AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Pormenor da capa do livro "Ernestina" de J. Rentes de Carvalho

[Dicionário particular II]

‘j’ de josé, José Rentes de Carvalho, filho da Ernestina

| 29/10/2025

 

O silêncio tem nome, chama-se Ernestina. Viveu em Trás-os-Montes, mas podia ter vivido em qualquer aldeia onde o tempo se arrasta como uma mula velha e os homens falam pouco, mas mandam muito. Ernestina não é só a mãe de José Rentes de Carvalho, é a mãe do silêncio português. Aquele que se instala nas cozinhas, nas camas, nos olhos, aquele que não grita, mas que pode matar.

Ernestina não é heroína, é sobrevivente, e isso, à época, neste país, já é quase um milagre. Ela é metáfora da mulher que não teve tempo para ser mulher, da mãe que não pôde ser filha e da vida que não chegou a ser vivida. E o mais absurdo é que há milhares de Ernestinas por aí. Algumas ainda vivas, outras enterradas em silêncio, como se nunca tivessem existido.

J. Rentes de Carvalho. Ernestina

No seu livro, o autor não escreve uma biografia, escreve um exorcismo. Ernestina é a mulher que não teve direito a personagem, nem a enredo. Teve uma vida de espera, de ausência, de dor sem nome. E o silêncio, essa espécie de animal viscoso, foi-lhe fazendo companhia: sentava-se à mesa, dormia ao seu lado, entrava-lhe pelas paredes. Um silêncio que não consola, mas que sufoca.

Mas há algo de profundamente poético nesta dor. Uma beleza áspera, como pedra molhada. Porque o silêncio, quando bem escutado, revela mais do que mil discursos. E este livro escuta, escuta o que nunca foi dito. Escuta o que foi calado por vergonha, por hábito ou por medo. Escuta o que Portugal, talvez ainda não tenha aprendido a dizer.

Rentes de Carvalho não nos oferece redenção, oferece-nos uma crónica da invisibilidade, e fá-lo com uma escrita carregada de palavras antigas e termos em desuso e que parece ter sido lavada com vinagre: ácida, limpa, sem perfume. Cada frase é uma bofetada e cada memória, uma ferida que não cicatrizou. Não há floreios, nem piedade, há verdade, e essa verdade dói porque nos obriga a confrontar o que preferimos esquecer: que a nossa história está cheia de Ernestinas que a literatura, tantas vezes, ignorou.

Este livro é um ato político, não no sentido partidário, mas no sentido mais profundo da palavra, é uma tomada de posição contra o esquecimento, e é também uma provocação: será que sabemos realmente quem foram as mulheres que nos criaram? Ou limitamo-nos a repetir clichés sobre mães abnegadas e esposas discretas?

Ler Ernestina foi resistir ao esquecimento e à indiferença. Foi um convite à escuta, à empatia e à memória, e foi também um alerta: há vidas que só existem se forem contadas e há autores, como o José, o filho da Ernestina e neto da Elisa, para quem escrever é salvar, sendo esses os que nos mostram que, às vezes, escrever sobre quem nunca teve voz é um ato de amor.

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Missão: amor feito obras

[Entre Margens]

Missão: amor feito obras novidade

A Igreja celebra há 100 anos a festa da missão global no penúltimo domingo de outubro, uma iniciativa do Papa Pio XI desde 1926, depois ampliada para «Outubro: mês missionário». O Papa Leão, que sonha com uma «nova era missionária» e quer reavivar e «renovar em nós o fogo da vocação missionária», preparou uma mensagem para ajudar a viver o Dia Mundial das Missões, que este ano se celebra a 18 de outubro (este domingo). [padre José Vieira].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.