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A chaga da corrupção: no reino da “cunha”

| 08/11/2024

 

Um recente inquérito, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, concluiu que a “cunha” no nosso país alastra por todo lado. Nove em cada dez pessoas, chegam a considerar que a corrupção é um problema grave na nossa sociedade. Porém conclui o mesmo estudo, é bastante tolerada pela maioria das pessoas inquiridas neste recente trabalho. Quer dizer que, a maior parte da população em princípio não concorda com ela, mas na prática recorre-se a ela sempre que dela se necessite. Sempre se encontra alguém bem colocado no cimo da pirâmide, para acolher e dar resposta à nossa necessidade. Sobretudo para se arranjar um emprego ou ganhar qualquer concurso. Muitas vezes entra-se no suborno com verbas movimentadas por debaixo da mesa. Por ser muito vulgar, este comportamento é tolerado na nossa sociedade na qual sem a cunha na hora e na pessoa certa, não seria possível obter-se vantagem para ocupar determinado lugar e assim poder singrar na vida. Segundo o precioso estudo referido, será nos clubes de futebol, nos partidos políticos, nos governos, nas autarquias, na administração pública, na Justiça, no Parlamento que se encontram as entidades mais expostas à chaga da corrupção. Todas as entidades referidas públicas ou privadas têm os seus telhados de vidro. Quase ninguém fica de fora embora com casos mais ou menos graves.

Muitos cidadãos não têm pejo em poder obter benefícios pessoais, à custa da justiça e do bem comum. Até por vezes à custa de outros cidadãos que ficam fora da corrida embora com mais qualificações. O que é necessário segundo alguns é encontrar o lugar certo, não importa como, até à custa de graves injustiças contra terceiros. Todos sabemos por experiência quotidiana, que poder e corrupção vivem de mãos dadas na nossa sociedade. Até as pessoas ditas honestas se podem deixar corromper, quando algum poder relevante lhe cai nas mãos.

Comparado o nosso país com a média da União Europeia, a corrupção segundo a percepção dos inquiridos no referido trabalho, encontra-se com valores significativamente mais altos. A razão poderá ser devido ao facto dos cidadãos lusos viverem esta realidade no seu dia – a – dia. Neste contexto, podemos também percepcionar e entender que os partidos políticos não sejam suficientemente sancionados eleitoralmente, após um escândalo de corrupção que os tenha envolvido. A integridade pelos vistos, não é o valor mais significativo para a determinação de se votar num determinado partido ou candidato. A cor política na realidade, parece ter maior peso do que a capacidade de um líder não ser corrupto. Há casos de políticos considerados corruptos a serem repetidamente escolhidos para exercerem cargos importantes.

Uma boa parte da opinião pública considera que a política, geralmente atrai pessoas que procuram obter benefícios particulares à custa do bem comum. Até há quem pense que as pessoas honestas se deixam corromper quando ocupam um lugar de poder. Ou seja, acredita-se que alguns políticos, com o tempo “acabam por se adaptar a adoptar esses comportamentos para sobreviver ou prosperar dentro do sistema.”.

No mesmo estudo, se concluiu ainda que em média, os três tipos de regime político – democracia, tecnocracia e autocracia – “estão de forma semelhante e medianamente vulneráveis à corrupção”. Na realidade, como constatamos na nossa sociedade, a cunha é bastante tolerada porque é tida como uma norma social.

Uma das explicações para o número de corruptos, associados ao cidadão comum, reside na convicção de que nenhuma esfera de actividade é totalmente impermeável à corrupção, mas ainda também à sua tolerância. A cunha é bastante tolerada porque é tida como uma norma social. Um problema que envolve a maior parte da sociedade. Embora exista uma forte condenação social do fenómeno, há tolerância a determinados tipos de corrupção, sobretudo política, com portas giratórias bem oleadas.

Embora tenha havido reforço da prevenção e combate à corrupção, a percepção social é que teimosamente vai prevalecendo na nossa sociedade. Por isso, lesa a confiança nas instituições políticas e na democracia.

Será que apesar dos diversos pacotes anti-corrupção que foram sendo publicados pelos diversos governos, a cunha veio para ficar?

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com

 

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