
‘ “Respondi da única maneira que sei: imaginando e escrevendo um roteiro para um filme sobre Jesus”, explicou Scorsese», a propósito do apelo que o Papa Francisco fez ao mundo da arte.’ Foto: Papa Francisco e Martin Scorsese. © Vatican News
Segundo Martin Scorsese, hoje há filmes que funcionam como parques temáticos, um compósito de aventuras imparáveis. Começam a disseminar-se também as chamadas experiências imersivas, em que o filme é acompanhado por movimentos de cadeira e os espectadores podem ser salpicados com água em momentos-chave ou cercados de fumo, se o desenrolar da ação assim o exigir.
O realizador diz apreciar o uso de arquétipos no cinema, como o conflito entre bons e maus, mas chama a atenção para aquilo que denomina de “intimidade da personagem”, ou seja, para um tipo de filme em que a trama não se esgota em chavões nem previsibilidades, mas onde se olham de perto as personagens que compõem a história. A continuidade da existência deste tipo de filmes será particularmente importante para os mais jovens, refere, para que não cresçam com uma ideia simplificada (e empobrecida) do que o cinema pode ser.
No entanto, o estado de imersividade faz parte da natureza de um filme, é sua a função de puxar-nos para dentro de um mundo próprio, criado pelos realizadores, atores e por todo o trabalho de equipa implicado no fabrico do cinema. A leitura também tem essa essa capacidade mágica. Circula na internet um meme que diz ser impressionante pensar que ler é olhar para bocados de árvore com marcas e alucinar vividamente durante horas…
Scorsese encontrou-se recentemente com o Papa Francisco, sendo que está também a preparar um filme sobre Jesus. O filme terá 80 minutos, uma ótima notícia perante a normalização corrente dos filmes com durações longas, por vezes ultrapassando as três horas, como é o caso do seu Assassinos da Lua das Flores (2023).
“Respondi da única maneira que sei: imaginando e escrevendo um roteiro para um filme sobre Jesus”, explicou Scorsese», a propósito do apelo que o Papa Francisco fez ao mundo da arte. Em junho passado, o Papa recebeu artistas de todo o mundo, apelando à participação dos artistas na criação de arte capaz de “sonhar com novas versões do mundo”, pois “a arte e a fé não podem deixar as coisas como estão: mudam-nas, transformam-nas, convertem-nas”. A arte e a fé vivem no mundo, imersas, incarnadas.
Os filmes devem meter-se connosco, interpelar-nos, sem perder a sua autoria, a visão dos artistas em processo de criação. Porém, na era do streaming, muitas vezes o cinema, e muito mais as séries, querem-se enquanto conteúdo televisivo, mais ou menos formulaico, deixando os espectadores pendurados, sempre capazes de consumir um bocadinho mais. O próprio serviço de streaming apresenta imediatamente o episódio seguinte e aí, entre o sono e o cansaço, torna-se ainda mais difícil parar a avalanche. Os filmes e a televisão são vividos como um pico de açúcar, um pacote de batatas fritas comido de uma leva.
No entanto, a dimensão escapista do cinema pode ser terapêutica, sobretudo numa sala de cinema. Ali reina (espera-se) o silêncio e tende-se ao anonimato. O filme requer a totalidade do nosso tempo. É sempre possível dar uma espreitadela ao telemóvel, mas será muito menos provável fazê-lo naquele ambiente, do que no conforto do lar. E a escolha do filme é facilitada, uma vez que o número de filmes à disposição é bem mais limitado do que num serviço de streaming.
Há muito tempo que a psicologia sabe que dar opções ilimitadas a uma criança lhe trará insegurança. Com os adultos funciona de modo semelhante, embora nos continuemos a enganar, dando o nome de liberdade à hipotética possibilidade de escolher entre milhares de filmes (e de marcas de champô, e de latinhas de comida para gato, e de tudo um pouco). A psicologia aplicada ao consumo gera uma variedade aparente, mas pouca diversidade. A diversidade tem necessidade de perspetivas pessoais, de perspicácia, do investimento criativo de quem se envolve no processo.
O próprio Papa Francisco esteve envolvido num documentário, Amén. Francisco responde (2023), de Marius Sánchez e Jordi Evolé, respondendo ao seu repto – a “arte e a fé não podem deixar as coisas como estão: mudam-nas, transformam-nas, convertem-nas”.
Perante o consumo imparável do streaming e o condicionamento dos likes, muito familiar às vivências dos jovens e dos não tão jovens, este documentário oferece, ou melhor, os participantes oferecem-se a si mesmos a oportunidade e a riqueza de uma conversa. A disponibilidade do Papa é igualada pela disponibilidade dos participantes, corajosos na partilha das suas histórias, no modo como procuram contornar as suas suspeitas e inseguranças, as críticas e as mágoas que carregam contra a igreja, a sua hierarquia, as hipocrisias que detetam.
Corajoso o Papa ao deixar-se filmar ouvindo aquilo que nem sempre gostará de ouvir, deixando-se deparar com a diferença e o conflito. Estes jovens não são reverentes, são sinceros. Corajosa também a participante com uma postura mais convencionalmente católica, que não se inibe de falar perante um grupo que não partilha de muitas das suas posições.
O filme opta por reunir jovens com uma postura de dissidência, o que não quer dizer que os jovens sejam sempre inovadores. Os movimentos conservadores, dentro e fora da igreja, são renovados pelo apego de certos jovens a uma ideia de tradição.
É um filme simples e raro, tanto no cinema como na vida, onde há poucas conversas destas a acontecer e a repetir-se as vezes suficientes para que deem frutos. Dá gosto ver a humildade com que todos se envolvem no processo, sem, no entanto, perderem a segurança de afirmarem quem são, o que pensam e aquilo em que acreditam. Também o Papa.
Hoje, para aqueles que cresceram sem referências religiosas, deixa de haver qualquer tipo de vínculo com a igreja, mesmo que negativo, em resultado de uma resposta de revolta, mágoa, desilusão, ou de qualquer outro motivo que levasse a um corte ou a um afastamento. A resposta cada vez mais comum será a indiferença e, para alguns espíritos inquietos, talvez alguma curiosidade pontual. Por isso, para haver o diálogo de que a igreja precisa, e parte dela diz desejar, não se trata apenas de que esta se abra a uma conversa franca, mas a que os outros se prestem com ela conversar.
Certos estudos indicam que os mais jovens tendem a encontrar na natureza a materialidade necessária onde repousar o seu sentido de espiritualidade – o que não abona muito a seu favor, em tempos de destruição brutal de ecossistemas. Seja na contemplação da criação em si mesma, seja no ato criativo mediado pelas diferentes artes, há uma atenção à “intimidade da personagem”, como diria Scorsese, que pede para ser tida em conta. E é para já.
Sara Leão é mediadora educativa e formadora de Português Língua Estrangeira.










