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Pastor José Salvador
Pastor José Salvador em Setúbal (2016). Foto: DR

Evocação

José Salvador (1941-2026): ecumenismo e dignidade humana

 

O pastor José da Silveira Salvador morreu em 24 de outubro de 2026, aos 85 anos. Ao longo de quase seis décadas de ministério, marcou profundamente a vida da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal, que presidiu durante vários anos. Figura ativa do movimento ecuménico nacional e internacional, fez da solidariedade social, da defesa dos direitos humanos e do compromisso com os mais vulneráveis dimensões fundamentais da sua ação pastoral.

 

Nascido a 1 de agosto de 1941, na Tocha, concelho de Cantanhede, José Salvador cresceu numa família protestante, num ambiente em que a fé cristã estava associada aos valores da justiça, da liberdade, da igualdade e da solidariedade. Estes princípios viriam a orientar um percurso que ultrapassou largamente os limites das comunidades eclesiais, estendendo-se à intervenção social e ao movimento ecuménico.

Ingressou no Seminário Evangélico de Teologia, em Carcavelos, e, simultaneamente, na Faculdade de Medicina. A vocação pastoral levou-o, porém, a optar pela teologia. Os estudos foram interrompidos pelo serviço militar obrigatório, que cumpriu em Moçambique como oficial miliciano. Durante esse período, colaborou com a Igreja Presbiteriana de Moçambique, em Lourenço Marques, atual Maputo, e na Beira. Foi também em Moçambique que recebeu a bênção matrimonial pelo casamento com Alice Mercedes Nunes Albuquerque, sua companheira ao longo de 61 anos.

Regressado a Portugal no verão de 1966, concluiu a formação teológica e foi ordenado pastor a 10 de julho de 1968. Iniciou o ministério na comunidade presbiteriana de Algés, seguindo-se o Montijo, onde fixou residência. Exerceu igualmente funções pastorais em Lisboa, nomeadamente nas comunidades da Rua Febo Moniz e de Campo de Ourique. Na década de 1980, esteve na origem da implantação da Igreja Evangélica Presbiteriana em Setúbal.

 

Ecumenismo, compromisso com os direitos humanos

Pastor José Salvador a fazer um batismo

Pastor José Salvador a fazer um batismo. Foto: DR

Uma das dimensões mais significativas da atividade de José Salvador foi a participação no movimento ecuménico. Pastor de uma Igreja que esteve na origem do Conselho Português de Igrejas Cristãs (Copic) e mantém uma forte ligação ao Conselho Mundial de Igrejas (CMI), José Salvador entendeu o ecumenismo não apenas como aproximação entre confissões cristãs, mas também como uma responsabilidade comum perante os grandes desafios políticos e sociais do seu tempo..

Esse compromisso manifestou-se ainda durante a ditadura, numa época em que a Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal, pelas posições que assumia em matéria de liberdade e justiça, era alvo da vigilância da polícia política.

Um episódio particularmente significativo ocorreu em 1972, na sequência da repressão desencadeada pela Direção-Geral de Segurança (DGS) contra a Igreja Presbiteriana de Moçambique. Centenas de fiéis e dirigentes foram detidos e sujeitos a interrogatórios e maus-tratos. Entre eles encontrava-se o pastor Zedequias Manganhela, presidente daquela Igreja, que morreu na prisão a 11 de dezembro, em circunstâncias que as autoridades procuraram apresentar como suicídio.

José Salvador participou nas diligências desenvolvidas por responsáveis protestantes portugueses para obter esclarecimentos sobre a repressão. A 15 de dezembro de 1972, o bispo anglicano Daniel de Pina Cabral dirigiu uma carta a Marcello Caetano, solicitando esclarecimentos sobre a repressão. José Salvador integrou posteriormente uma delegação do Copic que se encontrou com o presidente do Conselho para abordar a situação dos dirigentes e membros da Igreja Presbiteriana de Moçambique.

O seu compromisso com os direitos humanos voltou a manifestar-se, anos mais tarde, na causa de Timor-Leste. Em 1982, integrou a organização não governamental A Paz É Possível em Timor Leste, dedicada, nomeadamente, à divulgação de informações e apelos provenientes das igrejas timorenses.

Na década de 1990, eleito para o Comité Executivo do Conselho Mundial de Igrejas, desempenhou um papel determinante na discussão da situação de Timor-Leste e na tomada de posição daquela organização ecuménica, apesar da oposição dos representantes indonésios. O seu envolvimento levou as autoridades da Indonésia a recusarem-lhe um visto para integrar uma delegação do CMI, considerando-o persona non grata.

Foi, por isso, particularmente significativo que, em 20 de maio de 2002, estivesse presente nas cerimónias de restauração da independência de Timor-Leste, como representante do Conselho Mundial de Igrejas.

 

Cidadania e solidariedade vivida

Pastor José Salvador

Pastor José Salvador: “Celebrou a chegada da democracia participando nas manifestações do primeiro Dia do Trabalhador em liberdade.” Foto: DR

A Revolução de Abril de 1974 representou para José Salvador um momento de esperança e de abertura de novas possibilidades para a sociedade portuguesa. Celebrou a chegada da democracia participando nas manifestações do primeiro Dia do Trabalhador em liberdade.

Mas o seu compromisso social vinha de trás. Desde a década de 1970, estava ligado à Liga Evangélica de Acção Missionária, em Lisboa, instituição que, entre outras atividades, acolhia estudantes provenientes das antigas colónias portuguesas. Assumiu posteriormente importantes responsabilidades na sua direção, mantendo durante mais de quatro décadas uma ligação a esse trabalho.

Nos anos da descolonização, participou também na mobilização de apoio às famílias chegadas dos territórios africanos. No Montijo, a comunidade presbiteriana desempenhou um papel relevante no acolhimento e na distribuição de alimentos e vestuário.

A mesma preocupação com os mais desfavorecidos esteve presente nas responsabilidades regionais e nacionais que assumiu na Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal. Participou em iniciativas de ação social, nomeadamente no apoio à saúde e à alimentação e na atribuição de bolsas de estudo, com a colaboração de igrejas protestantes europeias. A criação e o desenvolvimento da Fundação Robert Kalley, em Palmela, constituíram uma das expressões mais duradouras desse compromisso social.

A Fundação, cujo nome evoca Robert Kalley (1809-1888), médico e pastor escocês ligado às origens do protestantismo português, nasceu de um projeto destinado a proporcionar melhores condições de vida às pessoas idosas. Em 1989, o Sínodo da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal aprovou os seus estatutos, dando forma institucional a uma iniciativa em que José Salvador se empenhou ativamente.

Durante a presidência de José Salvador, que se prolongou até 2019, a Fundação desenvolveu diversas respostas sociais, desde a criação de um lar para idosos, na Quinta do Prado, até ao serviço de apoio domiciliário e ao projeto «Mesmo ao seu Lado – Espaço de Encontros».

José Salvador participou igualmente em estruturas representativas das instituições particulares de solidariedade social, contribuindo para o desenvolvimento da ação social na região.

Em 2018, a Câmara Municipal de Palmela atribuiu-lhe a Medalha Municipal de Mérito, grau de Ouro, em reconhecimento do seu contributo para a cidadania e a solidariedade.

Mesmo depois da aposentação, continuou a colaborar voluntariamente com a Igreja Presbiteriana e com a Fundação Robert Kalley, enquanto a saúde lho permitiu.

 

O combate da fé

Pastor José Salvador

“Ao sentir aproximar-se o fim, José Salvador encontrou nas palavras da Segunda Carta a Timóteo uma forma de exprimir o que vivia: «Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.»”  Foto: DR

Os últimos anos da sua vida foram marcados por problemas de saúde, intervenções cirúrgicas e limitações físicas progressivas. Para alguém habituado a uma atividade intensa, a tomar iniciativas e a assumir responsabilidades, confrontar-se com a própria fragilidade foi uma experiência particularmente exigente.

Ao sentir aproximar-se o fim, José Salvador encontrou nas palavras da Segunda Carta a Timóteo uma forma de exprimir o que vivia: «Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.»

Pastor José Salvador a receber a Medalha Municipal de Mérito, de Palmela

Pastor José Salvador a receber a Medalha Municipal de Mérito da cidade de Palmela. Foto: DR

Estas palavras constituem talvez uma síntese profundamente humana e espiritual do seu percurso: não a proclamação triunfal de uma vida sem dúvidas ou contradições, mas o testemunho de uma fé que se confrontou com as exigências da história, se exprimiu no compromisso com a justiça, a liberdade e a dignidade humana e encontrou, até ao fim, o seu fundamento na fidelidade de Deus.

José Salvador deixa uma marca duradoura na história do protestantismo português, no movimento ecuménico e nas instituições sociais a que dedicou grande parte da sua vida. O seu legado ultrapassa as responsabilidades que assumiu e as iniciativas que promoveu. Permanece nas comunidades que acompanhou, nas causas a que se dedicou e, sobretudo, na vida das pessoas que procurou servir e cuja dignidade sempre defendeu.

Uma vida em que a fé cristã procurou traduzir-se, concretamente, em liberdade, justiça e solidariedade.

 

Joel L. Pinto é pastor da Igreja Presbiteriana em Portugal e da Igreja Reformada Suíça em Neuchatel e animador do blogue Itinerários

 

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