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“Nós Viemos”: a emigração revisitada por José Vieira

| 05/08/2022

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 “Nós Viemos”, filme de José Vieira, é um exercício de memórias, uma maneira de contar as vivências daqueles que fogem dos seus países de origem em busca de uma vida melhor.

 

Toda a sua vida e preocupação enquanto cidadão e cineasta tem sido voltada para a emigração. Aos sete anos, sentiu na pele a miséria dos “bidonvilles” e, após tirar Sociologia, optou por  filmar o problema daqueles que partiram em busca de uma vida melhor. “Procuro contar a minha história pessoal e da família para lembrar o drama da emigração colectiva”, disse ao “Sete Margens” José Vieira, que nesta edição do MDOC trouxe “Nós Viemos” (2021). O filme foi bem recebido pela assistência e é um forte candidato ao prémio Jean-Loup Passek.

O autor de “Fotografia Rasgada” (2000) e a “A Ilha dos Ausentes” (2016) é um veterano destas andanças, já realizou 30 documentários, curtas, médias e longas e logo na primeira edição do MDOC, em 2014, o festival programou uma extensa retrospectiva do “cineasta-cronista da Imigração Portuguesa em França”, título feliz do ensaio publicado na altura pelo investigador José Silva Ribeiro, coordenador de Fora de Campo, sessões dedicadas à Antropologia Visual/Antropologia e Cinema. O último registo sobre a emigração faz não só um “flashback” com a sua memória, como também reporta acontecimentos recentes, de 2015, quando os comboios são literalmente invadidos por refugiados de várias geografias e nacionalidades: Síria, Afeganistão, Iraque, Eritreia.

“A memória pode ser um elemento para ajudar a compreender o que está a acontecer hoje. Toda a emigração existe à procura de futuro. O meu pai, quando partiu para França, em 1965, foi em busca de um futuro melhor para a família”, diz o cineasta para quem o cinema faz literalmente parte da sua vida: “Já não consigo parar de filmar, embora a minha vida passe pelo cinema, não se esgota nas imagens. Também estou associado a projectos de carácter comunitário, associações culturais, lutas pela igualdade de direitos cívicos e políticos”.

E assim é: enquanto recordou “Nous Sommes Venus”, José Vieira saltou para outro filme já concluído, “Território Ocupado”, um documentário sobre a ocupação dos baldios durante a Ditadura, neste caso, numa aldeia do concelho de Vouzela, habitada por gente maioritariamente idosa, com dificuldades económicas e que toda a vida sobreviveu com o “Pão que o Diabo Amassou”.

Voltemos ao tema inicial da conversa e ao filme, espécie de cruzamento de olhares sobre este fenómeno transversal a outros países e culturas: “A emigração portuguesa é idêntica à dos franceses e de outros povos. Já fiz documentários sobre os ciganos da Roménia, a emigração italiana e outras latitudes e os problemas são os mesmos. O que me interessa no meu trabalho são as pessoas e o relato das suas vidas, o que fizerem para chegar a França e a sua inserção no trabalho. Se as pessoas estiverem bem, não existem conflitos sociais, raciais, etc. As pessoas têm de ter futuro”, insistiu.

Quando pergunto sobre a sua experiência pessoal, o seu dia-a-dia como emigrante em França, a resposta é rápida: “Vivo num prédio com 260 apartamentos no centro de Paris [Belleville] habitado por africanos, árabes, chineses e toda a gente está integrada. É uma torre de babel de várias línguas e países. O Mundo está aqui e não existem conflitos, problemas de nenhuma espécie. E sabe porquê? Porque toda a gente tem trabalho e salários decentes”, afirmou.

Mas existem graves problemas em França, questões nunca resolvidas, racismo, xenofobia contra os emigrantes. José Vieira não foge à questão e, na sua opinião, a política está a ser capturada pela religião e sobretudo, pelas seitas religiosas que, numa cruzada há muito tempo encetada, procuram manipular consciências, aumentar a onda do populismo (não é por acaso que Marie Le Pen teve a votação que teve e ameaça Macron) e tudo fazem para semear o caos e o ódio. “Existem bairros onde os muçulmanos estão bem enraizados. Eu tenho amigos muçulmanos e têm uma vida normal. O problema é sempre social, igualdade no acesso ao trabalho, saúde, escola, habitação. O racismo existente contra os argelinos já vem do colonialismo e da ocupação da Argélia pela França. Não podemos esquecer que foram mortas um milhão de pessoas durante o conflito e as feridas nunca foram devidamente cicatrizadas. Macron anda a apelar a um exercício de memória e reconciliação, mas a questão social em França quanto aos emigrantes continua por resolver”.

Voltemos ao filme e aos problemas da emigração. “Nós Viemos” é um exercício de memórias, uma maneira de contar as vivências daqueles que fogem dos seus países de origem em busca de uma vida melhor? “Sim, a memória pode ser um elemento fundamental para se perceber o que está a acontecer hoje. Toda a emigração existe à procura de futuro. As pessoas têm de ser pessoas e não podem ser tratadas como escravos. A Europa precisa de novos trabalhadores, os hotéis e restaurantes não têm mão-de-obra qualificada para trabalhar. Há dias, vi nas notícias que pediam 4000 tunisinos para trabalhar em França. Só Merkel compreendeu a tempo o problema da emigração ao abrir as fronteiras da Alemanha. Não foi por acaso que acolheu cerca de um milhão de sírios”, concluiu.

O MDOC/Festival Internacional de Documentário de Melgaço decorre até ao próximo domingo, onde às 10 horas será exibido “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho, com conversa/debate de Jorge Campos ,e durante a tarde haverá a exibição de mais alguns filmes, a cerimónia de entrega dos prémios e pela noite (22 horas), na Torre do Castelo, cinema ao ar livre com a exibição de “Dispersos pelo Centro”, de António Aleixo. O MDOC decorre sob o signo da Identidade, Memória, Fronteira.

 

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