
Em 2017, num Agosto abrasador, estava em Atenas a participar num congresso europeu de sociologia – data que só nórdico-cêntricos se lembrariam de escolher para a realização de uma conferência internacional no sul da Europa!. Já tinha ido à Grécia em anos anteriores e, se Atenas não me deixara memórias muito especiais, o percurso pelo Peloponeso e a sua história, a subida pelo mar de oliveiras até ao santuário de Delfos haviam sido momentos de verdadeiro deslumbre.
Mas estava outra vez em Atenas. E, lá no cimo, sempre a Acrópole, vista de vários ângulos. Nos jantares ao ar livre nas varandas do Placa, nas esplanadas onde íamos beber um copo ao fim do dia de trabalho era impossível não ser atraída por aquela imagem tutelar, dourada pelo sol ou, quando este se punha, pelos focos que a iluminavam e projetavam na sua beleza.

“Senti, naqueles minutos a solo e sem vivalma à minha volta, a estranha força simultaneamente telúrica e espiritual do lugar. A emoção de quem se reencontra com o destino humano, dele se orgulha e com ele sonha.” Foto © Ana Nunes de Almeida
Decidi que, desta vez, ao raiar do dia, ia ser a primeira a chegar lá acima – antes dos enxames de turistas, guias e visitantes barulhentos. As 7.30 estava junto da bilheteira e, às 8 em ponto, iniciei a subida. A cada passo fui sentindo o tempo a passar. O da minha vida, sobretudo, insignificante grão de areia numa onda milenar de séculos que me aproximavam de um “berço” histórico. E o tempo da pólis, onde esse dom precioso que é a democracia começou a ser esboçado. Mas também o do Olimpo e os seus deuses, e o da filosofia e o da arte. Cheguei ao topo e … ali estava o Pártenon vazio de gente, sobranceiro sobre uma cidade branca que acordava e o Egeu azul, mais distante. E, virando um pouco, as Cariátides serenas, avançando deslumbrantes nas suas túnicas finas. Parei. E senti, naqueles minutos a solo e sem vivalma à minha volta, a estranha força simultaneamente telúrica e espiritual do lugar. A emoção de quem se reencontra com o destino humano, dele se orgulha e com ele sonha.
Ana Nunes de Almeida é socióloga, ex-membro da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica em Portugal.









