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Férias — a alegoria das formigas

| 06/08/2022

A beleza do que podemos fazer juntos. Aves. Praia. Pedra.

Dos 48 anos trabalhados (com sorte em regime comum) apenas três – três!! – são tempo de férias. Foto © António José Paulino

 

Hoje, e por estarmos no querido mês de Agosto, dou comigo a refletir sobre este lugar-comum da alegoria das formigas, que é o tempo de férias.

Por acaso até temos a sorte de viver num país cuja esperança média de vida ronda os 80 anos, o que não está nada mal; desses 80, somos forçosamente influenciados a trabalhar 48 para que possamos, pelo menos, comer migalhas nos últimos 10 ou 20; isto, claro está, se tivermos começado a trabalhar por volta dos 20. Matemáticas à parte, ou ainda não, porque me apetece lembrar que desses 48 anos trabalhados (com sorte em regime comum) apenas três – repito, três!! – são tempo de férias, descanso e lazer; quase sempre insuficiente para combater o estado exausto a que nos levam as temporadas laborais. 

Escusado será dizer que este raciocínio só se aplica a quem conseguir sobreviver a 65, ou mais, anos de planeta terra. 

* * * * * *

Não é necessária uma pesquisa muito intensa para nos darmos conta dos números anunciados nos rankings mundiais que relacionam os três factores mais gritantes da escravatura do sec. XXI: Ordenado – Carga horária – Produtividade.

Portugal continua a cair em esquemas laborais abusivos, ultrapassados e muito condenadores; que, esses sim, levam um país, um povo, uma comunidade à sua ruína.
Com uma teimosia que nos é muito característica – e tantas vezes benéfica – continuamos a não querer crescer na direcção da qualidade de vida.

Insistimos em modelos tirânicos e resistimos a mudanças práticas por mera preguiça ou cobardia.
Há infinitos relatos de gente que se apercebe deste facto nos últimos dias de vida… mas esses estão velhos, são aqueles a quem já ninguém ouve; e assim seguimos, asfixiados exatamente nas mesmas grades que os antecessores. 

Se caí em frases feitas, clichets e lugares-comuns, deixem-me dizer que era mesmo essa a intenção. 

E já agora… Boas férias!!

Ana Sofia Brito é performer e artista de rua por opção, embora também mantenha a arte de palco; frequentou o Chapitô e estudou teatro físico na Moveo, em Barcelona.

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