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Eugénia Abrunhosa

As entrevistas de Anselmo Borges, uma motivação para a reflexão

As entrevistas de Anselmo Borges, uma motivação para a reflexão

by | 10 Fev 20 | Entre Margens, Últimas

Conheci o padre Anselmo Borges através das suas crónicas, nos anos 1980. Tendo sido católica desde a infância até ao fim da adolescência; denominando-me “ateia” ao longo da minha juventude, substituindo Deus pela “classe operária”; tornando-me, na minha idade adulta, agnóstica e depois  monja budista zen; regressando, aos 61 anos, ao cristianismo, é caso para concluir que percorri um círculo de vida, chegando, finalmente, ao ponto de partida. Lia as crónicas no jornal que estava sempre em cima de uma mesa na sala dos professores de uma escola secundária – na minha fase agnóstica – e achava-as surpreendentes. Com a lide profissional, doméstica e leituras, cinema, yoga, meditação, esquecia-o. Mas na semana seguinte, lá estava a ler a crónica de novo.

Vi-o, pela primeira vez, já então eu iniciava os meus “primeiros passos” para o cristianismo, a coordenar o colóquio “Deus ainda tem futuro?”, no anfiteatro do Seminário da Boa Nova, em Valadares (Gaia). A primeira coisa que estranhei é que o nosso homem apresentava o mesmo rosto que tinha na fotografia das crónicas, passados tantos anos. Baixo, magro, cabelos escuros, parecia um daqueles eternos adolescentes. De tal modo que perguntei, meia risonha, à senhora que vendia livros do colóquio anterior, também coordenado por ele, se ele pintava o cabelo. “Conhecendo este padre, acho que não.” Claro que a mim também me parecia o mesmo, mas eu necessitava de revelar a alguém o espanto por conhecer aquela pessoa, em corpo vivo, após tantos anos só como leitora.

Um dos oradores, José Arregi, falando sobre “O Deus de Jesus, mais além, para lá da sua imagem de Deus”, defendia ardentemente a sua tese que dividiu, no fim, a assembleia em partidários do seu ponto de vista, batendo calorosamente palmas – nos quais eu me incluía – enquanto outros pediam muitos esclarecimentos ou achavam escandaloso.

O padre Anselmo, impávido e sereno, orientava perguntas e respostas. Depois disso, escrevi-lhe uma carta, como dantes se fazia a alguém a quem se pedia namoro, descrevendo-lhe, não os seus encantos, mas o meu percurso espiritual. Não demorou nada que recebesse um telefonema que pedia que viesse ter com ele ao seminário. E assim iniciei uma amizade – distante, mas fiel – com o padre Anselmo. Ele é, na verdade um padre “entre doutores” – como escreve Jaime Gama, no prefácio do seu último livro, Conversas com Anselmo Borges – A vida, As Religiões, Deus – mas é mais do que isso.

Simples, generoso, franco: “Seja o vosso modo de falar: sim, sim; não, não.” (Mt5,37), pronto a ajudar nas questões de fé ou outras quaisquer; lidando a palavra como com um florete. Com um toque certeiro, com à vontade, com elegância. Para mim, é um apoio amigo, uma revelação e uma fonte onde vou beber a tal água “a jorrar para a vida eterna” (Jo.4, 14).

O livro referido constitui um conjunto de entrevistas seleccionadas pelo autor, entre 2007 e 2019, dividido em sete partes: Percurso Existencial; Religião/Religiões, o Sagrado e Deus; Festividades; Deus. Que Deus?; Os valores; Francisco e o Futuro da Igreja; A morte e o seu Além.

Percorrendo o índice, pode-se escolher um capítulo ou uma determinada entrevista. Retenho algumas ideias e frases do livro, que vieram ao meu encontro, como motivação para a reflexão ou meditação. “A fé não exclui a dúvida”, mas é também fidelidade, confiança na vida, nos outros, face ao mistério de Deus; “a Igreja lutou contra a modernidade.” Houve na formação de muitos padres “sexualidades distorcidas”. Alternativas: “celibato opcional”; “uma vida de acordo com a vida real”; “um escrutínio psicológico especializado.” “Numa sociedade sem eternidade, só ficam instantes que não fazem tecido e por isso se devoram uns aos outros.” “É o pensamento da morte que nos leva a distinguir em última análise, o que é justo e injusto; digno e indigno; o que vale verdadeiramente e o que não vale.”

Sobre o Papa Francisco: discernimento (para superar a crise) e misericórdia (para sarar as feridas). Francisco fez a ligação entre a Europa (os pais foram emigrantes a partir de Itália) e a América Latina. Estudou na Alemanha; foi porteiro de um bar para pagar os estudos; sendo bispo e cardeal, usava os transportes públicos e tratava da sua roupa. “Ele sabe da vida”… o que fez Jesus, antes de iniciar a sua missão? “Trabalhou no duro!”, também. Citando agora uma frase de Hans Küng, numa das últimas crónicas do padre Anselmo: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões.” É uma frase profética pois é o que se passa agora, no mundo. E Francisco sabe e tem feito tudo para isso.

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

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