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Em tempo de Covid-19

| 17/03/2020

Em tempo de Covid-19

by | 17 Mar 20

Hesitei no título que haveria de dar a este artigo; pensei na alternativa: “Afinal quem é o homem do século XXI?”

Poderia dizer: esse deslumbrado, contaminado pela pressa, controlador de tudo em nome da sua total autonomia, da liberdade que quer levar ao extremo, da autodestruição omnipotente, do ridículo sabor de querer ser Deus.

Provavelmente (não duvido) muitos destes homens têm boas intenções, mas andam embalados ou contagiados pela obrigação, a que se vinculam nos tempos modernos, de conseguirem o que julgam ser o melhor.

E esse melhor é o quê? O controlo de tudo. Do nascer; do impedir nascer; do deixar de existir, como se pudesse ficar a assistir de uma bancada às consequências da sua excessiva liberdade e, até, se se arrependesse, retroceder da ignorada inevitabilidade do ato cometido.

Ao mesmo tempo que os defensores desta desmesurada autodeterminação afirmam ter cuidados detalhados sobre as leis que querem ver aprovadas, noutras paragens em que este patamar já foi galgado (estou a falar da Holanda, por agora) já se debate o comprimido letal apenas e só por desejo, tendo como único requisito o facto de ser maior de 70 anos e achar que já fez tudo o que havia a fazer (forma suave de sintetizar este critério).

Em simultâneo alcançamos a era do transumanismo que pretende criar, com a ajuda da ciência e da tecnologia, super-humanos capazes de desafiar os limites que a natureza impõe, evoluídos até, talvez, à conquista da imortalidade.

O cientista americano Ray Kurzwell previu que, a partir de 2029, a inteligência artificial vá igualar a do homem e que, a partir de 2045, o homem deva estar ligado a uma inteligência artificial, o que lhe permitirá aumentar a sua capacidade intelectual um bilião de vezes.

Se dúvidas houvesse, alguns dos títulos dos livros deste autor são bastante esclarecedores. Em tradução caseira deixo dois exemplos: Quando os Humanos Transcendem a Biologia ou a A Idade das Máquinas Espirituais.

Não fosse o que estamos a afirmar um relato da realidade e muitos de nós, nos quais me incluo, pensaríamos estar a apresentar o guião de um filme de ficção científica de terror.

De facto, o ser humano não sabe parar e esse é um dos seus maiores problemas, já que não consegue identificar o limiar da autodestruição.

Entretanto, de repente, somos apanhados desprevenidos pela autorreguladora natureza. Será que se pode dizer assim?

Aparece o vírus da Covid-19. Não o conhecemos; expande-se descontroladamente, fruto da aldeia global em que o planeta se tornou; ameaça a vida, a civilização, a economia, os planos de todos. Enfim, em pouco tempo, o Homem passa a homenzinho em risco de vida.

Ainda assim, faz de tudo para reduzir a sua dissonância, nomeadamente através do uso do humor, que não se pode dizer que não é uma boa forma de exorcização do medo.

Não seria melhor aproveitarmos estas circunstâncias para começarmos a pensar com verdade, honestidade e humildade nas medidas que devemos tomar para, apenas, nos tornarmos mais e melhores humanos?

Não seria melhor respeitarmos a nossa vulnerabilidade e reconhecermos que não somos Deus?

Não seria melhor aprendermos que nada nos pertence a não ser o que de melhor fizermos por aqueles que, connosco, coabitam a nossa Terra?

Não seria melhor mobilizarmos a nossa solidariedade para fazermos, como diz S. João de Deus, o Bem bem feito?

Nesta fase procura-se o equilíbrio – saber certo para agir bem; consciencializar que, como tantas vezes digo, somos os outros dos outros; tomar corretas medidas para nos protegermos e para proteger; enfim, confiar e não deixar de viver, seguindo as orientações daqueles a quem cabe dá-las.

Entre questões e bons desejos, há um que temos todos, sem exceção, em comum – que rapidamente se encontrem tratamentos e vacinas para este desconhecido recém-chegado e que o medo não se torne, também ele, assustadoramente epidémico.

Ninguém de bom senso (e é perigoso falar neste também perigoso atributo, pois toda a gente acha que o tem) desejaria que uma circunstância destas fosse vivida pela humanidade. Contudo, perante os factos, devemos fazer o melhor uso disto. Se nada mais pudermos agilizar, que aprendamos a tratar de algumas qualidades em vias de extinção, sobretudo, a devolução ao ser humano, pelo ser humano, da sua verdadeira Humanidade e nada mais do que isso.

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

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