Nas últimas semanas, o 7MARGENS publicou um “Diário de Caminho” de Cláudio Louro, como peregrino de Santiago, e iniciámos a publicação do “Diário de um jejuador”, da autoria de Khalid Jamal, como propostas para a reflexão a propósito de tempos fortes para os cristãos (a Quaresma) e para os muçulmanos (o Ramadão) respectivamente. Ontem, 28 de Março, os cristãos celebraram a Quinta-Feira Santa, o início do Tríduo Pascal que culmina no Domingo de Páscoa.
Tendo em conta a centralidade e importância da Páscoa no calendário cristão (os ortodoxos celebram-na, este ano, apenas no início de Maio, uma vez que seguem o calendário juliano), o 7MARGENS pediu a colaboração de duas editoras, Editorial AO e Paulinas, no sentido de podermos publicar excertos de algumas obras que ajudem à reflexão para e sobre estes dias, sempre na relação com o tempo histórico que estamos a viver. Em resultado da escolha feita, aqui reproduziremos diariamente excertos de dois livros, até Domingo, agradecendo desde já a disponibilidade das editoras para esta iniciativa.

A capa de Carregou as Nossas Dores, de Timothy Radcliffe.
Deus a precisar de nós
Neste livro, em cada estação toma-se um dos passos da Via-Sacra, o ritual repetido a cada Sexta-Feira pelos católicos, reconstituindo o percurso e os episódios vividos por Jesus Cristo a caminho da sua crucificação e morte. Uma «estação» é um lugar de paragem e sugere a ideia de nos determos no caminho e nos interrogamos sobre se conseguiremos seguir em frente. Podemos ser detidos pela doença ou pelo fracasso, pelo desgosto ou pelo desespero. Mas esta é também uma forma de remeter para a esperança. Timothy Radcliffe, antigo superior geral dos dominicanos, foi também um dos convidados do Papa Francisco para propor as meditações que abriam cada fase da assembleia sinodal de Outubro. Autor de vários livros, alguns dos quais publicados em português, é uma das vozes de teólogos e autores de espiritualidade mais originais deste tempo.

Martin Erspamer, osb, monge da Arquiabadia de São Meinrad (EUA), Simão de Cirene a ajudar Jesus a carregar a cruz; ilustração incluída no livro.
Simão carrega a cruz de Jesus
«Quando o iam conduzindo, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e carregaram-no com a cruz, para a levar atrás de Jesus.» (Lc 23,26).
Ao que parece, Simão de Cirene estaria simplesmente a passar por ali, quando foi apanhado no meio do drama daquele homem que, com toda a probabilidade, ele nem sequer conhecia. Não teve alternativa. Todavia, Marcos deixa supor que ele se teria tornado discípulo. Certamente terá sido este encontro involuntário a mudar-lhe a vida. Pode ser humilhante precisar de outras pessoas, sobretudo de estranhos. Contudo, essa dependência faz parte do ser humano e é abraçada por Deus, em Jesus.
N’Ele vemos Deus a precisar de nós, a precisar de beber água extraída do poço pela Samaritana, a precisar que alguém o ajude a carregar a sua cruz. É humano precisar dos outros.
Ele foi pregado na cruz, firmemente pregado a todos os nossos fracassos, identificado com toda a gente que parece ser uma desilusão, o fi lho que desaponta os pais, o marido ou a mulher que se veio a descobrir terem pés de barro, o sacerdote infiel. Ele abraça todos aqueles que sentem que Deus os abandonou.
A sua forte graça está em todos aqueles que sentem as suas vidas a desmoronarem-se e que não há nada que possam fazer. Nele, nenhuma vida é um beco sem saída. Ninguém é, em última análise, uma vítima impotente. O nosso destino, afinal, está nas nossas mãos, visto que Ele as segura.
Disse o papa Bento [XVI]: «Preguemo-nos a Ele, resistindo à tentação de nos mantermos à distância, ou de nos juntarmos a outros, escarnecendo dele.» Os seus braços estão abertos na cruz, abertos a todos, mostrando-nos a altura e a profundidade, a largura e a amplitude do amor de Deus, que não conhece limites. Este momento mais sombrio, em que o Sol e a Lua não brilham, é uma revelação de glória.
Oração
Jesus,
possa eu aceitar
ajuda sem vergonha
sempre que dela precise,
e possa ficar ansioso
por oferecê-la
quando os outros
dela necessitem.
Que a nossa dependência
mútua seja uma fonte
de alegria
e uma ocasião de graça,
entretecendo-nos
na comunidade
do teu amor.
Ámen.
Carregou as Nossas Dores – Via-Sacra e meditações sobre a Paixão de Jesus, de Timothy Radcliffe
72 pág., Paulinas Editora










