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Um dos rios a caminho do albergue de Mos, no Caminho de Santiago. Foto © Cláudio Louro

Do Minho a Compostela a pé

Diário de Caminho (2): Fazermo-nos água

| 06/03/2024

Um dos rios a caminho do albergue de Mos, no Caminho de Santiago. Foto © Cláudio Louro

“Como é desafiante (e provocador até) fazermo-nos água. Não quebrar a torrente que vem da fonte, com muros ou outros obstáculos. De contrário, a água não flui, estagnando ou enlameando. Aí perdemos o equilíbrio.” Foto © Cláudio Louro

 

O descanso foi reparador. Hoje, iniciei o dia com a motivação de me fazer ao caminho e às suas surpresas. Não sabia como o corpo iria reagir aos quilómetros. Tão-pouco a mente ou o espírito.

Entreguei a bagagem maior ao sr. Paulo, que faz o serviço de a transportar até ao ponto de chegada. A meta: albergue de Mos. Após um pequeno-almoço energizante no Ideas Peregrinas, segui caminho, vislumbrando a névoa da manhã a sobrevoar o rio Minho. As ruas estavam praticamente desertas e sentia-se uma atmosfera que respirava a um quê de poesia. Após visitar e entregar o dia na Catedral de Santa Maria de Tui, segui caminho.

Alguns medos e receios foram sobrevoando os meus pensamentos, a par das nuvens no céu. As casas e as ruas deram lugar a árvores e trilhos campais. Os vestígios de receio foram dando lugar a uma confiança na presença de Deus que me guia em cada passo. Não estou sozinho. E, conforme ia interiorizando essa verdade, o sol ia abrindo, e sentia em mim essa Presença de amor, força e confiança. Relembrou-me o quão o “dentro” e o “fora” são um mistério que se interliga.

Descansei junto a uma ponte sobre o rio. A água corria, veloz.. Falei com uma amiga, e a conversa desaguou na rigidez ainda tão presente na vida da Igreja e das comunidades, que não permite a sua diversidade, como é. Ao ir conversando com a minha amiga sobre estas questões, lá ia tentando fazer manobras entre poças de lama e os alguns riscos de perder o equilíbrio.. Levo isto para o caminho. O sonho de uma Igreja mais ao jeito de Deus, que seja torrente de água viva, esse rio que flui da Fonte de Amor, que É, sendo.

Ao longo do caminho cruzei-me com novos riachos, e o mesmo pensamento emergiu. Esta coisa de se ser livre (ou aprender a sê-lo) tem muito que se lhe diga. Como é desafiante (e provocador até) fazermo-nos água. Não quebrar a torrente que vem da fonte, com muros ou outros obstáculos. De contrário, a água não flui, estagnando ou enlameando. Aí perdemos o equilíbrio. Cheguei a Mos. Amanhã serei essa nova página, esboçando-a no sonho de ser mais rio.

Caminho de Santiago. Foto Cláudio Louro

Uma das muitas setas (e frases) que vão acompanhando os peregrinos ao longo do Caminho de Santiago. Foto © Cláudio Louro

 

Cláudio Louro é animador pastoral e professor de Educação Moral e Religiosa Católica; nas horas livres volta ao universo da música e do teatro musical com os amigos e considera-se atualmente em estado de caminho.

A primeira parte deste Diário pode ser lida aqui.

 

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