Baptismo foi há 100 anos, no Fundão

A “bricolage” espiritual e o catolicismo de Amália

| 5 Jul 21

Amália Rodrigues

Amália Rodrigues: Olhos cerrados e voltados para o alto, mãos juntas como em oração, corpo direito e voltado para cima, uma voz interior e profunda. Foto: Direitos reservados.

 

Olhos cerrados e voltados para o alto, mãos juntas como em oração, corpo direito e voltado para cima, uma voz interior e profunda. Nada disto se adivinhava ainda quando, a 6 de Julho de 1921 – faz nesta terça-feira 100 anos –, Amália Rodrigues foi baptizada na paróquia do Fundão. Mas mais tarde, quando o seu nome já se confundia com o de Portugal e com o próprio fado, ela leva “à consumação, à superação, a subjectivação do fado, a sua dimensão de interioridade”, diz ao 7MARGENS a investigadora Cátia Sofia Tuna, autora de uma tese que cruza a história do fado e da cultura com a teologia.

“Não Sei Se Canto Se Rezo”: Ambivalências Culturais e Religiosas do Fado (1926-1945) foi o tema da tese de doutoramento defendida há pouco mais de um ano por Cátia Tuna, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Assento de baptismo de Amália Rodrigues no livro de registo da paróquia: foi o cónego Álvaro do Nascimento que baptizou a futura diva. Foto: Direitos reservados.

 

Mesmo que a investigadora admita que Amália Rodrigues não foi objecto de estudo para a sua tese (esta termina na época em que Amália vai ao Brasil e grava o seu primeiro disco, precisamente em 1945), Cátia Tuna já se debruçou também sobre a espiritualidade de Amália Rodrigues (cujo centenário do baptizado é pretexto para várias iniciativas que decorrem esta semana, no Fundão, conforme se registará no final deste texto).

“Amália herda parte dessa espiritualidade da sabedoria popular, da religiosidade popular, mas também do próprio fado”, diz a investigadora, que lecciona actualmente na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (FT/UCP). “As suas letras eram muito marcadas por esses elementos”, mesmo se a sua fé cristã nem sempre apareceu vincada da mesma forma ao longo dos seus 79 anos de vida.

Amália bebeu na família o seu catolicismo: o pai tocava cornetim nas procissões do Fundão e o avô paterno sobressaía pela voz no coro da igreja. Quando já era conhecida enquanto fadista, participou numa das mais importantes romarias do concelho e da região, a de Santa Luzia, na freguesia do Souto da Casa, onde morara a sua avó materna. Em 1991, numa entrevista ao Jornal do Fundão (citada no livro Amália, a Raiz e a Voz, organizado por Arnaldo Saraiva e editado por aquele semanário), ela diria: “Sem ser a família, a ligação que tenho ao Fundão é a música da Beira Baixa. Está-me no sangue.” Amália, viria, aliás, a cantar uma cantiga da Beira Baixa, dedicada precisamente a Santa Luzia:

 

“As canções que ela vai buscar ao repertório da Beira Baixa manifestam uma profunda religiosidade popular, claramente católica”, diz Cátia Tuna, que recorda a devoção da fadista pela invocação de Nossa Senhora do Carmo: em 1970, ela dizia (citada na biografia escrita por Vítor Pavão dos Santos): “A única esperança de uma beleza total, de uma realidade melhor que aquela que conhecemos, é Deus! Qual é a mulher, viva ou morta, mais importante para a Humanidade? Nossa Senhora.”

A investigadora lembra ainda a importância dada por Amália ao encontro que teve com o Papa João Paulo II, em Roma, em 6 de Dezembro de 1989, como a própria manifestava na altura em declarações à RTP.

Amália Rodrigues

Amália: uma “ideia versátil ou mesmo camaleónica de Deus”. Foto: Direitos reservados.

 

Nesse sentido, Amália faz como que uma “bricolage”, que “não é específica dela, mas da própria religiosidade popular”, diz Cátia Tuna. Ou seja, cruza os universos da espiritualidade católica com “o que tem a sina, o destino, ou o fado como referencial primeiro”.

Tal cozinhado manifesta uma “continuidade com o repertório que a antecedeu”, mas Amália concretiza-a já dentro de uma interioridade própria. E que traduz uma “ideia versátil ou mesmo camaleónica de Deus” – escreve Cátia Tuna num texto com o título “Para uma teologia do fado” – “no jogo estabelecido entre si e a sua tarefa de gestor do real cristalizada na determinação das circunstâncias, externas e internas ao homem”. Uma ideia que canta no Fado de cada um, escrito por Silva Tavares: “Ninguém foge por mais forte ao destino que Deus dá.” Ou, ainda, em Caminhos de Deus, neste caso com poema de António Sousa Freitas: “Quis dar-me Deus um fado / Um rumo e uma estrada / Caminhos, eu sei lá / Aqueles que me deu // Quis dar-me Deus esperança / E em tudo fui errada / Talvez porque troquei / Os seus fados p’lo meu.”

 

A saudade é outra das peças dessa composição plurifacetada: “É um modo, alternativo ao pecado, não culpabilizante mas afectivo, de explicar a falta do homem e a necessidade ou sede de Deus”, diz a investigadora no texto citado. “A sina – a última etapa – é o quadro explicativo que se deduz das anteriores e que, simultaneamente, as justifica: foi o destino que quis ou foi Deus que quis.”

O conceito de destino, explica agora Cátia Tuna, “acaba por dar jeito para justificar coisas que deveriam ser atribuídas a Deus, mas são-no ao destino”. Sobretudo coisas negativas como a doença e a morte, admite. Como Amália escrevia e cantava em Sabe-se lá: “Pois se Deus não nos acode / não há roda que mais rode / do que a roda da má sina.”

Noutro poema de sua autoria, Faz-me pena, Amália escreve (e canta): “Que culpa tem o destino / Deste destino que eu tenho? Se o desgosto é pequenino / Eu aumento-lhe o tamanho”. Trata-se de “uma interrogação à lógica do destino”, observa Cátia Tuna, que manifesta também que Amália não se preocupa “em alisar as aparentes contradições entre o destino como algo adquirido ou a perspectiva crítica” sobre o mesmo.

Ao contrário, o milagre “vem de Deus e repara o mal – é a cura de filho, a reconciliação de duas pessoas…” Ou seja, como interpreta a autora de “Não sei se canto se rezo…”, diante do mistério e das “circunstâncias da vida e do devir amoroso, Deus continua a interpretar vários papéis, entre o que dá o destino e o que dele resgata”.

Deus quer, Amália canta. “Foi por vontade de Deus”, canta ela na Estranha forma de vida, poema escrito pela própria: “Foi por vontade de Deus / Que eu vivo nesta ansiedade / Que todos os ais são meus / Que é toda minha a saudade / Foi por vontade de Deus.”

 

Esta “textualidade confessional”, como a designa Cátia Tuna, passa a ser “mais regular e constituir-se-á como marca da personalidade temática do fado também graças a Amália”. É isso que traduz Estranha forma de ser, escrito e cantado por Gonçalo Salgueiro: “Eu pertenço ao forte vento / A um triste pensamento / De um Deus que me criou / De uma centelha perdida / Apagada pela vida / Neste ser me transformou.”

 

Idêntica textualidade se pode ler em outro fado como Foi Deus: “Foi Deus / Que me pôs no peito / Um rosário de penas / Que vou desfiando / E choro a cantar / E pôs as estrelas no céu / E fez o espaço sem fim / Deu o luto as andorinhas / Ai, e deu-me esta voz a mim…”

 

Enfim, entre religiosidade, bricolage, saudade e destino, Amália joga ainda com a ideia do pecado, como se escuta em Perdoai Senhor: “Deus me perdoe o pecado / Que não há-de perdoar / O de ter na vida andado / Sem ter vontade de andar // Perdoai-me meu Senhor / Senhor do meu coração / O pecado ainda maior / Perdoai-me a ingratidão.”

 

Silêncio, que se vai cantar o fado no Fundão

Pia baptismal na Igreja Paroquial do Fundão, onde Amália foi baptizada. Foto: Direitos reservados.

A paróquia do Fundão, a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal assinalam os 100 anos do baptismo de Amália Rodrigues com uma eucaristia de acção de graças e um concerto, ambos no próximo sábado, dia 10.

Na missa, às 19h, participa um coro de 10 jovens músicos e estudantes de música na universidade, acompanhados por viola baixo, viola de fado e guitarra portuguesa. No concerto, a fadista Dina Pinto cantará 16 fados do repertório de Amália Rodrigues, sendo acompanhada pelo mesmo coro em quatro deles. Os arranjos musicais e direcção são de André Prata.

Uma placa junto da capela baptismal da igreja matriz será descerrada na ocasião, de modo a assinalar que ali “foi baptizada Amália Rodrigues a 6 de Julho de 1921”, como refere ao 7MARGENS o pároco do Fundão, Hélder Tomás Lopes.

Esta celebração inclui ainda uma exposição sobre o repertório de Amália oriundo da Beira Baixa, patente n’A Moagem, centro cultural e de exposições do Fundão. No dia 8, quinta-feira, assinala-se entretanto o 20º aniversário da trasladação de Amália para o Panteão.

 

(Sobre o tema, pode ouvir-se ainda esta entrevista de Cátia Tuna ao programa Estrela da Manhã, da paróquia do Fundão na Rádio Cova da Beira, ou ainda uma outra entrevista ao programa Ecclesia, no vídeo a seguir)

 

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