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Conferências e debates em Lisboa

Sínodo já mexe e a ideia é inverter a pirâmide

| 03/11/2021

No Sínodo, “deve dar-se primazia à escuta do povo de Deus”. Foto © Antenna | Unsplash

 

A meta do Sínodo que a Igreja Católica está a viver até 2023 deve ser “conseguir que as pessoas se manifestem” e de iniciar um dinamismo de conversão que leve à inversão da “pirâmide”: “Deve dar-se primazia à escuta do povo de Deus”, diz o professor João Eleutério, que lecciona na Faculdade de Teologia da Universidade Católica, na área de Eclesiologia.

João Eleutério, que também é padre, partirá de uma pergunta: “Quando se diz ‘sinodalidade de que é que estamos a falar?” Esta será o mote para uma conferência e debate na próxima quinta-feira, 4 de Novembro, às 21h30. Para quem quiser aparecer, a iniciativa decorre na Igreja de Santa Isabel, em Lisboa (a organização é em conjunto com as paróquias vizinhas de São Mamede e Santo Condestável) mas também é possível acompanhar por via digital, através da plataforma Zoom.

De que falamos então? “De uma Igreja que tem em conta todos os seus membros e quer continuar a ser pertinente no anúncio do mistério pascal”, diz João Eleutério ao 7MARGENS, sobre o sentido que dá à palavra. “A Igreja não pode falar da sua missão sem ter em conta a sua identidade” nem vice-versa, explica. Por isso, sinodalidade significa também que “há mais passos a dar para além do que se faz” nos conselhos pastorais ou económicos – quando eles existem, pois há paróquias que ainda não os têm, apesar de isso ser obrigatório nas normas da Igreja.

Antecipando algumas das ideias que desenvolverá na quinta-feira, João Eleutério diz que esta é uma “redescoberta” feita no Concílio Vaticano II (1962-65), sobre as dinâmicas eclesiais do cristianismo do primeiro milénio, mas que foi mantida no cristianismo oriental – e em várias igrejas protestantes. “Nas tomadas de decisão, há que rever os modos como tomamos e assumimos decisões”, diz, referindo uma das ideias em que o Papa Francisco tem insistido.

Faz sentido, assim, distinguir esta dinâmica de uma escolha democrática em que “apenas” se fazem escolhas de sim ou não, de uma opção em relação a outra(s). Neste dinamismo, quando os crentes invocam Deus e o Espírito Santo, estão a tornar presentes essas realidades. “Trata-se de um processo de discernimento, de leitura dos sinais dos tempos, do que nos movimentos de Acção Católica se referia como o ver, julgar e agir”. Deve dar-se, por isso, uma “ênfase grande à escuta recíproca” e amadurecer-se o que significa “participar”.

A dinâmica sinodal tem como objectivo a “comunhão”, mas no sentido de “encontrar as estruturas adequadas a estes tempos”. Provavelmente “não privilegiará tanto os ministérios ordenados como únicos protagonistas de evangelização, mas as convergências e sinergias que se devem desenvolver no actual contexto, de modo a que toda a gente se sinta envolvida no anúncio do evangelho”, diz.

Este caminho inédito que o Papa Francisco iniciou – e que, concorda João Eleutério, manifesta a “grande prioridade” deste pontificado – vai beber à tradição oriental ortodoxa. “Trata-se de um dinamismo espiritual”, concretizando o que a teologia russa do século XIX referia como o esvaziamento de si para que o outro seja”.

“As igrejas orientais nunca perderam de vista a dimensão da escuta e relação”, diz o professor da Católica, que tem investigado também a espiritualidade e tradição ortodoxa. “Trata-se de dar a primazia ao que está na parte de baixo da pirâmide”, acrescenta, de modo a que, no final, se chegue “à conversão da Igreja, para que ela perceba melhor como anunciar”.

“Inventar a maneira de escutar”

Esta não será a única iniciativa que decorrerá durante os próximos dias, a propósito do caminho sinodal, organizada por comunidades locais ou grupos católicos. Também em Lisboa, mas na noite de sexta-feira, a Fundação Betânia promove um debate sobre os temas do Sínodo.

“A proposta do Papa Francisco encontrou eco na Fundação Betânia, que se dispõe a realizar esta caminhada em conjunto com os restantes crentes e não crentes, que se sentiram interpelados pelas palavras do Papa”, explica Eduarda Ribeiro, uma das responsáveis da fundação criada pela economista Manuela Silva, que morreu em Outubro de 2019.

“Para tanto, propomo-nos dinamizar grupos de reflexão para nos ouvirmos e para abrir os ouvidos ao mundo, em direcção a ‘uma Igreja missionária, de portas abertas às periferias’. A intenção é escutar e, sobretudo, inventar maneira para que o façamos”, acrescenta.

Este encontro decorre no Convento dos Dominicanos, em Lisboa (R. João de Freitas Branco, 12), a partir das 20h30 de sexta. Para mais informações, além da página da Fundação, os interessados devem enviar uma mensagem para sinodo2023@fundacao-betania.org.

Também o Metanoia – Movimento Católico de Profissionais promove na manhã de sábado (10h-14h), no Seminário de Almada, um debate sobre o Sínodo. Neste caso, é necessária inscrição prévia para o encontro (e para a refeição quem assim o entenda), através de um formulário digital, e os participantes devem estar vacinados contra a covid-19.

O Sínodo convocado pelo Papa terá uma primeira fase de auscultação local até 15 de Agosto do próximo ano, depois de o prazo ter sido alargado.

O processo conclui-se em Outubro de 2023 com uma assembleia de bispos, em Roma – e na qual, pela primeira vez, uma mulher, Nathalie Becquart, terá direito de voto, enquanto subsecretária do Sínodo.

 

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