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Miguel Panão

Quem segue o padre TikTok segue Jesus?

| 07/06/2021

TIK TOK. Redes Sociais

“Dizer que um padre tem milhões de seguidores dá mais protagonismo ao padre do que a Jesus.”  Foto © Solen Feyissa / Unsplash

 

Serão as redes sociais a versão moderna de seguir o padre em vez de seguir Jesus? No Seu tempo, seguir Jesus era uma experiência literal. Para onde Jesus ia, as pessoas seguiam-no para O ouvir. Hoje, se Jesus estivesse presente nas redes sociais e tivesse biliões de seguidores dado o número de cristãos no mundo, teria o mesmo efeito na vida das pessoas? Mas se acreditamos que Ele ressuscitou, significa que Jesus está realmente presente entre nós, e a missão que nos confiou foi a de testemunharmos a Sua presença viva com a nossa vida. Será que o TikTok ajuda? Muitos padres pensam que sim.

No L’Osservatore Romano, Charles de Pechpeyrou escreve um artigo interessante sobre os padres que usam o TikTok para chegar aos seus paroquianos, sobretudo aos jovens, mas também às pessoas distantes da Igreja, curiosas, e que não têm uma cultura religiosa ou são praticantes em alguma tradição. A impressão de que o trabalho destes padres nessa aplicação é evangelizador depende das métricas definidas pelas redes sociais como o número de seguidores, “gostos” ou comentários. E responsáveis de algumas Conferências Episcopais estão atentos a este fenómeno para compreenderem o “público” que segue estes padres. Questiono a que ponto este serviço conduz as pessoas a Jesus ou as mantém ligadas ao padre. Se houvesse um problema com a aplicação, e deixasse de funcionar, será que estas pessoas se aproximariam de Jesus? Qual o grau de apego que estes padres têm ao TikTok? O que acontece aos seus seguidores quando vão à igreja mais próxima e não vêem um padre ou comunidade tão animados como os vídeos do TikTok?

Quando era jovem, lembro-me de fazermos diversas vezes a reflexão da razão de irmos à missa. Íamos pelo padre ou por Jesus? A resposta canónica era a de que íamos por Jesus, mas, no fundo, talvez até fosse o padre. Se gosto das meditações que um padre faz na sua homilia, é natural que goste de ir às suas celebrações. Se gosto das músicas que o grupo do canto usa para animar as eucaristias, é natural que prefira participar nas missas que esse grupo anima.

Quando estava mais envolvido nessas actividades de animação, lembro-me de introduzirmos um tambor, depois uma bateria e, com essa, baixo e guitarra eléctrica. O canto na missa tornou-se um espectáculo e muitos adultos criticavam isso, mas não se davam conta de que esse era o nosso modo de procurar Jesus dentro de nós. Por isso, quando agora vejo o impacte do TikTok no crescimento dos jovens na fé, ou até dos adultos, fico a pensar se este não é o modo como, hoje, as pessoas expressam a procura de Jesus. Mas será um relacionamento exclusivo?

A experiência de procurar Jesus numa missa usando instrumentos da modernidade pretendia intensificar a procura que fazíamos de Jesus usando o espaço da Igreja e o tempo da missa de forma exclusiva. É preciso um clima de comunidade e proximidade porque a experiência da presença de Jesus é tanto mais intensa quanto a vivência daquele «Onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18, 20). Por isso, através de um ecrã, é difícil que a experiência seja a mesma e exclusiva.

Dizer que um padre tem milhões de seguidores dá mais protagonismo ao padre do que a Jesus. Dizer que os seus vídeos têm milhões de “gostos” reflecte a sede imensa que as pessoas têm de gratificação instantânea, e temo o que isto poderá produzir no sacerdote em termos psicológicos, como tem sido estudado nos últimos anos. Isto é, quão dependente se torna a sua missão do número de “gostos”. Por isso, os comentários seriam o modo mais próximo de interagir com as pessoas; mas se alguém tiver centenas ou milhares de comentários por responder, desculpem, mas interagir com todas as pessoas, ou mesmo com uma parte apenas, em profundidade, parece-me pouco exequível sem retirar tempo às outras actividades, mantendo o sacerdote mais tempo grudado ao ecrã do que a atender as pessoas da sua comunidade.

Depois dos diversos escândalos que houve na Igreja, este entusiasmo pelos padres-estrelas do TikTok, YouTube e outras redes sociais, parece ser uma lufada de ar fresco no horizonte da Nova Evangelização. Mas questiono se a Igreja Cristã pretende anunciar um Deus de Massas ou o Deus da Proximidade. O caminho da proximidade é mais difícil, mas não foi esse o caminho que Jesus escolheu?

É verdade que Jesus alimentou os 5000 pelo milagre da partilha, e dirigia-se às multidões/massas, mas a profundidade da experiência de conversão estava no entrar em casa de Zaqueu, no toque com lama nos olhos do cego, no contacto pessoal com o leproso, ou num diálogo profundo com uma mulher junto a um poço. Muitos o seguiam para beber das Suas palavras, mas os gostos eram dados com a conversão de vida e os comentários não se faziam a Jesus, mas pelo anúncio da vida que Ele propunha aos outros.

Ao longo da Sua vida entre nós, Jesus criou redes relacionais, que vão muito para além do formato pseudo-pessoal das actuais redes sociais. E eu entendo o argumento de dar conteúdo às redes sociais por já sabermos como são um fenómeno viral, precisamente, por não ser preciso uma mensagem ter qualquer conteúdo desde que mantenha as massas entretidas. Mas temo pela influência que estas abordagens evangelizadoras virais possa estar a exercer à nossa criatividade para construirmos as redes relacionais. Redes que não olham para as massas à procura de seguidores e “gostos”, mas antes para o coração de cada pessoa de modo a lhes revelar a vida plena que podem experimentar quando reconhecerem a presença de Deus em si e entre nós.

 

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra; para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos.

 

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