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© ACNUR As condições de saúde no Sudão estão a deteriorar-se como resultado do conflito no país.

ONU e várias ONG alertam

Sudão: a “pior, mais complexa e mais cruel catástrofe humanitária que vemos hoje no mundo”

| 26/09/2023

© ACNUR As condições de saúde no Sudão estão a deteriorar-se como resultado do conflito no país.

Mais de 1.200 crianças, com menos de cinco anos, morreram em nove campos de deslocados no Sudão, no período entre 15 de maio e 14 de setembro. Foto © ACNUR.

 

Quanto custa a inação da comunidade internacional? O povo sudanês sabe exatamente qual é o preço. Em apenas cinco meses de conflito no seu país, já pagou com pelo menos cinco mil mortos, mais de 12 mil feridos, mais de sete milhões de deslocados e seis milhões em risco de morrer à fome, denunciou o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários e Coordenador de Ajuda de Emergência, Martin Griffiths, durante um encontro paralelo à Assembleia Geral das Nações Unidas, que terminou esta terça-feira em Nova Iorque.

“O que já estamos a testemunhar claramente no Sudão é uma crise humanitária de proporções épicas”, afirmou Griffiths. “Se não forem tomadas medidas internacionais urgentes, a crise ameaça deteriorar-se numa catástrofe que poderá engolir, e engolirá, todo o país e depois a região”.

Desde o início do conflito, em abril deste ano, quando eclodiram os combates entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido, o Sudão transformou-se num “campo de batalha”. Inúmeros hospitais e instituições de saúde foram bombardeados logo nas primeiras semanas, e o sistema de saúde, que já era frágil, entrou em colapso. Deixou de haver vacinação, não há água limpa e potável disponível, há falta de medicamentos, de oxigénio, de sangue, de alimentos, de eletricidade.

Atualmente, os poucos relatos que vão chegando do país revelam um cenário cada vez mais preocupante. “Mais de 27 povoações foram massacradas nas últimas semanas. Milhares de pessoas foram chacinadas: famílias assassinadas, corpos a apodrecer nas ruas, valas comuns visíveis em imagens de satélite. Agora também sabemos que crianças-soldado estão a ser usadas e abatidas”, avança a rede de mobilização global Avaaz.

Esta ONG descreve o que está a acontecer no Sudão como “genocídio” e alerta para o facto de a situação real ser ainda pior do que a veiculada dos meios de comunicação social. “Como os jornalistas são caçados ou impedidos de entrar no país, as notícias acerca destes massacres estão a ser suprimidas, e o mundo praticamente não reage”, refere a Avaaz.

 

Ajuda só chega a 18% da população

© OCHAPaolo Palmero O Subsecretário-Geral da ONU para Assuntos Humanitários e Coordenador de Ajuda de Emergência, Martin Griffiths

O subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Martin Griffiths, pediu medidas concretas e urgentes. Foto © OCHA/Paolo Palmero. 

 

Através de equipas presentes no terreno, a ONU tem conseguido prestar alguma assistência à população, mas não a necessária. “Atingimos 3,5 milhões de pessoas. Mas isto equivale a apenas 19 por cento dos 18 milhões de pessoas que precisam de assistência e proteção humanitária”, informou Martin Griffiths, lamentando os muitos obstáculos a ultrapassar para que esta ajuda se concretize.

“São necessárias entre duas e seis semanas para transportar abastecimentos do Porto Sudão para Darfur – uma distância de pouco menos de 2.500 quilómetros – e o tempo necessário deve-se às intensas negociações que são necessárias para garantir um certo nível de segurança e proteção”, referiu. Quanto à capital, Cartum, que é o local onde a assistência é mais necessária, é também aquele onde é mais difícil de a fazer chegar. “Apenas três comboios conseguiram passar desde o final de junho”, disse Griffiths.

Uma coisa é certa, diz o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários: o conflito está a intensificar-se e a expandir-se para mais áreas do Sudão, ameaçando também os países vizinhos, pelo que são necessárias medidas concretas e urgentes. Entre estas medidas, incluem-se continuar a batalhar pelo “acesso irrestrito às pessoas necessitadas”, “melhorar a concessão de vistos e de certificados de circulação” e mobilizar mais recursos financeiros para apoiar a população. “Neste momento, na operação dentro do Sudão, recebemos pouco mais de 30 por cento do financiamento necessário para este ano e já estamos no último trimestre do ano”, assinalou.

 

Mortes em combate, mas também por doenças como sarampo ou dengue

© MSF Médico da associação Médisos Sem Fronteiras trata criança numa clínica em Um Sangour, julho 2023

“As nossas equipas médicas veem pessoas a morrer devido a balas e bombas. Mas muitas pessoas também estão a perder as suas vidas devido a uma falta generalizada de acesso a cuidados médicos e a assistência humanitária”, alerta a MSF. Foto © MSF.

 

Neste mesmo encontro em Nova Iorque, o diretor de operações da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), Ahmed Abd-elrahman, fez questão de entregar uma declaração escrita sobre a “catastrófica crise de saúde no Sudão”, na qual também exigiu “mais ação”.

A organização, que está atualmente a trabalhar em dez estados do Sudão, em ambos os lados da linha da frente, garante que tem testemunhado “alguns dos conflitos urbanos mais intensos” de todos os contextos nos quais atua a nível internacional.

“Desde o início do conflito, as equipas de MSF realizaram mais de 1.500 intervenções cirúrgicas de grande porte num único hospital em Cartum, 90% das quais foram para tratar ferimentos de bala e explosão. Somente durante o mês de agosto, num único hospital apoiado pela MSF em Omdurman, as nossas equipas trataram mais de 2.100 casos de trauma, quase metade do total de consultas de emergência daquela unidade”, pode ler-se na declaração.

“As nossas equipas médicas veem pessoas a morrer devido a balas e bombas. Mas muitas pessoas também estão a perder as suas vidas devido a uma falta generalizada de acesso a cuidados médicos e a assistência humanitária”, alerta a MSF, falando num “aumento preocupante do número de pacientes que sofrem de sarampo, diarreia aquosa aguda, malária e desnutrição”. Mais de 1.200 crianças, com menos de cinco anos, morreram em nove campos de deslocados no período entre 15 de maio e 14 de setembro.

Já esta segunda-feira, 25 de setembro, o Sindicato dos Médicos do Sudão alertou para a “velocidade de propagação catastrófica da dengue”, uma doença transmitida por mosquitos que provoca febres altas e hemorragias, as quais podem ser fatais se não forem devidamente tratadas. A epidemia, que costuma assolar o país na estação das chuvas, este ano está assumir proporções muito maiores que o habitual.

Com as necessidades de ajuda a aumentar, a MSF diz estar “hoje a operar com menos pessoal no terreno do que antes do surto de conflito em abril”, devido à “insegurança generalizada” e também ao “labirinto vertiginoso e em constante mudança de procedimentos burocráticos e administrativos”. “É hoje inegável que estas restrições burocráticas estão a restringir uma resposta humanitária que precisa urgentemente de ser reforçada”, afirma a organização.

E, tal como a ONU, apela a medidas concretas: “Estamos confiantes de que as autoridades sudanesas podem fazer mais para apoiar a resposta humanitária e instamo-las a acelerar sistematicamente o processamento de vistos, aliviar as restrições de viagem e agilizar a autorização de fornecimentos médicos e humanitários”.

No fundo, tudo se resume ao que disse Martin Griffiths no final do seu discurso: “Tomemos a decisão de dizer ‘não desta vez’, ‘não sob a nossa vigilância’, à pior, mais complexa e mais cruel catástrofe humanitária que vemos hoje no mundo”. Porque o preço da inação já vai demasiado alto, e aumenta a cada dia que passa.

 

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