
Mural de Tributo a Óscar Romero, da autoria de Jamie Morgan (2001). Foto © Eric E. Castro / Wikimedia Commons
Eram duas da madrugada, quando o meu telefone tocou. Residia, então, na casa diocesana da Bela Vista, à Lapa, em Lisboa. Era uma chamada da Radiodifusão Portuguesa. A jornalista Maria Celina pedia-me que comentasse a morte de D. Óscar Romero, que tinha sido assassinado quando, ao fim da tarde, celebrava missa, no hospital da capital salvadorenha. Acordei com a Celina que iria, pessoalmente, à estação, já que a rua do Quelhas ficava muito perto da minha residência. Tomei a Bíblia e levei-a comigo. Página aberta em Isaías 61, 1: “O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção; enviou-me a levar a Boa Nova aos humildes; curar os corações doloridos; anunciar aos cativos a redenção e aos prisioneiros a liberdade”. (Curiosamente, Jesus Cristo repetiria esta evocação na sinagoga de Nazaré.)
Porventura a emoção pessoal pelo desaparecimento violento do arcebispo, executado pelo esquadrão da morte que, ao tempo, aterrorizava aquele pequeno país da América Central me tenha “puxado” pelo comentário. A verdade é que, por todo o dia, o comentário feito por mim percorreu quase todos os noticiários da antiga Emissora Nacional. Foi, naturalmente, pouco correcta, politicamente, a abordagem do facto, o que fez tocar as campainhas na direcção da estação. Na opinião do director de uma estação laica, o caso teria ultrapassado todos os limites. Resultado, e só à revelia de ordens superiores, pude voltar a fazer comentários unicamente por telefone. Corriam mal aqueles dias apenas cinco anos depois do 25 de Abril…
Suspeitas no Vaticano
Este incidente levou-me a ficar por perto do caso Romero desde 24 de Março de 1980, o dia da execução de um arcebispo até pouco tempo antes considerado conservador, convertido à urgência dos pobres que abundavam no seu país, nas mãos de governos, exterminadores do povo.
É curioso recordar que não foi pacífico o processo de canonização do arcebispo de São Salvador que, então, foi introduzido no Vaticano, na Congregação para a Causa dos Santos. Foi necessária grande tenacidade por parte do postulador da causa, a fim de se vencerem dúvidas que pairavam na Santa Sé e que tinham Karol Wojtyla no comando. (Porque é que João Paulo II não via com bons olhos quem, da hierarquia, tocasse as raias da política? Não tivesse ele contribuído, de modo heroico, para a queda fragosa da União Soviética marxista.)
Em 1997, dezassete anos depois da morte de Romero, o Vaticano declarava venerável o arcebispo assassinado.
Em 2015, chegaria a glorificação do mártir da Igreja Católica, no pontificado do Papa Francisco. Mais de 300 mil salvadorenhos assistiram à cerimónia, na capital do país, presididas pelo cardeal Amato. Romero tornava-se, assim, no primeiro salvadorenho elevado às honras dos altares, o primeiro arcebispo martirizado na América e o primeiro santo nativo, da América Central.









