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Halloween
Foto © Toby Ord, Obra do próprio, CC BY-SA 2.5 | Wikimedia Commons

Ensaio

Ciclos e Rituais para atravessar a noite do inverno: medos e transformação

| 02/11/2026

 

Nota introdutória e pessoal

Comecei o dia a interrogar a minha assistente pessoal (IA, Notion) sobre o Halloween, o dia de Todos os Santos e o Pão por Deus. Adoro festas, brincadeiras e celebrações – quem não gosta? A polarização e o antagonismo são geradores de tensões e conflitos – não promovem o diálogo e o reconhecimento do Outro, daquele ou daquela que são diferentes de nós. Fiquei a pensar nas razões que subjazem à desvalorização de outras culturas, que apontam a nossa como a certa, a diferente, e a do Outro como a errada. É muito importante alimentar o sentimento de pertença, a coesão social e a identidade, mas não é necessário que seja à custa do que é diferente, daquilo que nos assusta. Precisamos antes de cultivar um espírito de curiosidade, de abertura, de querer perceber aquilo que o Outro – ser humano como nós – tem para nos ensinar, sem medo de perder a nossa identidade, quem somos e valorizando o que é importante para cada um. A nossa identidade não se mantém estática ao longo da vida, vai-se transformando. Gosto muito da frase de Saint Exupery: “Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”

Vim de uma família católica, sempre muito crítica à importação consumista das tradições do Halloween trazidas até ao nosso país pela globalização, adorava celebrar em criança o “Pão por Deus”. Íamos de casa em casa, na aldeia dos meus avós, a bater às portas, a cantar e a perguntar o que tinham para nos dar. Era como que um ritual de passagem para mim, um sinal de que estava a crescer e que já podia sair de casa com outros amigos para além das pessoas da família. Tínhamos as nossas aventuras, pregávamos as nossas partidas e no regresso a casa trazíamos um “talego” cheio de doces para mostrar, partilhar e saborear, tudo acompanhado das histórias das partidas e das aventuras vividas.

Anos mais tarde, as minhas filhas juntavam-se em Braga com os primos mais velhos e os seus amigos. Mascaravam-se de bruxas e de esqueletos e iam pelas casas do bairro a pedir doces. Já não havia “talegos”. A tradição tinha mudado. Era o Halloween que imperava, mas as brincadeiras, as partidas, as aventuras eram semelhantes e a diversão das crianças e jovens adolescentes era imensa. Uma brincadeira pegada sem ofender, sem desrespeitar fosse quem fosse e sem que se magoassem.

 “(…) adorava celebrar em criança o “Pão por Deus”. Íamos de casa em casa, na aldeia dos meus avós, a bater às portas, a cantar e a perguntar o que tinham para nos dar.” Foto ©  site a.muse.arte

Depois com os meus alunos na escola, ao pedirem-me que lhes pintasse as caras com as cicatrizes e feridas dos ressuscitados, ou dos monstros que mais os assustavam, percebi como esta brincadeira os ajudava a dominar os seus próprios medos e se sentiam fortalecidos, muito empoderados para lidarem com eles. Era um poder que vinha de os encarnarem.

Passei a olhar para o Halloween de outra maneira e comecei a realizar pesquisas, como esta que hoje fiz e a interrogar-me de forma mais profunda sobre esta festa. As questões que hoje coloquei à IA, têm que ver com estas minhas vivências e a minha forma de combinar diferentes tradições. Penso que encontrei respostas interessantes, que agora partilho neste pequeno artigo. Apesar de as pesquisas iniciais terem sido com recurso à IA, tudo foi verificado e confirmado.

 

Respostas às minhas interrogações

O festival celta de Samhain

“O Samhain era uma celebração sazonal dos povos celtas (Irlanda, Escócia, País de Gales) associada à passagem do verão para o inverno.” Foto: Festival celta de Samhain.© Matt Cardy. | site USC Dornsife

As festas não são apenas ocasiões para acreditar em certas histórias ou vestir certos disfarces. São rituais: ações repetidas e partilhadas que ajudam as pessoas a marcar passagens, a lembrar quem veio antes e já faleceu, a enfrentar incertezas e sentir que pertencem a uma comunidade. Estudos interdisciplinares sobre o ritual apontam-lhe as seguintes funções: sincronizar a vida coletiva, transmitir valores entre gerações e ajudar a regular a ansiedade. Sabemos que existem rituais que podem excluir, impor normas ou causar dano, mas não são aqueles que nos interessam (Legare & Nielsen, 2020).

A investigação em língua portuguesa ajuda a aprofundar esta dimensão, analisa a importância das rotinas, tradições, celebrações e rituais para a vida familiar, interpreta a festa como uma interrupção e recriação do quotidiano, ligada à identidade comunitária e afirma que existem diferentes tipos de festa: umas   põem a tónica na transgressão (Halloween e o Carnaval) e outras reforçam identidades, valores, hierarquias e vínculos partilhados (Pinto & Ribeiro, 2010; Teixeira, 2010).

O Halloween reúne muitas dessas funções à volta de uma fronteira simbólica: a passagem do verão (o fim dos dias longos e da época das colheitas, no mundo rural) para o inverno (dos dias curtos e das noites longas, a par do adormecimento da natureza), a lembrança dos mortos e o contacto com o mundo imaginário e neste com o assustador. A história do Halloween é complexa e as respetivas tradições têm diversas origens.

Não existe investigação recente que reúna a história de Samhain, o Halloween, Todos os Santos, os símbolos de bruxas e mortos, a psicologia do medo e o Pão por Deus. As linhas de investigação mais recentes distribuem-se por áreas diferentes, destrinçando estudos empíricos, de sínteses históricas e de encontros académicos.

No contexto português, o artigo de Susana Goulart Costa (2024), relaciona Todos os Santos, o Pão por Deus e o Halloween, sublinhando a memória dos mortos e a incerteza quanto à origem exata do costume português. Trata-se de uma contribuição histórica e de divulgação académica.

Numa entrevista de 2024, o historiador Aidyn Osgood aborda a história moderna da bruxaria, as perseguições e a contestada associação entre bruxas e Halloween. Ajuda a situar o tema nos estudos de história social e de género, apesar de não se tratar de um estudo empírico.

 

Uma festa feita de camadas

O Samhain era uma celebração sazonal dos povos celtas (Irlanda, Escócia, País de Gales) associada à passagem do verão para o inverno. As fontes sobre os seus costumes antigos são escassas, e muitos relatos conhecidos foram registados por escritores cristãos muitos séculos depois, após a conversão da Irlanda. Por isso, é bastante arriscado tratar o Halloween atual como uma continuação direta e intacta de uma antiga festa pagã e satânica. Alguns historiadores distinguem entre influência e origem: os costumes podem misturar-se ao longo do tempo sem que uma festa seja simplesmente a sobrevivência sem alterações de outra (Bitel, 2024; Feuer, 2012).

A festa cristã de Todos os Santos, a 1 de novembro, e a comemoração dos Fiéis Defuntos, a 2 de novembro, acrescentaram outras camadas de significados e tradições: oração, memória dos mortos e costumes de partilha de alimentos. A noite anterior a Todos os Santos ficou conhecida como All Hallows’ Eve – All hallows evening, uma expressão escocesa – de onde deriva Halloween. A relação entre estas datas e Samhain é bastante debatida. Não existem evidências que permitam afirmar que a Igreja criou a festa simplesmente para substituir a celebração do Halloween (Bitel, 2024; Feuer, 2012).

 

A origem da festa de Todos os Santos

Fra Angelico, Todos os Santos

“No século VIII, o papa Gregório III dedicou uma capela de São Pedro a todos os santos e a data de 1 de novembro ganhou destaque. No século IX, a celebração difundiu-se mais amplamente no Ocidente.” Pintura: Fra Angelico, Todos os Santos

A festa não surgiu de uma só decisão. Nos primeiros séculos do cristianismo, as comunidades recordavam os mártires, muitas vezes em datas locais. No século IV já há testemunhos de celebrações comuns dos mártires; em Antioquia, por exemplo, a comemoração era assinalada no domingo depois do Pentecostes. As datas variavam entre regiões (Vatican News, s/d; Britannica, 2026).

Em Roma, um marco importante aconteceu em 609, quando o papa Bonifácio IV dedicou o Panteão a Maria e aos mártires; a festa era então celebrada a 13 de maio. No século VIII, o papa Gregório III dedicou uma capela de São Pedro a todos os santos e a data de 1 de novembro ganhou destaque. No século IX, a celebração difundiu-se mais amplamente no Ocidente. Assim, o foco de atenção alargou-se da memória dos mártires para o de todos os santos, conhecidos e desconhecidos. As Igrejas orientais mantêm, em geral, a celebração no domingo seguinte ao Pentecostes (Vatican News, s/d; Britannica, 2026).

A data de 1 de novembro veio a dar nome à véspera, All Hallows’ Eve — Halloween —, o que não significa que a festa cristã tenha sido criada para substituir o Samhain. As histórias das duas tradições cruzam-se pois ao longo dos tempos, sem uma origem única (Feuer, 2012).

 

 A festa de Todos os Santos e de Samhain devem estar associadas?

A associação começa pela coincidência no calendário. Samhain era celebrado por volta de 31 de outubro e 1 de novembro, na passagem para o inverno. A festa cristã de Todos os Santos, porém, nem sempre se celebrou nessa data, como mencionado acima.

Também havia uma confluência de temas em celebração. O calendário cristão incluía a memória dos santos e dos mortos; as tradições celtas associavam esta época do ano à passagem das estações do ano e a narrativas sobre Outros Mundos. Com a convivência entre costumes cristãos e locais, tornou-se natural aproximar as celebrações, ainda que os seus significados não fossem exatamente os mesmos (Britannica, 2026; Bitel, 2024).

A ideia de uma descendência direta foi reforçada por estudiosos das tradições locais do século XIX, que interpretavam os costumes populares como a sobrevivência de manifestações dos antigos ritos pagãos. Historiadores posteriores alertam para como essa narrativa pode simplificar a falta de evidências e as tradições que se foram alterando ao longo dos tempos. É mais rigoroso falar de coincidência de datas, influências e sobreposições culturais do que de uma substituição deliberada (Feuer, 2012; Bitel, 2024).

 

Os símbolos “assustadores”

Bruxas e esqueletos

“O esqueleto remete-nos para a fragilidade da vida humana. Na arte cristã medieval, caveiras e figuras da morte serviam, por vezes, como memento mori — lembretes de que a vida é finita e de que a morte chega a todos.” Gravura gerada por IA.

Bruxas, esqueletos e monstros não têm todos o mesmo percurso histórico. O historiador português José Pedro Paiva (2000) explica que a ideia erudita de que a bruxaria derivava do poder do Diabo se difundiu na Europa entre o fim da Idade Média e a Época Moderna. A ligação específica entre bruxas e Halloween também se formou gradualmente: não existe prova de que o Samhain fosse uma noite de culto às bruxas ou ao Diabo (Thomsen, 2024)

O esqueleto remete-nos para a fragilidade da vida humana. Na arte cristã medieval, caveiras e figuras da morte serviam, por vezes, como memento mori — lembretes de que a vida é finita e de que a morte chega a todos. A imagem também surge na Dança da Morte, que mostra pessoas de diferentes condições sociais conduzidas pela morte. Vampiros, zombies e outros monstros familiares hoje foram também remodelados pela literatura, pelo cinema e pela cultura popular moderna (Davis, 2022).

Numa celebração, os símbolos podem deixar de ser apenas imagens e tornar-se ações: acender uma lanterna, mascarar-se, contar uma história, bater a uma porta. A repetição anual dá-lhes um enquadramento conhecido, são ciclos que se repetem. Por algumas horas, a comunidade pode representar o que assusta os seus membros, brincar com as regras ou inverter papéis — sem que isso tenha o sentido de venerar aquilo que se representa. A reflexão portuguesa de Teixeira (2010) ajuda a manter a nuance: a festa pode transgredir, mas também pode transmitir pertença e valores comuns.

 

O ritual como passagem — e como encontro

Máscaras. México

“As máscaras permitem experimentar outra identidade; a luz destaca a escuridão; as histórias dão voz a medos que, de outro modo, podem ficar sem nome.” Foto: Exposição de máscaras usadas em danças tradicionais, Museu de Arte Popular, Cidade do México.| Wikimedia Commons

Uma festa ritualizada organiza uma experiência no tempo: há um dia marcado, gestos que se reconhecem e repetem, pessoas que participam e um regresso ao quotidiano. Esse enquadramento pode tornar o medo mais acessível: não elimina o desconhecido, mas dá-lhe forma e permite atravessá-lo em conjunto. As máscaras permitem experimentar outra identidade; a luz destaca a escuridão; as histórias dão voz a medos que, de outro modo, podem ficar sem nome. A reflexão de Pinto e Ribeiro (2010) sobre o papel das festas familiares no crescimento e desenvolvimento reforça que estas práticas têm funções que vão muito além do entretenimento.

A psicanálise oferece uma lente complementar. No verbete em português de Rosa Busse (2009) sobre Das Unheimliche, ou a «inquietante estranheza», o conceito freudiano descreve o medo provocado por algo familiar se torna estranho — por exemplo, um morto que parece vivo ou um rosto escondido por uma máscara. Nessa perspetiva, fantasmas e duplos podem dar corpo à nossa dificuldade em aceitar a morte ou ao receio de que algo que julgávamos encerrado regresse. É uma interpretação psicológica dos símbolos, não uma explicação histórica da origem do Halloween.

O ritual pode, assim, ajudar a perguntar: que medos estamos a encenar? O que rejeitamos nos monstros — violência, inveja, abuso de poder — e como reconhecemos essas mesmas possibilidades nas relações humanas? “Integrar” o mal, neste sentido, não é justificá-lo nem dar-lhe licença. É reconhecê-lo, assumir responsabilidade e escolher como interromper o dano e posteriormente repará-lo.

Essa transformação não é automática. Uma festa pode promover pertença e partilha, mas também excluir quem não se identifica com os seus símbolos; pessoas podem sentir-se pressionada a participar, ou pode também a tratar o sofrimento real como espetáculo. O valor do ritual depende, em parte, de como é vivido o que revela a grande importância do consentimento, do cuidado e de haver espaço para diferentes interpretações (Legare & Nielsen, 2020).

 

Leituras cristãs: entre a recusa e a transformação

Alguns cristãos evitam o Halloween por recearem que imagens de demónios, violência ou ocultismo banalizem o mal. Outros fazem a distinção entre uma máscara, uma fantasia, uma brincadeira e uma prática religiosa, e preferem celebrar a véspera de Todos os Santos como ocasião de memória ou de comunhão. A diversidade das respostas reflete também a história complexa da festa.

Na fé cristã, há também uma leitura voltada para o interior de cada um/a: não se deve atribuir todo o mal aos monstros ou aos “outros”, mas reconhecer a própria participação no que de mal acontece. No Catecismo católico, por exemplo, a confissão implica olhar de frente para o que se fez e assumir responsabilidades; a conversão implica reorientar a vida, alterar as suas atitudes e comportamentos. Acolher essa exigência não significa negar a graça ou a esperança, mas ligá-las a escolhas e gestos concretos de mudança (Santa Sé, 2003).

 

Do souling ao Pão por Deus: o rito da partilha

“O souling medieval inglês envolvia pessoas — muitas vezes crianças e pobres — que pediam comida em troca de cânticos ou orações pelas almas dos falecidos.”

O papel social do ritual aparece de modo especialmente claro nas visitas de porta em porta. O souling medieval inglês envolvia pessoas — muitas vezes crianças e pobres — que pediam comida em troca de cânticos ou orações pelas almas dos falecidos. É considerado um dos costumes que ajudam a explicar práticas posteriores de visitas e ofertas alimentares no Halloween.

Em Portugal, o Pão por Deus, celebrado no Dia de Todos os Santos, tem uma semelhança notável: crianças percorrem as casas e recebem pão, broas, castanhas, figos, nozes ou outros alimentos. O etnólogo Ernesto Veiga de Oliveira (1995) registou variantes regionais e pedidos explicitamente ligados às almas dos defuntos. A historiadora Susana Goulart Costa (2024) também descreve o costume como uma forma de recordar os falecidos e salienta que não se sabe ao certo quando começou. A associação popular com o terramoto de 1755 é apresentada como hipótese, não como origem comprovada.

A semelhança com o souling — visitas, alimento oferecido e memória dos mortos — é clara, mas não prova que o costume português descenda diretamente do inglês. É mais prudente vê-los como costumes aparentados, ligados ao calendário de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos.

Este gesto dá à festa outra dimensão: quem bate à porta não encontra apenas doces, mas uma comunidade que reconhece o pedido e responde com uma oferta. O alimento circula, os vizinhos encontram-se e a memória dos mortos torna-se parte de uma prática entre os vivos.

Talvez seja essa uma das funções mais profundas das festas: não resolver os grandes medos humanos, mas dar-lhes lugar, linguagem e companhia. No Halloween, o monstro pode ser encenado; no Pão por Deus, a evocação, a recordação pode tornar-se partilha. E, em ambos, o ritual pode criar uma ocasião para regressar à vida quotidiana com mais consciência — e com uma responsabilidade renovada para com os outros.

 

Conclusão

Não precisamos de antagonizar tradições. Precisamos de dialogar e de aprender uns com os outros. Podemos mesmo partilhar brincadeiras, medos e angústias e assim fortalecermo-nos todos em conjunto. Podemos ainda celebrar e respeitar tradições, todos juntos, ou separadamente, mas sem termos de sobre elas fazer qualquer juízo de valor, sem nos anularmos uns aos outros, ou sem perdermos a nossa identidade coletiva. Vamos assim, aprendendo a viver em conjunto, a acolher e enriquecermo-nos com a diversidade, alargando horizontes e acolhendo aqueles que são diferentes de nós.

Divirtam-se com as crianças e deixem-nas brincar com os amigos e amigas, com todos, os que são iguais e também com os que são diferentes. A construção das amizades, que se prolongam pela vida, e das comunidades de interajuda e apoio, começa muito cedo – e isso é o mais importante.
Há tempo para tudo: para se vestirem de bruxas e de diabos, de fantasmas e de esqueletos, mas também de santos e de santas, dos que ficam nos presépios e daqueles que acompanham a Paixão. Tudo tem o seu tempo e o seu lugar. E a riqueza está na diversidade de experiências que se proporcionam aos mais novos.

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Referências bibliográficas

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Margarida Belchior é professora, sociodramatista e investigadora.

 

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