É a primeira vez que uma imagem portuguesa vai percorrer as ruas de Roma em procissão, e não é uma procissão qualquer. Trata-se da Grande Procissão do Jubileu das Irmandades, que na tarde deste sábado, 17 de maio, reunirá na cidade eterna cerca de 100 mil pessoas de todo o mundo, antecedendo a inauguração do novo Pontificado. Mesmo à frente, a abrir o cortejo, irão alguns dos membros da Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra, levando o “seu” Santíssimo Cristo, uma escultura do século XVIII que só é dada a venerar em Sexta-Feira Santa na Real Basílica de Mafra.
A imagem, cuja autoria é atribuída ao escultor Manuel Dias (conhecido como “o pai dos Cristos”), foi oferecida pelo rei D. João V, em 1736, e encontra-se, já desde esta quinta-feira, exposta na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma, para poder ser venerada pelos fiéis do mundo inteiro.
Conhecida como o “Cristo de Mafra”, a escultura em madeira policromada foi colocada numa cruz patriarcal criada propositadamente para este momento festivo e solene. A nova cruz foi idealizada pelo artista Santiago Rodrigues Lopes, o mesmo autor da coroa de Nossa Senhora da Soledade (imagem também custodiada pela Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra, que em setembro de 2023 foi a terceira em Portugal a receber uma coroação pontifícia). O projeto, aprovado pelo patriarca de Lisboa, Rui Valério, no início de janeiro, foi depois executado na vila de Mafra pela empresa de conservação e restauro Património do Tempo, sob a coordenação de Ilda Nunes, recorrendo a madeiras nacionais e exóticas, antigas e modernas, com aproveitamentos de materiais pré-existentes, alguns deles procedentes de pedaços pertencentes a elementos construtivos originais do Palácio de Mafra.
“Participar neste Jubileu representa uma bênção, para mim em termos pessoais, para a Real Irmandade, para todos os irmãos e para todos os portugueses. E abrir esta procissão só pode ser uma graça divina, depois de a nova cruz e o Santo Cristo terem sido abençoados pelo patriarca de Lisboa, D. Rui Valério”, diz ao 7MARGENS o juiz da irmandade, Manuel Freixedas Torres, já a partir de Roma.

Conhecida como o “Cristo de Mafra”, a escultura em madeira policromada foi colocada numa cruz patriarcal criada propositadamente para este momento festivo e solene. Foto © RVISSM
O padre Vítor Dionísio Ramos, que acompanha os 12 peregrinos da irmandade de Mafra que se deslocaram à capital italiana, partilha do mesmo sentimento. “Poder estar neste jubileu especial dedicado às irmandades e confrarias é realmente uma graça muito grande. Sou um apaixonado por estas associações de fiéis, foram alvo do meu estudo e continuo a dedicar algum do meu tempo e da minha reflexão a estudá-las, não só no âmbito do direito canónico, mas também no âmbito pastoral e da piedade popular”, explica. Para o presbítero, “este jubileu revela a atenção que a Igreja e a hierarquia têm para com estas associações de fiéis. Aliás, o Santo Padre Leão XIV, ao definir as prioridades do seu pontificado, falou da piedade popular”, sublinha.
A Grande Procissão que percorrerá as ruas do centro de Roma a partir das 14h00 (menos uma hora em Lisboa), com a imagem do Cristo de Mafra à frente, contará também, pela primeira vez, com duas das estátuas mais veneradas dos famosos desfiles processionais da Semana Santa andaluza. Uma delas é o “Santísimo Cristo de la Expiración”, mais conhecido como “El Cristo del Cachorro”, de Sevilha, obra-prima do barroco andaluz de 1682, com quase dois metros de altura e carregada na procissão sobre um férculo sustentado por 42 padioleiros. A outra é a “Virgem da Esperança” de Málaga, uma imagem única no seu género, também muito venerada, colocada sobre uma base de dimensões majestosas e carregada por 270 pessoas. As duas estátuas estão na Basílica de São Pedro desde terça-feira, 13 de maio.
Nesta sexta-feira, os membros das irmandades vindos de cem países diferentes peregrinaram às Portas Santas das Basílicas Papais, e participaram depois numa celebração de boas-vindas em São João de Latrão.
No domingo, 18 de maio, às 10h30 (9h30 de Lisboa), na Praça de São Pedro, os membros das Irmandades participarão, com os seus trajes tradicionais, na celebração da missa de início do ministério petrino do Papa Leão XIV.
“Isso não estava no programa, quando pensámos vir ao Jubileu, e à procissão de todas as irmandades do mundo inteiro, mas Deus assim o quis, que estivéssemos nesta altura em Roma, para podermos participar na primeira missa pontificial do novo Papa Leão XIV “, comenta Manuel Freixedas Torres, sem disfarçar a emoção. E o padre Vítor Dionísio Ramos remata: “Poder estar neste momento tão importante para a Igreja e para o mundo é uma feliz coincidência. É uma alegria dobrada, é um Jubileu dobrado!”.










