AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Sara Laísse

Performance, expressões, palavras: rituais do acto de contar

| 04/04/2021

Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
– Karingana ua Karingana! –
é que faz o poeta sentir-se gente
E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se transforma
a visão do que parece impossível
em sonho do que vai ser,
Karingana!”
José Craveirinha, Karingana ua Karingana
(Lisboa: Edições 70, 1982, p. 13).

José Craveirinha

José Craveirinha, Karingana ua Karingana (Ed. 70)

A minha avó contou-me que a literatura existe em todos os momentos da vida de um bantu. Eu explico. Embora sejam vastas e sempre inacabadas as discussões sobre o que é literatura, há sempre delimitações possíveis ou básicas, para referir o campo abrangido pelo objecto e compreender, de algum modo, a dimensão do seu alcance. A minha avó dizia que a literatura servia para educar a sociedade de modo lúdico e que a dimensão lúdica é a maneira mais pedagógica e mais delicada para ensinar. Por causa disso, esta modalidade artística fazia parte da arte de viver o quotidiano. Há nisto uma simpatia que gera empatia, o que obstrói as barreiras que muitas das vezes as hierarquias impõem.

O tipo de género da literatura de que a minha avó falava eram o da sua cultura, a de tradição oral: provérbios, anedotas, adivinhas, enigmas, mitos, lendas e narrativas. Estas últimas, na maior parte das vezes, eram compostas por canções. Todos esses géneros, assim como as suas componentes, serviam sobretudo para educar, mas também claramente divertiam.

Os modelos para educar variavam e havia um código simbólico destacado no acto de contar, num dos momentos altos para o fazer: à noite, à volta da fogueira ou não. Algumas chaves abriam e fechavam o momento de contar: uma performance, algumas expressões e algumas palavras.

A performance era simbólica, integrava um ritual. Os meus filhos, nascidos urbanos, não o conhecem. O que sabem é que, para os adormecer, a mãe dizia “era uma vez…”, abria um livro, lia-o e no final dizia “e acabou a história”. No meu tempo de criança, sentávamo-nos todos em linha semicircular, de pernas esticadas e todos virados para poder encarar a avó de frente e ela também de frente para nós. Ela passava a sua mão pelos nossos pezitos, contando-os um por um. Via quem estava e utilizava a expressão: mbalele mbalelê! E nós, de braços levantados para cima, respondíamos, hurrêe, uma das palavras! Na verdade, julgo que era um acto para verificar quem é que estava presente…Adelino Timóteo, no seu conto Tambarare, narra muito bem essa performance, também realizada na cultura ndau.

Depois disso, a vovó iniciava o acto de contar, mas antes pedia licença através de uma expressão mágica e já fixada pela tradição: karingana ua karingana e olhava para nós, que respondíamos: karingana, outra palavra! E aí a história começava a ser contada. A meio dela, a vovó voltava a olhar para nós e nós dizíamos karingana, para mostrar que estávamos atentos. No final da história, ela dizia: thú karingana, uma outra expressão. E com esta, era como quem dissesse “e acabou a história”. Entretanto, voltava ao ritual do início: mbalele mbalelê e voltava a contar os pezinhos dos meninos, como quem confirmasse se tinham todos ficado até ao fim…

É esse e outros momentos de narrar as nossas profecias que José Craveirinha nos sugere no seu poema karingana ua karingana. Eram palavras de momentos de inegável inspiração divina, nos quais a vovó ensinava-nos o que devia e não devia ser feito nas nossas vidas. Essa coisa sobre o que deve ou não ser feito e a ideia de que a literatura acompanha toda a vida do bantu, lembrou-me ainda que as cerimónias de casamento também são acompanhadas de canções. São cantadas com o intuito de animar o momento ou de fazer alguma troça, em jeito de brincadeira aos noivos, mas também para os educar. Neste educar há também a ideia de que, nas suas novas vidas, levassem as canções como lembrança da família.

As cantigas de escárnio e de maldizer são, na sua maioria, dirigidas ao noivo. Com mensagens do tipo: não conseguirá cuidar da casa, da sua família, aufere um salário baixo e não conseguirá manter o nível de vida da sua esposa, etc., etc. As cantigas dirigidas à noiva informam ou lembram o quão difícil é a vida conjugal e que será necessária muita paciência.

Essas canções têm lugar no momento de entrega de prendas aos noivos. Sim, são entregues durante a cerimónia do casamento e o acto é realizado por quem canta a dançar. Há nisto tudo uma performance, um ritual e uma palavra a dizer aos noivos. Tudo é feito à maneira simples das profecias! Karingana!

 

Sara Jona Laisse é professora de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica em Maputo e membro do Movimento Graal. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This