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Fresco da Ressurreição, Igreja de Chora (Kariye Museum ), Istambul.

[A Palavra e a vida]

A experiência e a linguagem da ressurreição de Jesus

| 10/06/2025

 

Mensalmente, o padre carmelita Armindo Vaz, biblista e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, publica no Boletim de Espiritualidade da sua ordem um texto sobre exegese e hermenêutica bíblica. Por acordo do seu autor e dos responsáveis do Boletim, o 7MARGENS passa a publicar também esses textos. Neste caso, publicamos o conjunto dos últimos três, que abordam o mesmo tema: a experiência da ressurreição de Jesus e a linguagem sobre esse acontecimento.

 

A experiência

 «A essência do cristianismo é a contemplação do rosto do Deus crucificado» – disse o Cardeal Carlo Maria Martini. Na «palavra da cruz» (1Cor 1,18), isto é, no excesso do amor, procura e revelação de Deus aconteceram simultaneamente, na morte do Filho, livre e voluntária: «O Filho de Deus amou-me e entregou-se a si mesmo por mim» (Gl 2,20); «Cristo morreu pelos nossos pecados» (1Cor 15,3). Jesus aceitou a morte para ser a suprema manifestação do amor de Deus-Pai à humanidade: o amor do Pai revelava-se no acto de amor do Filho, aceite pelo Pai como redentor. Foi uma morte real, selada pela pedra tumular. Mas não foi a morte heróica de uma personagem dramática: o Novo Testamento afirma que o Jesus morto ressuscitou, isto é, que a sua morte se transformou em fonte de vida radicalmente nova pela força do Amor do Pai, que é o seu Espírito e também o Espírito de Jesus, «Espírito que dá vida» (1Cor 15,45): «o Espírito [do Pai] ressuscitou Jesus de entre os mortos» (Rm 8,11), dando-lhe a sua vida. O Pai tornou a morte do Filho por amor um certificado de garantia de vida para sempre. Esta relação íntima entre morte e vida entende-se assim: Jesus estava na órbita do Amor do Pai, que é o seu Espírito; porque «o amor não acaba nunca» (1Cor 13,8), o Amor do Pai para com o Filho não podia acabar; por isso, arrancou-o às garras da morte. Isso foi a ressurreição de Jesus.

Mas, que significa?

Os evangelhos não a descrevem graficamente a acontecer, em acção. Só descrevem o acontecido, o resultado da ressurreição: que os discípulos viram o Ressuscitado (1Cor 15,3-8). «Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor» (Jo 20,20). Maria Madalena diz: «Vi o Senhor» (Jo 20,11-18); «quando o viram [no monte], ajoelharam-se» (Mt 29,17). Viram-no também junto ao mar de Tiberíades (Jo 21,1-14); e mais vezes. Ora, tal visão – expressão duma fé adulta – é do género da visão do Ressuscitado que S. Paulo terá tido a caminho de Damasco (Gl 1,12.16; Act 9,3-18…). Tem as características de uma visão mística, no sentido mais forte e autêntico. Foi percepção da realidade mas não de factualidade física. Não se pode ter uma prova ou amostra tangível do momento da ressurreição de Jesus, porque esse acontecimento não foi simplesmente real: foi super-real. Se fosse só visão real de Jesus no sentido de factual, então praticamente não se distinguiria da visão do Jesus histórico (como, se fosse só irreal, não passaria de uma fantasia vazia). Só a linguagem figurada (metafórica, simbólica…) podia sugerir o mistério para o qual apontava. A experiência da ressurreição de Jesus era uma elevação ou um levantamento do espírito; era perceber a força que vem do amor total expresso na cruz. De facto, a transformação interior da pessoa dos apóstolos por essa experiência – essa, sim, transformação histórica e palpável – certifica a presença de Jesus neles. Era uma verdadeira experiência mística, plenitude da fé no Jesus sentido como Filho de Deus, quando o Jesus terrestre e sensível tinha sido sepultado.

Mulheres e a ressurreição. Imagem © Watchtower Online Library

“A Madalena estava desorientada: «Tiraram o meu Senhor e não sei onde o puseram»” Mulheres e a ressurreição. Imagem © Watchtower Online Library

Era uma experiência que desorganizava a história programada dos discípulos. Eles não tinham compreendido o sentido da morte de Jesus. Para eles ainda era noite (Jo 20,1). A Madalena estava desorientada: «Tiraram o meu Senhor e não sei onde o puseram» (Jo 20,2.13). E os outros tiveram dificuldade em superar o escândalo da cruz: «Se não vir nas suas mãos o lugar dos pregos…, jamais acreditarei» (Jo 20,25). A sua fé carecia de uma nova etapa. Atingiram-na ao fazerem a experiência de Jesus vivo. A partir dela, os discípulos percebiam que Deus, respondendo ao ser humano que O procurava, se deixava encontrar no Filho feito carne, em quem tinha incarnado a plenitude do amor. Tendo Jesus morrido, não sabiam onde estava. E descobriram que estava definitivamente no Pai e entre os irmãos: «Vai aos meus irmãos e diz-lhes: Subo para o meu Pai e vosso Pai» (Jo 20,17). Daí em diante, a procura humana de Deus só podia ser resposta de amor ao amor que era primeiro (1Jo 4,10.19). Assim, o mistério pascal tornava-se confirmação e ponto culminante de todas as experiências místicas, que consistem em que o místico já não reza simplesmente mas ama, já não procura simplesmente Deus mas contempla-o em Jesus ressuscitado/vivo.

 

A linguagem sobre a ressurreição de Jesus

Ao quererem comunicar literariamente a experiência mística que tiveram de Jesus ressuscitado na vida real, os discípulos traduziram-na em relatos de aparição dele. Contam que apareceu ou se fez ver nas variadas circunstâncias da vida quotidiana: a caminho com eles, no trabalho da pesca, a falar, a comer peixe assado, a tocar o corpo, em casa, em reunião, fora de casa, no monte, afastando-se do sepulcro… Contam que o morrer de Jesus foi superado e transcendido pela vida nova do Espírito de Deus. Os relatos, que subentendem novas formas de perceber, de ver e de ouvir o mundo, queriam suscitar comportamentos que inspirassem aos leitores uma percepção ou perspectivação nova desse mundo, um olhar diferente, uma visão pascal da vida, em que as pessoas descobrem o sentido mais profundo das suas inter-relações e dos acontecimentos. Aí, a questão “que sucedeu realmente?” torna-se irrelevante, porque deixa de lado o que é verdadeiramente importante: que os discípulos demoraram a descobrir o sentido da ressurreição de Jesus por meio da meditação ao longo de uma vida, já que os relatos evangélicos do encontro com o Ressuscitado foram escritos uns 50 anos depois.

Caminho de Emaús. Pormenor da capa do livro “Perguntas de Deus, Perguntas a Deus”.

Para os discípulos darem a entender essa experiência, seria impensável referirem-se a Jesus ressuscitado sem corpo. A sua pessoa só podia ser identificada com o seu corpo. Mas também não pensavam num corpo físico de carne e osso (como uma leitura dos relatos à letra poderia supor). Pensavam num “corpo glorioso” (Fl 3,21), isto é, que dava glória à pessoa (o hebreu usava a palavra corpo para dizer pessoa): era um corpo que fazia resplandecer e projectava para o exterior o mistério que Jesus era no seu interior. O Jesus ressuscitado era um “corpo espiritual [pneumatikón]” (1Cor 15,44), isto é, plenamente vivificado pelo Espírito recriador de Deus: já só pertencia à esfera divina, depois de ter assumido a humana. Os relatos tinham a função de sugerir o super-real: que o Cristo vivo de que tinham tido experiência mística/Espiritual era o mesmo que o Jesus crucificado. Por exemplo, o relato que põe Jesus a apontar a Tomé o sinal da crucifixão (“vê as minhas mãos, traz a tua mão e mete-a no meu lado”: Jo 20,27) quer significar que ele não era um fantasma gasoso mas era o mesmo que o Jesus histórico que eles conheceram e que continuava presente na história deles; continuava a interagir com o mundo humano, a marcar a história humana e a ter efeitos nela. O relato de Jesus a comer peixe dado pelos discípulos (Lc 24,41-42) quer sublinhar a realidade corpórea do Ressuscitado, para que fosse compreendido como pessoa e não como fantasma. Os relatos de aparição do Ressuscitado significavam que ele se podia encontrar com eles de forma real, embora invisível, super-real. Significavam que ele não estava fora da vida deles: era parte dela e vivificava-a por dentro.

Portanto, os relatos de aparição do Ressuscitado não surgiram de uma experiência psicológica, onírica ou mágica, de uma visão fantasmagórica ou quimérica dos seus discípulos. Nasceram da percepção super-real de Jesus vivo, que de sua iniciativa se impôs a eles, num encontro pessoal e gratuito. É importante sublinhá-lo, para que as gerações mais novas não imaginem as aparições do Ressuscitado dos evangelhos à maneira das maravilhas operadas por Harry Potter a atravessar uma parede ou a fazer as magias que o autor lhe atribui. Estas nascem de uma fantasia prodigiosa. Os relatos de aparição de Jesus Cristo nascem de uma experiência viva (por isso, podem contar o que seria absurdo noutro contexto e noutro género literário: os de Emaús no princípio caminham com ele e não o reconhecem, vindo a reconhecê-lo ao fazerem experiência dele alertados pelas Escrituras). São a lógica consequência da percepção espiritual que a fé pascal teve e da experiência mística que os discípulos tiveram, sentindo que Jesus estava presente e operante nas suas vidas, a animá-las e a guiá-las (como se conta no livro dos Actos dos Apóstolos). Nomeadamente os relatos do sepulcro vazio, ao mesmo tempo que queriam confirmar a abalada fé dos discípulos, são um símbolo que, enquanto tal, aponta para uma realidade transcendente. Queria significar que seria errado procurar Jesus no mundo dos mortos, como seria impossível sepultar a Verdade numa tumba; que ele tinha morrido, sim, mas não era um morto, nem pertencia ao mundo dos mortos, nem ficava no lugar dos mortos; estava vivo em Deus. A vida venceu a morte: «Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo? Não está aqui. Ressuscitou! Recordai-vos de como vos falou… Recordaram-se então das suas palavras» (Lc 24,5-6). Dele, o que restava agora era silêncio activo! Só podia ser escutado em silêncio, procurado na fé e visto com os olhos fechados como urgência que empenhava toda uma vida.

“Os apóstolos Pedro e João correndo para o túmulo na manhã da ressurreição”, de Eugène Burnand (1898)

A ressurreição de Jesus põe ao vivo a questão sobre a transformação da carne de uma pessoa. É a contestação definitiva da morte, a confissão implícita de que a morte não reina sobre a vida de uma pessoa. Quem reina é Deus e os que vivem por Ele e n’Ele. Tão grande verdade não se exprime no Novo Testamento com a linguagem abstracta. Diz-se em símbolos, gestos, narrações e na profissão de Paulo: «Onde está, ó morte, a tua vitória?… Graças a Deus que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor, Jesus Cristo» (1Cor 15,55.57). A ressurreição não é um manifesto contra a morte (a morte não se combate). É a vida do Espírito dada por Deus que subverte as evidências procurando esvaziar o conceito de morte.

 

Para além da linguagem

Falando da ressurreição de Jesus, enquanto pessoas com formação e mentalidade tendencialmente racional (no bom sentido: as que vêm das Ciências, da Filosofia, da Biologia, da Genética ou da Engenharia…) gostariam de ver factos objectivos, fotografáveis, as mulheres que foram de madrugada ao sepulcro dele eram convidadas a ver o Invisível, o Ausente. A ausência, neste caso, era o coração e a verdade do Ser existente: era ‘o mais além do ser’, a transcendência divina que se impunha à imanência humana. Era a verdade do Jesus imediatamente ausente que se fazia mediatamente presente aos que o contemplavam misticamente e se impunha como na visão a olhos nus. Tal experiência mística de Jesus ressuscitado era a tomada de consciência do resplendor Espiritual da sua pessoa/corpo; iluminava a sua vida inteira a partir da morte na cruz do amor.

Portanto, comunicar verbalmente essa percepção mística era como configurar o invisível, o não tangível. Era como pintar um ícone que aspira a representar o que não é físico, a dar forma visual às coisas do espírito, a dar imagem ao divino. Tarefa nada fácil. Então os escritores do Novo Testamento, no limite da comunicação, adoptaram a arte literária metafórica, que conta com a aspiração dos humanos leitores ao transcendente…; arte representativa que também conta com o poder conotativo da metáfora mais usada para exprimir a ressurreição de Jesus, com o verbo grego (egeíro) nos seus dois sentidos: o acto de levantar-se ou elevar-se da posição de deitado no sepulcro e o acto de acordar do sono da morte. Esta metáfora da ressurreição sugere o sentido mais elevado, deixando o leitor enlevado no sentido que apontou: não fiquem a olhar para a letra do relato, olhem para o sentido dele. Opera uma transferência de sentido, com palavras que então não se regem pela lógica da linguagem da história factual mas pertencem a um domínio superior, fazendo ver Jesus a uma luz nova e permitindo contemplá-lo com traços que ficam escondidos à linguagem da simples história factual. A leveza da metáfora ‘dizia’ o que os historiadores não conseguiriam mostrar. É a linguagem da fé, não a linguagem de fazer história, porque a ressurreição, de Jesus e das pessoas, exige sempre um acto de fé: sem fé, ficaria privada de fundamento e do conteúdo escondido debaixo das palavras ou dos símbolos que a confessam. A historiografia até pode ser cientificamente bem feita. Mas, não apanhando o sentido interior e profundo dos factos por meio da introspecção, é inócua, incapaz de inaugurar algo novo, no pensamento e na existência. Ao invés, a linguagem metafórica, que gera o real superior, transforma realmente, remete a contemplação mística para o mistério do Jesus vivo na glória de Deus e para a sua divindade; e gera adesão à sua pessoa e à sua salvação como amor dado. Procura comunicar de alguma maneira o que os discípulos beneficiados pela experiência mística de Jesus Ressuscitado viam claramente, inquestionavelmente, incontestavelmente.

A Incredulidade de São Tomé (1601-02), de Caravaggio

A Incredulidade de São Tomé (1601-02), de Caravaggio, Domínio público / Wikimedia Commons.

Não admira, pois, que o testemunho das mulheres madrugadoras, que anunciavam que Jesus estava vivo, tenha ocasionado reparos nos apóstolos e nos discípulos («algumas mulheres de entre nós deixaram-nos sobressaltados…: ao não encontrarem o seu corpo, vieram dizer que tinham  tido a visão de uns anjos que diziam que ele estava vivo…; mas a ele não o viram»: Lc 24,22-24). Nem admira que os discípulos, depois da sua visão mística, fossem inicialmente olhados com desconfiança ou até com desdém pelos que queriam ver objectivamente (como o apóstolo Tomé) ou por respeitáveis mestres da academia de hoje. Os grandes literatos e os génios da produção artística religiosa (mas também os videntes de Fátima e outros) também foram submetidos a provas de verificação análogas. E os que entendem a ressurreição de Jesus à letra, como reanimação ou revivificação do corpo material, terão dificuldade em acreditar nela ou em explicá-la; e, se pensam à letra que o sepulcro estava fisicamente vazio, então logicamente terão de se perguntar para onde foi o cadáver do Jesus físico! Tudo indica, pois, que temos de compreender como imagética a linguagem do Novo Testamento sobre a ressurreição de Jesus. Há alternativa a esta compreensão?

O recurso a esta linguagem figurada por parte dos autores bíblicos atesta bem as dificuldades e as limitações da linguagem humana e da nossa capacidade de visualização para falar de Deus. Mas a interpretação apresentada não põe em dúvida a fé em Jesus ressuscitado. Torna razoável a afirmação da fé, conjugando-a com a razão, e convida o crente a ultrapassar o vestíbulo do edifício da fé, como convida o não-crente a abrir as pregas do manto da linguagem. O desejo de ver em carne e osso, na veste da vida nova, o grande influenciador que tinha sido Jesus exerceu sempre e continuará a exercer um grande poder sobre o coração humano; como se essa desejada visão, física, fizesse voltar as pessoas ao glorioso tempo original em que multidões viam e podiam tocar Jesus! Mas esquecem que, mesmo então, era precisa a fé, que faltou a muitos dos que o viam e tocavam e que, por isso, o crucificaram. Ingenuidade genial: de Jesus viram tudo sem se aperceberem de nada, do mistério que ele era. A ressurreição de Jesus e a esperança daqueles que crêem que ele “os ressuscitará no último dia” (Jo 6,40.44.54) escapam à visualização física e à possibilidade de formar uma imagem sobre elas; bem mais importante é que elas abram a pessoa para além de si mesma e gerem o definitivo, numa espécie de salto qualitativo que entreabre uma nova dimensão de ser humano. A Páscoa pode retirar-nos de zonas sombrias da nossa existência pessoal ou comunitária em que poderemos querer refugiar-nos. A esperança libertadora é um bom presente de Páscoa.

 

Armindo Vaz é biblista e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica; publicou, entre outros, Em vez de «história de Adão e Eva»: O Sentido último da vida projectado nas origens (Edições Carmelo) e Criação Divina sem pecado humano (Paulinas Editora).

 

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