Na Nicarágua, o regime mantém “uma vontade de eliminar toda e qualquer oposição e toda a dissidência” que se estende à repressão para “impedir uma possível crítica ao Governo a partir das igrejas”. A afirmação é de Marylaura Acuna, do Centro pela Justiça e o Direito Internacional, após ter testemunhado junto da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), um órgão criado pela Organização dos Estados Americanos, na audição que decorreu no dia 26 de outubro, em Washington, sobre a perseguição religiosa naquele país.
Nas suas declarações à Agence France-Presse, Acuna denunciou a revogação da personalidade jurídica de entidades religiosas e o confisco das suas propriedades, além das “prisões arbitrárias” e dos “desaparecimentos forçados” dos seus líderes. Katy Lechado, da ONG Coletivo Nicarágua Nunca Mais (CNNM), precisou que pelo menos 1.341 organizações religiosas tiveram seu registo “cancelado” este ano, ou seja, deixaram de ter qualquer existência legal.
A Nicarágua é governada há 19 anos consecutivos (depois de outros 11 anos entre 1979 e 1990) pelo Presidente Daniel Ortega, agora coadjuvado pela mulher Rosario Murillo. Os resultados das últimas eleições não têm sido internacionalmente reconhecidos e a repressão interna intensificou-se após as manifestações de 2018, que, segundo a ONU, provocaram mais de 300 mortos.
De acordo com um relatório publicado pelo CNNM no final do ano passado, o Governo de Daniel Ortega “considera as instituições religiosas como ameaças diretas ao seu poder”, pelo facto de a Igreja “se recusar a tomar partido a favor do Governo” e “posicionar-se ao lado da população civil”. Este conflito permanente ditou a expulsão do país de mais de 260 personalidades religiosas entre 2018 e 2025, a mais famosa das quais, o bispo de Matagalpa, Rolando Álvarez, uma das principais vozes críticas do regime. Tendo recusado, em 2023, a deportação para os Estados Unidos, depois de condenado a 26 anos de prisão, o bispo permaneceu preso durante mais de 500 dias, após o que foi deportado para o Vaticano em janeiro de 2024.
Também o bispo de Jinotega, Enrique Herrera, então presidente da Conferência Episcopal da Nicarágua, foi detido, banido e forçado a exilar-se na Guatemala em novembro de 2024.










