Num tempo em que a imigração está no centro do debate público e em que crescem as vozes que olham com desconfiança para quem chega de outros países, o Centro de Espiritualidade Redentorista (CER) propõe uma releitura da Bíblia para descobrir como o povo de Israel viveu as experiências da migração, do exílio e do encontro com o estrangeiro. O curso “Vem para a nossa terra! – Uma teologia de migrantes”, realizado em parceria com a associação MEERU, começa já no próximo dia 16 de novembro e pretende ajudar a encontrar, nesse olhar sobre os textos bíblicos, pistas para compreender e acolher melhor os migrantes de hoje.
“O que nós queríamos era, neste tempo quente, em que há tanto ruído, olhar para a migração, não de uma forma temática, mas de uma maneira pessoal”, afirma ao 7MARGENS o teólogo David Bártolo, membro da direção do CER e coordenador deste novo curso, para explicar como surgiu a ideia de o concretizar.
A proposta parte de duas perguntas: como é que a fé cristã olha para as pessoas migrantes? E o que nos dizem Jesus e a Bíblia sobre o acolhimento dos estrangeiros? Para David Bártolo, não restam dúvidas de que as Escrituras são “o chão certo para olhar a realidade” e encontrar as respostas.
A primeira parte do curso, que decorrerá entre 16 de novembro e 7 de dezembro, é dedicada ao Antigo Testamento e percorre a história bíblica desde o século XIII a.C. até às portas do século I d.C. História essa que permitirá abordar diferentes experiências de deslocação: “desde os povos nómadas e as migrações provocadas pela fome ou pelas condições climatéricas até aos refugiados, deportados, vítimas de tráfico humano e comunidades da diáspora”, assinala o coordenador do curso.
Entre as personagens que serão exploradas inclui-se José, filho de Jacob, levado para o Egito através de uma rede de tráfico humano e que acaba por alcançar uma posição de destaque junto do faraó. “Outro exemplo é o do rei persa Ciro, que permitiu o regresso de uma comunidade judaica à sua terra natal. E que, sendo estrangeiro e não pertencendo ao povo judaico, é chamado ‘Messias’ pelo profeta Isaías”, aponta David Bártolo.
Mas, mais do que as personagens conhecidas, o teólogo considera importante descobrir também aqueles que permanecem anónimos nos relatos bíblicos. “Porque graças à sua experiência de migração, eles acabam por nos oferecer a nós, pessoas do século XXI, e a muitos cristãos, um Deus com um rosto diferente”, defende.
O percurso formativo incluirá ainda a análise das leis de hospitalidade, das políticas migratórias e das orações de comunidades exiladas. A intenção é perceber como estas experiências marcaram a própria maneira de o povo bíblico compreender Deus e de se relacionar com os outros.
Deste modo, mais do que uma teologia sobre a migração, a proposta é descobrir uma “teologia de migrantes”: uma reflexão que nasce de experiências humanas concretas e que revela um Deus também Ele “nómada, estrangeiro e migrante”.
É nessas experiências que David Bártolo encontra aquela que considera ser uma das principais interpelações da Bíblia à forma como as comunidades recebem quem chega de outros lugares, apresentando o estrangeiro não como uma ameaça ou alguém que é preciso simplesmente tolerar, mas que deve ser recebido com uma atitude de curiosidade e abertura perante a diferença. “Na diferença há uma saúde, há uma salvação que me vai acontecer por estar a acolher e a receber esse migrante, esse estrangeiro”, conclui o teólogo.
Uma formação aberta e dialogante

À semelhança de iniciativas anteriores da MEERU, como o projeto Bridges of Faith (retratado na foto), o curso visa criar um espaço de diálogo que ultrapasse as fronteiras das comunidades cristãs . Foto © MEERU
A formação irá decorrer online, ao longo das três semanas, com nove sessões áudio, disponibilizadas às segundas, quartas e sextas-feiras, com uma duração entre 45 e 75 minutos. Todas as semanas será também fornecido material de aprofundamento dos temas abordados, para assegurar a continuidade entre as sessões, e estará disponível um fórum onde os participantes poderão partilhar comentários, dúvidas e reflexões.
O formato deste curso será um pouco diferente daqueles que o CER tem vindo a dinamizar. Em vez de uma formação assente na transmissão académica de conteúdos de um formador para os participantes, o curso decorrerá em torno de conversas entre David Bártolo, Margarida Ferreira (também da direção do CER) e Isabel Martins da Silva (cofundadora da MEERU), que abordarão o tema a partir de diferentes perspetivas.
A parceria com a MEERU, organização que trabalha na área das migrações e da integração de pessoas migrantes e com a qual o CER tem já partilhado iniciativas e espaços, pretende aproximar a reflexão bíblica da experiência concreta de quem acompanha estas comunidades.
O curso está aberto a pessoas de diferentes nacionalidades, culturas e religiões, numa tentativa de criar um espaço de diálogo que ultrapasse as fronteiras das comunidades cristãs.
Essa intenção estará particularmente presente na última sessão, designada “lição número 100”, que decorrerá presencialmente na noite de 7 de dezembro, em lugar ainda a divulgar. A sessão será gravada e disponibilizada posteriormente na plataforma do curso, pelo que a impossibilidade de estar presente não deve ser motivo para a não inscrição no curso.
Esta é a primeira parte de um curso que terá depois continuidade numa segunda fase, dedicada ao Novo Testamento. As inscrições estão abertas, através do site do centro, sem custo fixo e numa lógica de donativo livre.
No final, David Bártolo gostaria que os participantes levassem consigo, mais do que conhecimentos adquiridos, uma compreensão mais ampla de Deus, que também se foi revelando através das experiências de migração e do encontro com o estrangeiro. “Gostava que quem participasse no curso saísse dele com um obrigado nos lábios àqueles migrantes”, resume.

O cartaz da iniciativa.










