Um carimbo e uma caneta salvaram milhares de vidas. O cônsul que desobedeceu a Salazar tem agora um museu que evoca o seu gesto que fez “luz na escuridão” e num tempo de terror. O Museu Aristides de Sousa Mendes foi inaugurado pelo Presidente da República, que o visitou acompanhado de duas crianças descendentes do diplomata.

Crianças com as bandeiras dos lugares onde Aristides trabalhou: “Sacrificou a vida para salvar muitas pessoas”. Foto ©️ António Marujo/7MARGENS
Matilde, 9 anos, tem na mão uma pequena bandeira de Zanzibar, território que no início do século XX era um protectorado britânico e que, em 1964, se uniu a Tanganica, dando origem à Tanzânia. Zanzibar foi um dos lugares por onde passou o cônsul português Aristides de Sousa Mendes no início da sua carreira. Mais tarde, em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, em Bordéus (França), o diplomata desobedeceu a uma ordem expressa de Salazar, concedendo vistos que permitiram a milhares de pessoas fugir do nazismo e refugiar-se em Portugal ou, daqui, partir para outros países.
Zanzibar, Brasil, Estados Unidos, Bélgica, França, Espanha e Portugal são as bandeiras que Matilde e as outras crianças seguram à espera do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. “São os sítios por onde ele passou”, explica, acerca das bandeiras. Alícia, ao lado, acrescenta que o cônsul “carimbou passaportes para ‘eles’ passarem para Espanha”. E que “sacrificou a vida para salvar muitas pessoas”.
São meia centena de crianças do Agrupamento de Escolas de Carregal do Sal que fazem férias desportivas. Dispõem-se numa espécie de guarda de honra, t-shirts amarelas vestidas, na pequena escadaria de acesso ao novo Museu Aristides de Sousa Mendes, em Cabanas de Viriato (Carregal do Sal), que o Presidente Marcelo inaugurou nesta sexta-feira, 19, depois de décadas de apelos, avanços, recuos, zangas, burocracias e outros esmorecimentos.
Daí a minutos, placa descerrada, música d’A Lista de Schindler tocada e ouvida, o Presidente toma outras duas crianças, João e Joana, ambos descendentes de Aristides de Sousa Mendes, para fazer com eles a primeira visita ao novo Museu. Mais de uma hora depois, na altura do discurso, perguntará por eles: “Onde está o João? Onde está a Joana?” Não se revelam, no meio daquelas largas centenas de pessoas, que incluem muitos descendentes de Aristides e Angelina ou dos refugiados salvos pelo carimbo do consulado português em Bordéus e pela caneta do cônsul.
“No momento em que o mundo se fez terror, uma caneta e um carimbo fizeram luz na escuridão”, tinha dito o presidente da Câmara de Carregal do Sal, Paulo Catalino, na cerimónia de boas-vindas.
“Vi e apontei aos dois o que era uma ditadura”, contará Marcelo acerca da sua visita com as crianças e fazendo ele próprio a tradução, para inglês, do que dizia. “Ficaram muito chocados a ver como era possível haver estas coisas no mundo”, acrescenta, para dizer que agora é importante que o testemunho daquele “herói único e singular” passe “a crianças como João e Joana”. Para isso, o novo museu é importante, diz, não só porque celebra e agradece o passado, “mas sobretudo” porque permite pensar em “construir o futuro”. Inclui mesmo duas salas, uma que fala sobre os refugiados hoje no mundo, outra que apresenta em desenho e uma linguagem gráfica diferente a história de uma família salva pelo cônsul.
“Suprema felicidade”

Carimbos do consulado e caneta usada por Aristides: com dois objectos se salvaram milhares de vidas. Foto ©️ António Marujo/7MARGENS
Os carimbos usados por Aristides no consulado de Bordéus e a caneta que lhe pertencia são alguns dos objectos expostos no Museu. O percurso leva o visitante a conhecer a família diplomata, com fotografias, um berço de criança e objectos pessoais. A carreira diplomática, a guerra na Europa e o episódio de Bordéus são as etapas seguintes, podendo ver-se, por exemplo, a fotografia de Aristides com o rabi Chaim Kruger, quando se reencontraram em 1941, um ano depois dos acontecimentos de Bordéus.
A evocação das histórias de algumas famílias salvas por Aristides, o processo de castigo imposto por Salazar e a posterior reabilitação já com o regime democrático completam o trajecto relativo à história do cônsul. É só depois que surgem os elementos relativos à actualidade dos refugiados no mundo, a evocação dos outros “justos entre as nações” portugueses – incluindo o padre Joaquim Carreira – e a sala dedicada às crianças.
O dia é mesmo de festa em Cabanas. A banda está alinhada, tal como o corpo de bombeiros, que trouxe consigo duas antigas viaturas de socorro, membros de várias associações da zona erguem os seus estandartes, vestes e fatos de cerimónia destacam-se como elemento visual, o calor aperta, há quem tenha ido buscar um enorme guarda-sol para abrigar um pequeno grupo, muitas pessoas procuram as sombras das árvores, como se fossem ilhas. Muitas conversas, muitos reencontros, muitos abraços. “Estou em Cabanas, vim ver a inauguração do Museu Aristides Sousa Mendes”, conta alguém que passa, ao telefone.
Além dos presidentes – da República e da Câmara –, a cerimónia conta com a presença da ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, do secretário de Estado das Comunidades, José Cesário, do líder e vários militantes do Partido Socialista, representando “a linhagem” que muito pressionou para que a cerimónia desta sexta-feira se realizasse, como afirmou o Presidente referindo-se ao papel de personalidades como Mário Soares, Jaime Gama ou Maria Barroso.
Está também presente o bispo de Viseu, António Luciano, sabendo-se que Aristides “era um homem de fé e foi a fé que lhe permitiu a coragem necessária para fazer o que fez”, dirá Catalino. Joacine Katar Moreira, que enquanto deputada propôs a homenagem a Aristides no Panteão Nacional, esteve igualmente presente, bem como os embaixadores da Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Israel e Luxemburgo e autarcas da Bélgica, Luxemburgo e França, representantes da Rede de Judiarias e da Agência para a Integração, Migrações e Asilo. O secretário-geral da ONU, António Guterres, que chegou a ter prevista a sua presença, enviou uma mensagem vídeo, o Papa Francisco dirigiu uma por escrito.
O autarca de Carregal do Sal diz que a inauguração do museu é um momento de “suprema felicidade” pelo qual a família de Aristides e dos refugiados salvos “tanto ansiavam”. O dia escolhido era o da data do nascimento de Aristides, em 1885 (o irmão gémeo, César, nascera quatro horas antes, festejava o aniversário no dia 18). Este era “o justo momento da reposição da dignidade” e da celebração “do arrojo de um homem”, depois de décadas em que Portugal quase o esquecia – primeiro, porque a ditadura e Salazar tudo fizeram para isso, depois porque foi um processo muito lento despertar da letargia.
“Quem faria igual?”

Luís Fidalgo, ao centro, com Silvério (esqª) e Gerald Sousa Mendes: “Se as paredes falassem, contariam a história de uma família feliz, alegre e depois triste, destruída, pulverizada”. Foto ©️ António Marujo/7MARGENS
Aristides, disse ainda Paulo Catalino, é “um dos mais belos exemplos de altruísmo e humanismo de todo o século XX”. “Quantos de nós estaríamos dispostos a pôr em causa as carreiras profissionais” e a própria sobrevivência da família, perguntou, sabendo-se que foi isso que aconteceu com o cônsul, depois do seu gesto em Bordéus: Salazar mandou abrir um processo contra o diplomata e destituiu-o das suas funções, deixando-o sem quaisquer meios de subsistência. Aristides refugiou-se com a mulher e os 14 filhos na Casa do Passal, em Cabanas, à espera do perdão que nunca haveria de chegar no final da Segunda Guerra Mundial, e a viver de ajudas do irmão e das pessoas da terra.
O museu é apenas um primeiro passo, promete o autarca. Haverá um centro de acolhimento de refugiados na Casa do Aido, o lugar ao lado, bem como uma “ciclovia temática” dedicada a Aristides. A ministra da Cultura quer que este “homem singular” seja agora objecto de estudos sobre a sua história e as histórias das vidas que ele salvou, com projectos de investigação e bolsas.
Não foi fácil chegar aqui: no ecrã tinham passado, momentos antes, imagens da casa no seu início (primeiro só um piso térreo), depois habitada pela família, finalmente num avançado estado de degradação, depois de ter sido vendida por duas vezes.
“Se as paredes falassem, contariam a história de uma família feliz, alegre e depois triste, destruída, pulverizada”, diz ao 7MARGENS o advogado Luís Fidalgo, que foi presidente da Fundação Aristides de Sousa Mendes e hoje faz parte do seu conselho geral. Nascido em Cabanas em 1958, Fidalgo é também presidente de uma instituição de solidariedade, que acolhe 66 crianças dos três meses aos três anos.
Uma experiência que não tem nada a ver com a da sua infância, quando a Casa do Passal já tinha sido vendida uma primeira vez e um caseiro tomava conta dela e do terreno em redor para os novos donos. “A nossa creche era na rua”, ironiza. Uma coisa sabe Luís Fidalgo: os filhos de Aristides iam à escola da aldeia, ao contrário das crianças de outras famílias importantes.
Da casa-fantasma ao museu

António Moncada Sousa Mendes: Salazar só pensava “no castigo”. Foto ©️ António Marujo/7MARGENS
“Era uma casa fantasmagórica, mas nós saltávamos as grades e vínhamos brincar aqui para os jardins”. Fidalgo recorda-se ainda de ver uma montanha de livros no meio da sala que tinha sido uma biblioteca. O novo proprietário vendera os móveis, ficaram os livros. Menos mal: não foram destruídos e ainda houve quem lá fosse buscar alguns. Pelo menos, alguém aproveitou.
Desde 2000 que Luís Fidalgo se envolveu na Fundação, mas já muito antes se empenhara em conseguir dar outra vida à Casa do Passal. Chegou a criar uma comissão, com outros amigos, para homenagear Sousa Mendes, foi falar com Mário Soares, então Presidente da República, mobilizou apoios. O antigo congressista dos Estados Unidos, Tony Coelho, que no seu país já multiplicara os esforços para reabilitar a memória do cônsul português, esteve também em Portugal e conversou com Soares.
O Yad Vashem, de Jerusalém, já concedera ao cônsul português o título de “Justo entre as nações”, em 1966. Vinte anos depois, o Presidente Mário Soares atribuiu-lhe a Ordem da Liberdade a título póstumo, reabilitando assim a sua memória e fazendo um pedido de desculpas público.
Na Fundação, Fidalgo trabalhou com os dois anteriores presidentes, Álvaro Sousa Mendes e José Leitão. As sucessivas lideranças, juntamente com autarcas e muitas outras pessoas, foram conseguindo apaziguar diferentes ideias e zangas que havia, naturais numa família enorme e espalhada por diferentes países – e onde não faltava uma décima irmã, filha de Andrée Cibial, com quem Aristides tivera uma relação em Bordéus.
Desde 2017 o processo de ruína inverteu-se. A Casa do Passal foi declarada monumento nacional em 2011, possibilitando a sua requalificação estrutural, primeiro, depois o restauro do interior e, finalmente, a musealização, com um projecto de Cláudia Ninhos, Gabriella Casella e Susana Rosmaninho (também responsável pelo projecto de arquitectura, com Pedro Azevedo).
Na sessão solene, as mensagens repetem-se. António Moncada Sousa Mendes, um dos netos que mais se tem destacado na preservação da memória do avô, recordou que Salazar só pensava “no castigo” e em “deixar consumir o cônsul desobediente no esquecimento e numa morte lenta”. Referiu igualmente que dois dos seus tios se juntaram às tropas de Eisenhower no desembarque da Normandia, em Junho de 1944. “Aristides deixou-nos a mais bela das heranças, muito mais do que bens materiais”, disse.
Bastião de coragem num mundo em colapso

Marcelo com crianças descendentes de Aristides: “Vi e apontei aos dois o que era uma ditadura. Ficaram muito chocados…” Foto ©️ António Marujo/7MARGENS
Gerald Sousa Mendes, filho de Luís Filipe e a viver em França, referiu-se à “casa de felicidade” onde havia “choros, risos, danças e também oração na capela do segundo andar”, mas que foi também um “símbolo do castigo” e que agora ganha uma “nova vida”. Silvério Sousa Mendes, outro dos netos, destacou a importância da avó, disse que a gratidão “é uma palavra bela de se viver” e que esta homenagem era devida a alguém que desafiou a ideologia fascista e que “preferiu estar com Deus contra os homens, do que com os homens contra Deus”.
António Guterres mencionou o “bastião de coragem, compaixão e convicção” que o gesto do cônsul constituiu, “num mundo em colapso total: ele ou obedecia ao seu Governo ou salvava vidas – escolheu salvar vidas”. Por comparação, o mundo é hoje um lugar “perigoso e está dividido” pelo “ódio e intolerância, anti-semitismo, anti-islão, perseguição aos cristãos” e por isso é urgente o “compromisso de defender os direitos humanos e combater o ódio e a intolerância”.
O texto do Papa Francisco falava de um homem “perito em humanidade, justo entre as nações”, recordando a instituição do Dia da Consciência precisamente para assinalar o gesto do cônsul de Bordéus, que permitiu salvar “milhares de judeus e de outras pessoas perseguidas”. Nos dias de hoje, acrescentou, “são testemunhos de fraternidade como o deste diplomata português que nos encorajam e não nos deixam perder a esperança”. E acrescentou: “Na verdade, também diante de nós se continuam a abrir sendas de resgate e caminhos de salvação. Queira Deus que não nos falte a coragem de os percorrer, sobretudo se se revelarem insuficientes as vias de encontro e os trilhos de diálogo.”
Marcelo Rebelo de Sousa acabou a sua intervenção dizendo que é preciso “construir a paz em vez da guerra, respeitar a dignidade, conviver com todos, ser tolerante, praticar o diálogo, combater o racismo, a intolerância, a xenofobia e o ódio”. E acabando a dar vivas a Aristides de Sousa Mendes, à sua mensagem universal, à tolerância, à paz e a um mundo melhor.










