A exortação do apóstolo Tiago é clara. Um cristão não discrimina os pobres pelo simples facto de o serem.
¹ Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em aceção (discriminação) de pessoas.
² Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje,
³ E atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado,
⁴ Porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?
⁵ Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?” (Tiago 2:1-5).
Nós devemos ver o mundo pelos olhos de Deus. Vejamos então como Deus vê os pobres.
Logo desde o Antigo Testamento nos são dadas pistas sobre o assunto

“A lei de Moisés prestava atenção aos mais vulneráveis.” Rembrandt (1606–1669), Moisés com as Tábuas da Lei. Rembrandt, Public domain, via Wikimedia Commons.
A lei de Moisés prestava atenção aos mais vulneráveis. Lemos em Êxodo 23:10-12: “Também seis anos semearás tua terra, e recolherás os seus frutos. Mas ao sétimo a dispensarás e deixarás descansar, para que possam comer os pobres do teu povo, e da sobra comam os animais do campo. Assim farás com a tua vinha e com o teu olival. Seis dias farás os teus trabalhos, mas ao sétimo dia descansarás; para que descanse o teu boi, e o teu jumento; e para que tome alento o filho da tua escrava, e o estrangeiro.”
Mas se formos até Salomão encontramos o mesmo tom: (Provérbios 14:31): “O que oprime o pobre insulta àquele que o criou, mas o que se compadece do necessitado o honra” (Provérbios 14:31). “Abre a tua boca; julga retamente; e faze justiça aos pobres e aos necessitados” (Provérbios 31:9).
Até mesmo o Livro de Job, que é considerado o livro bíblico mais antigo, afina pelo mesmo diapasão: “De sorte que o clamor do pobre subisse até ele, e que ouvisse o clamor dos aflitos” (Jó 34:28).
E praticamente todos os profetas alertam duramente contra o abuso, a exploração e a opressão dos pobres. Amós, Miqueias, Isaías, Jeremias e Ezequiel clamaram contra quem explorava os pobres e os socialmente mais vulneráveis: “Quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas” (Isaías 1:15-17). Daí que seja muito difícil entender uma comunidade de fé cristã que não faça trabalho social.
Mas também Jesus e os apóstolos ensinaram sobre a pobreza

Jesus curando o cego perto de Jericó. Séc. XVII. Por Eustache Le Sueur, atualmente na Galeria Sanssouci, em Potsdam, na Alemanha.
A pobreza é inevitável num mundo caído em pecado. “Os pobres sempre os tendes convosco” (João 12:8a). Uma condição que não provém da vontade divina mas sim do egoísmo dos homens e das nações.
Jesus veio anunciar a boa nova aos pobres. “E, chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga, e levantou-se para ler. E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres (dar boas notícias). Enviou-me a curar os contritos de coração. A proclamar liberdade aos cativos, e restauração da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lucas 4:16-19). Se os pobres não receberem outras boas notícias, pelo menos recebem as do Evangelho.
Os apóstolos nunca esqueciam os pobres. “E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos as destras, em comunhão comigo e com Barnabé, para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão. Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência” (Gálatas 2:9,10). Esta era uma preocupação permanente, em especial numa sociedade sem coesão e sem apoios sociais.
Os pobres têm um lugar especial no coração de Deus. “Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?” (Tiago 2:5b).
Uma fé que ignora os pobres é falsa. “Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em aceção de pessoas (discriminação)” (Tiago 2:1). O Evangelho não permite separar pessoas pela cor da pele, educação, nível social ou etnia.
Mas o mais interessante de tudo, talvez, ainda seja o facto de que abençoar os pobres é um investimento no reino de Deus. “Ao Senhor empresta o que se compadece do pobre, ele lhe pagará o seu benefício” (Provérbios 19:17). Isto é, quem abençoa um pobre empresta a Deus, e Ele retribuirá com juros, ou seja, Deus o recompensará.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










