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Porto: Encontro de Leitores

A ingenuidade na esperança

 

O texto que a seguir se reproduz corresponde à intervenção feita por Manuel Hipólito Almeida dos Santos no Encontro de Leitores do Porto, o qual teve lugar no dia quatro de outubro último e que, à semelhança de Lisboa, teve como ponto de partida um texto da realizadora Graça Castanheira sobre a esperança.

 

O 7MARGENS publicou um excelente artigo, em 15 de setembro de 2025, com o título: “Encontro de Leitores do 7MARGENS: debater a esperança para contrariar o imobilismo“. No artigo é referido que a cineasta Graça Castanheira questiona o facto de alguém que “alimenta uma esperança terrena não concretizada” ser visto muitas vezes como imprudente e sem sucesso, recorrendo a Søren Kierkegaard para sugerir que “ter esperança é comportarmo-nos como se aquilo que desejamos que aconteça tivesse uma boa hipótese de acontecer – com a esperança alarga-se o passo e somos ousados”. O artigo seria “uma forma de iluminar a reflexão sobre estes tempos sombrios que vivemos, atravessados por guerras, emergência climática, crescimentos da xenofobia e ódio à diferença, bem como pelo crescimento do desrespeito dos direitos humanos” e “não pretendemos, desse modo, convidar à despreocupação ingénua mas, antes, assumir o enorme desafio à capacidade de habitar naquilo em que se acredita e defender a possibilidade de construir uma realidade diferente para melhor ”, propondo “uma reflexão e um debate sobre a esperança”.

Neste outubro de 2025 importa saber se temos esperança “ingénua” de que aquilo que desejamos que aconteça tem uma boa hipótese de acontecer.

  • É ingénuo acreditar que vamos acabar com os sem abrigo e os sem habitação digna?
  • É ingénuo acreditar que todos os gravemente doentes vão ser atendidos, a tempo, nos Serviços de Urgência?
  • É ingénuo esperar a recuperação para os mais de 24% dos portugueses com problemas do foro mental?
  • É ingénuo esperar que muitos das cerca de 80 000 crianças e jovens em acompanhamento nas CPCJs não se transformem em delinquentes?
  • É ingénuo acreditar que vai ser reduzida a pobreza e as desigualdades sociais?
  • É ingénuo acreditar que o crescimento da repressão, dos conflitos, do ódio, da xenofobia, do genocídio (ex: Gaza), vai dar lugar ao perdão, à misericórdia, à clemência, à liberdade, à igualdade, à fraternidade e ao respeito pelos direitos humanos?
  • E poderia continuar com mais perguntas ingénuas.

Sim, é ingénuo acreditar que, num futuro próximo, se vai parar e reverter a regressão civilizacional em curso.

Permitam-me recorrer a uma passagem do sermão de Santo António aos Peixes: “Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos.

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Encontro de leitores do 7MARGENS 4 Outubro 2025, Porto – Espaço Porta. Foto © Eduardo Jorge Madureira/7MARGENS

Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comessem os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas, como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pra vis, prreversisque cupiditatibus facti sunt veluti pisces invicem se devorantes: Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros.”

O que estamos a assistir é os maiores estarem a comer os mais pequenos. São as classes alta e média a exultarem com a redução do IRC e IRS à custa da míngua de recursos para acudir aos mais pobres e necessitados, que ganham tão pouco que nem pagam IRS. E vemos as bolsas de valores a baterem recordes para delírio dos investidores, os programas de férias com lotações esgotadas, o elevado número de automóveis de gama média e alta, o acréscimo de turistas e de clientes nos restaurantes, a reclamação de maiores salários para profissionais qualificados e classe política, e altos prémios monetários para os gestores das empresas. À custa de quem? Dos mais pequenos que sufocam à volta da salário mínimo nacional, ou menos (No Instituto de Segurança Social mais de 50% das pensões de reforma são inferiores ao SMN e mais de 50% dos salários registados são inferiores a 1.000 euros mensais). Será que as classes média e alta podem viver sem os mais pequenos que lhes limpam as casas e os escritórios, que os servem nos restaurantes e supermercados, que limpam as mesas e o chão dos centros comerciais que frequentam, que fazem a recolha do seu lixo, que pescam o peixe que comem, que trabalham os campos para lhes produzir os alimentos, que distribuem as cartas nos seus domicílios, que lhes levam as refeições a casa nas plataformas Uber, Bolt e Globo? Será que as classes média e alta leram o sermão de Santo António aos Peixes? Parem de reclamar mais benesses e olhem para baixo como exorta S. António!

Leitores, 7Margens, Porto

Encontro de Leitores do 7Margens no Porto, 12 Outº 2024, no Espaço da Porta, dos Padres Redentoristas. Foto © Ana Ponto Vasquez

E, ainda, a propósito: Na Assembleia da República foi rejeitada uma petição de amnistia/perdão de penas que aproximasse Portugal da média da União Europeia no cumprimento de penas, não respeitando o pedido do Papa Francisco constante do ponto 10 da Bula para o Jubileu 2025. Sobre esta questão o 7Margens noticiou a decisão da AR com o título “No Parlamento, venceu a ignorância e o populismo.” A discussão da petição teve lugar em 3 de Julho de 2025 e mereceu aceitação dos parlamentares dos partidos políticos PS, Livre, CDU, BE e PAN, tendo tido a rejeição dos partidos políticos PSD, Chega, IL e CDS/PP, pelo que a petição não teve sequência legislativa aprovada. Deste resultado, extrai-se a conclusão de que forças políticas que se reclamam com vínculos ao catolicismo rejeitaram a concretização prática da clemência, perdão e misericórdia (pilares da Doutrina Social da Igreja Católica), agindo em sentido contrário ao apelo do Papa Francisco constante do ponto 10 da Bula para o Jubileu 2025. E o que disse a Conferência Episcopal Portuguesa sobre isto?

Tristes sinais dos tempos que vivemos!

 

Manuel Hipólito Almeida dos Santos foi presidente da Amnistia Internacional Portugal.

 

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