
Tita Kara coordena a luta contra a mineração em mar profundo no Fórum da Sociedade Civil do arquipélago de Tonga. Foto: António Marujo/7MARGENS
Católica e coordenadora de projecto do Fórum da Sociedade Civil (FSC) do arquipélago de Tonga, Tita Kara diz que “o catálogo de abusos, violências e negligências que os humanos têm provocado à Mãe-Terra reflecte a nossa ganância e desconsideração da criação de Deus”. Falando a propósito da COP28, que esta semana termina no Dubai, esta responsável diz que “precisamos de acção agora”. “Muito se tem falado ao longo dos anos. Não podemos dar-nos ao luxo de realizar outra conferência apenas para falar das mesmas questões que já conhecemos há décadas”, acrescenta, pois a Terra “está a aquecer”.
O FSC de Tonga reúne 38 organizações não-governamentais e 144 comunidades da sociedade civil. No Fórum, Tita Kara coordena a luta contra a mineração em mar profundo. Esse foi um dos temas da Oceânia Talanoa, iniciativa de grupos católicos daquela região do mundo, que decorreu em Lisboa em Junho de 2022, paralela à Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos.
Depois de ter participado nessa iniciativa, Tita Kara faz para o 7MARGENS um ponto de situação sobre a emergência climática, quando a COP28 se aproxima do fim – e precisamente quando os representantes da Oceânia Talanoa entregaram na COP28 um documento pedindo o fim dos combustíveis fósseis.
7MARGENS – Como olha para a situação de emergência climática no mundo e para os apelos de pessoas como o Papa Francisco?
TITA KARA – Na [encíclica] Laudato Si’, em 2015, o Papa Francisco disse que a nossa Irmã, a Mãe Terra, estava a gritar-nos por causa dos danos infligidos pelo nosso abuso irresponsável dos bens de que Deus a dotou. Os humanos passaram a ver-se a si próprios como senhores e mestres, com direito a saquear a Terra à sua vontade.
O catálogo de abusos, violências e negligências que os humanos têm provocado à Mãe-Terra reflecte a nossa ganância e desconsideração da criação de Deus. Os sintomas de doença nas nossas sociedades são evidentes nas infertilidades do solo, escassez de água, poluição do ar e aumento da frequência e força de eventos climáticos extremos. A Mãe Terra está tão sobrecarregada de desperdício e poluição, que está entre as mais abandonadas e maltratadas de todos os pobres e os seus gemidos estão a cair em ouvidos surdos. Não esqueçamos que somos pó e que os nossos corpos são compostos por elementos da Terra: o ar que respiramos, a água que bebemos e o solo que cultivamos.
7M – Esses ouvidos surdos de quem são?
Não temos líderes competentes e muitos estão obcecados em deixar um legado de ricos que ignoram que a sua liderança será julgada em termos de como o ambiente, as pessoas e os recursos naturais coexistem, prosperam e estão a ser utilizados de forma sustentável.
7M – A Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos [que decorreu em Lisboa em Junho de 2022] permitiu algum avanço?
A Conferência foi realmente importante e deveria ser realizada a cada dois, três anos para que os líderes pudessem ser constantemente lembrados e pressionados a tomar a decisão certa sobre os oceanos. Foi uma oportunidade para as pessoas de todo o mundo se encontrarem e discutirem sobre o Oceano.
Uma coisa que saiu alto e bom som foi o pedido da proibição total da mineração em mar profundo e o apelo para a execução de uma moratória de dez anos nessa mineração. Os jovens foram muito decididos, porque vão herdar este mundo e enquanto nós podemos apressar-nos a explorar e absorver toda a riqueza que podemos extrair da Terra, o herdeiro dos recursos mundiais, a nossa juventude, não se sente mais confortável com a forma como continuamos descaradamente a abusar da Mãe Terra.
7M – E agora, a poucos dias do final da COP28, quais são as suas expectativas?
Precisamos de acção agora. Muito se tem falado ao longo dos anos. Não podemos dar-nos ao luxo de realizar outra conferência apenas para falar das mesmas questões que já conhecemos há décadas. A Terra está a aquecer. Isso já foi provado, agora precisamos de saber o que fazer e como fazê-lo com apoio financeiro suficiente para garantir que alcançamos o que planeamos alcançar. Quanto mais tempo demorarmos, maiores serão os riscos e os custos para a nossa única casa.
Penso que há uma necessidade real de apoiar as comunidades vulneráveis através de perdas e danos, mas espero que seja mais acessível para não se tornar outro Fundo Global para o Clima, ao qual os mais vulneráveis quase não têm acesso devido ao processo e aos precedentes complicados. Temos de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, mas a alternativa deve ser a melhor opção com um impacto mínimo no ambiente e no oceano – os minerais podem desempenhar um papel na transição, mas não podem ser minerais das profundezas do mar –, pois o nosso maior sumidouro de carbono e regulador de temperatura pode ficar comprometido. A criação de resiliência é crucial, mas o maior gás com efeito de estufa deve ser responsabilizado; caso contrário, estaremos apenas a perseguir a nossa própria cauda.
7M – Tonga está no Pacífico e é um dos sítios do mundo ameaçados pelas alterações climáticas…
Sim, sim, todos estão a ser afectados. Há várias variáveis: a erosão costeira, a acidificação dos corais, a mineração de águas profundas, a subida do nível do mar… Todos estes aspetos estão relacionados com as alterações climáticas, há uma transversalidade [entre eles]: se o tempo piora, a agricultura sofre; se não há muito peixe no mar, é preciso produzir mais carne em terra; se não houver exportação, o custo de vida sobe. Toda a gente é afectada de uma forma ou de outra.

“Toda a gente é afectada de uma forma ou de outra” pelas alterações climáticas, assegura Tita Kara. Foto: António Marujo/7MARGENS
7M – Os cristãos deveriam envolver-se mais a nível político para influenciar decisões nas Nações Unidas, nos governos, nas empresas financeiras e nas multinacionais, na linha do que propõe o Papa na Laudato Si’?
Penso que sim. O penúltimo bispo de Tonga iniciou o movimento democrático em Tonga com um académico e um político. A sua filosofia era “se não falarmos nós, quem falará pelo povo?”. E acreditava que a política é para tomar decisões.
Tinha tudo a ver com a liberdade e o bem-estar do seu povo. Só podemos ter uma voz se nos juntarmos ao movimento de todos. Podemos rezar o que quisermos e salvar uma alma oca. Mas como é que o nosso povo saberia que nos importamos que isto seja algo importante, que precisa de ser integrado nas no tecido das nossas comunidades se não falarmos sobre isto?
A política só é má quando as pessoas a tornam má. Se fundamentarmos a política nos direitos humanos, na dignidade da humanidade, na capacidade de partilhar de forma igual e sustentável, não há nada de mau nisso. Os políticos têm o seu próprio estilo de vida e há corruptos, mas se nós entrarmos nesta mistura corrosiva, podemos ser os ingredientes que purificam…
7M – Em Tonga e na Oceânia, como sente o envolvimento dos católicos, do povo cristão nas questões políticas e climáticas, por exemplo?
O arcebispo das Fiji intervém sobre isto e isso é algo com que nos sentimos bastante confortáveis, vermos um líder da Igreja a fazer frente a este tipo de coisas e a defender que as nossas vozes não se diluam com tantas nações poderosas. Não faz sentido permanecermos isolados. Se nos erguermos juntos, a Austrália, a Nova Zelândia e a Oceânia, podemos ter uma voz e sermos ouvidos porque somos uma multidão.









