
Registo do diário à hora de almoço – o típico caldo dos humildes da região. Foto © Cláudio Lobo
Acordei. Este é o último albergue antes de chegar a Santiago. Recordei o dia de ontem e o desgaste que tenho sentido, com algumas coisas antigas a virem ao de cima. No diário escrevi esta breve oração: “Hoje peço-Te, Pai, que me ensines a arte do desprendimento, das mãos vazias. Ensina-me a ser pobre de espírito, a acolher tudo o que vem, mesmo o que é desagradável. Tudo faz parte do Caminho.”
Para mim, aceitar a “cruz” sempre foi sinónimo de peso (só de imaginar…). Mas hoje tive uma nova perspectiva… É que se não levarmos a cruz, ou seja, se recusarmos aceitar a nossa vulnerabilidade, o peso será bem maior. Então, levar a cruz pode fazer de nós pessoas livres, não fosse ela caminho para a Páscoa. Então… medo de quê? (Pensei eu)… É tudo Caminho de crescimento, mesmo as dores antigas.
Levantei-me. Despedi-me do simpatiquíssimo rapaz do hostel, que no fim do dia de ontem me ajudou bastante. Quando tomava o pequeno-almoço, estava a dar na TV espanhola o Got Talent. E eis que aparece alguém cujo talento é fazer arte com as suas sombras… Com tudo isto que andava cá por dentro, senti Deus a piscar-me o olho: sim, é possível fazermos arte com as nossas próprias sombras!
Comecei a caminhar. O sol despontou, iluminando uma paisagem cada vez mais campestre, por entre algumas aldeias de pedra escura. Ontem, ao chegar ao albergue, escutara uma peregrina espanhola a queixar-se das pessoas que apenas caminham, sem parar: «O Caminho é para parar e usufruir! Ver a beleza de uma flor!», dizia. Inspirado também pelas suas palavras, parei e descansei, observando o que me rodeava, principalmente o “pequeno”. Cheguei a um lugar onde confluíam dois riachos. Sentei-me debaixo das árvores e começou a chover! As reflexões do Passo a Rezar foram-me nutrindo. Um grande grupo de peregrinos passou por mim. Acho que foi a primeira vez que vi tantos peregrinos juntos.
Vários quilómetros depois cheguei à Igreja de Escravitude. Sentei-me para rezar, quando de repente sinto uma mão no meu ombro. Um peregrino veio ter comigo e quis dar-me força, com o seu olhar e o seu sorriso. Este é daqueles instantes que guardarei no tesouro do Caminho. O que a coragem de um gesto tão simples pode fazer… Lembrei-me de imediato da mensagem muito bonita que recebera de uma amiga.. Dizia: “No teu último percurso, quando o cansaço se apoderar de ti, irá com certeza aparecer um peregrino que te levará o meu abraço.”
Apercebi-me de que ia haver missa. A homilia foi muito interessante. O desafio, neste tempo de metanoia, é sermos terra, lama. Húmus, de onde deriva a palavra “humildade”. Estas palavras foram ecoando. Já ontem tinha lidado com a lama, mas é difícil tocá-la por dentro. Levei isso comigo, no desejo de me tornar mais húmus, sem tanto receio de tocar na fragilidade, ou melhor, nas “cinzas” que fazem parte de nós.
A tarde foi pontuada por momentos bem consoladores. O deitar-me na relva e ver o céu azul, ou o dançar e cantar à chuva (não resisti!). Sim, as oscilações dos estados do tempo eram constantes, a par da meteorologia interna.
Passei por um casebre de pedra e madeira. Parecia abandonado. Lembrou-me o nascimento de Jesus. Pus-me a pensar que tantas e tantas vezes dou por mim enredado em várias idealizações e expectativas (a expectativa da chegada, a idealização do caminho…) que perco esse contacto com o “húmus”. O Filho de Deus nasceu no lugar menos idílico e menos atractivo que poderia nascer. Há que fazer-me mais terra.
A chegada às portas de Santiago foi muito exigente. Parece que os quilómetros simplesmente não passavam. Exigiu, como uma amiga me dissera hoje, a superação do triplo desgaste que sentia: físico, psicológico e espiritual. Para conseguir atravessá-lo, ia cantando para o bom Pastor. Tentava olhar para esses momentos como as reais oportunidades para fortalecer e ginasticar a fé.
Depois de ter entrado noutra igreja e ter participado na missa, saí e já tinha caído a noite. Apercebi-me que já estava em Santiago pelo chão de pedra escura que entretanto apareceu. Senti-me como num filme: de cajado um pouco cambaleante e a atravessar a chuvosa rua que dava acesso à catedral. Ao vê-la, ainda longe, houve algo que mexeu cá por dentro. Um misto de algumas emoções difíceis de definir e gratidão por chegar, depois de toda esta aventura. Trilhei o caminho de pedra que conflui com os outros caminhos, oriundos dos vários pontos cardeais.
Ao chegar à famosa concha, no centro da Praça, olhei para a Catedral. Agradeci. Quis ver por onde poderia entrar, mas deparei-me com placas nas escadas a dizer “não passar”. Disseram-me que durante a missa do peregrino as portas fecham-se e só voltam a abrir mais tarde…
Confesso que isso me entristeceu. Lembrei-me novamente do mistério do nascimento de Cristo, em que, naquele momento de chegada a Belém, não havia lugar. Parece que este episódio me acompanhou, hoje, ajudando-me a ter as mãos mais desapegadas de expectativas. Contudo, sentia também que por mais visitas ou peregrinos que pudesse haver, é sempre bom chegar e as portas estarem abertas para nos sentirmos acolhidos (sobretudo, em dias de chuva como aqueles). Lembrei-me da conversa que tive dias atrás, em que me disseram que muitos peregrinos procuram ir até Finisterra para fechar o Caminho, de modo a sentirem-se acolhidos por esse abraço do oceano. Não fui até Finisterra, mas fui dentro, a esse templo sempre disponível, onde Deus habita em espírito e verdade.
Cheguei ao hostel The Last Stamp e quando ia preparar os registos do diário… deparei-me com o telemóvel a fraquejar, por causa da água que apanhara… Tentei que sobrevivesse mas… off. Fiquei sem ecrã. Pedira eu, ao início do dia, a arte do desprendimento… Eis a oportunidade.
Cláudio Louro é animador pastoral e professor de Educação Moral e Religiosa Católica; nas horas livres volta ao universo da música e do teatro musical com os amigos e considera-se atualmente em estado de caminho.
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