa: o problema nunca está no estímulo, está na resistência ao mesmo.
Vivemos obcecados com a capacidade de sermos resilientes e flexíveis, palavras que, no fundo, podem premiar a submissão. Estranhar passou a ser visto como um tique de imaturidade ou uma velharia conceptual. Quem recusa um novo padrão é muitas vezes rotulado de conservador ou incapaz de evoluir. E aqui surge a pergunta: quando é que deixa de ser apenas adaptação e passa a ser resignação?
O cérebro humano tem a capacidade fascinante de sublimar o desconforto para não enlouquecer. Quando nos habituamos ao barulho do comboio que passa perto de casa, não significa que tenhamos aprendido a gostar, significa apenas que o nosso sistema nervoso se cansou de gritar. E aquilo que dizemos ser “entranhar-se” é, no fundo, apenas o esgotar do discernimento crítico.
Invalidar a estranheza é um excelente negócio para o mercado e ideal para o conformismo. Se tudo se entranha pela força do hábito, desligamo-nos da exigência. Deixamos de pedir qualidade porque nos ensinaram que o mau sabor inicial é só uma questão de hábito e de aprendizagem.
Ao transformar a habituação num dever, a sociedade contemporânea foi retirando valor à rejeição. Contudo, saber dizer “não gosto”, “isto não faz sentido” ou “parece-me errado” é uma das ferramentas mais nobres do sentido crítico. Por isso, recuperar a capacidade de rejeitar é urgente. O sobressalto, o desconforto e a recusa não são falhas de caráter nem sinais de atraso, são os últimos redutos da nossa individualidade. Nem tudo tem de ser absorvido, nem tudo merece esforço de aceitação.
Reivindicar o direito de continuar a estranhar é recusar ficar anestesiado pela repetição. É defender que o choque inicial não tem de ser um obstáculo a superar, pode ser um sinal de alarme. Há factos na cultura, na política e no quotidiano que devem continuar a ser estranhos, precisamente para que nunca nos pareçam normalmente habituais.
E desconstruir este lugar-comum, este cliché, ajuda-nos a compreender que não precisamos de nos adaptar a tudo o que nos rodeia: precisamos sobretudo de coragem para manter a estranheza intacta quando o mundo nos quer forçar a aceitar como normal aquilo que não o é.
Todos os dias nos cruzamos com frases feitas e dogmas do senso comum. Funcionam como atalhos mentais confortáveis, mas raramente resistem a quem se atreve a questionar. É aqui que nasce o Lugar (in)comum.
Esta rubrica surge para desarmar os automatismos da linguagem e dar espaço ao espírito crítico. Queremos desmontar as certezas absolutas que bloqueiam o debate de ideias, substituindo a reflexão por muletas intelectuais que encerram as conversas antes do tempo.
Porque as palavras que repetimos moldam a forma como pensamos. E levar estes clichés demasiado a sério não é sabedoria — é uma preguiça mental que nos afasta do essencial.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Equipa de Comunicação e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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