“Para a esmagadora maioria de quem, em Portugal, escolhe a fé evangélica”, esta nada tem a ver com o Movimento Mulheres Conservadoras Portugal, com o Chega, ou com qualquer outro projeto político” esclarece, em nota divulgada no dia 23 de agosto, a Aliança Evangélica Portuguesa (AEP), motivada pela “cobertura mediática recente sobre o Movimento Mulheres Conservadoras Portugal (MMCP) e da chamada ‘influência evangélica’ na vida política nacional”.
É muito raro a AEP vir a público divulgar posições sobre questões político-partidárias. E, por isso mesmo, esclarece que também esta nota não é motivada por qualquer vontade de “tomar parte num debate político-partidário”, mas porque entende que é necessário “trazer rigor a uma discussão que, com frequência, esquece a diversidade e a dignidade de centenas de milhares de portugueses”.
Rigor que, segunda a AEP, o noticiário recente sobre a criação do MMCP, “associando-o de forma mais ou menos direta a uma proximidade crescente dos evangélicos à vida política portuguesa, nomeadamente junto do Chega”, desrespeita de tal forma que “não pode ser aceite em silêncio”, pois não é admissível que “um grupo inteiro de pessoas de paz seja denegrido com base em generalizações não fundamentadas sobre um fenómeno político que lhe é, na sua esmagadora maioria, alheio”.
No sentido de repor a conveniente distância dos evangélicos em Portugal em relação aos partidos políticos, a AEP sublinha que importa “identificar com rigor quem deu, de facto, rosto ao encontro de pré-lançamento do MMCP, em julho, em Sintra: foram mulheres de diferentes ramos do cristianismo e de diversas filiações partidárias”. Assim, “a imagem mais rigorosa” não passa por “o qualificar como um ‘movimento evangélico’”, mas sim como “um movimento conservador religiosamente plural, em que protagonismo católico e presença evangélica convivem, tal como convivem, aliás, na sociedade portuguesa em geral”.
Criticando a ‘influência evangélica’ que os media atribuíram ao movimento, a Aliança sublinha que “o panorama evangélico português (e europeu) é internamente muito mais plural do que essa expressão sugere”: “Há mulheres evangélicas socialmente conservadoras, é certo; mas há também mulheres evangélicas progressistas, apartidárias, ativistas pelos direitos das mulheres, sindicalistas, ou simplesmente indiferentes à política. O inverso é igualmente verdadeiro: nem todas as mulheres conservadoras em Portugal são evangélicas, aliás, a maioria, como se verá adiante, nem sequer o é. Tratar ‘evangélica’ e ‘conservadora’ como sinónimos, ou como categorias sobrepostas, é uma simplificação que nem a sociologia da religião, nem a observação direta das nossas comunidades, permitem sustentar.”
Portugal não é réplica do Brasil

Foto: 32ª edição da Marcha para Jesus (Brasil) © Marcelo Pereira / SECOM
Em abono da sua tese, a AEP recorda que boa parte “da leitura mediática recente apoia-se em declarações do investigador Donizete Rodrigues, que tem alertado para ligações entre igrejas neopentecostais e o Chega”. Contudo, embora reconhecendo “o trabalho sério” desenvolvido por aquele investigador, a AEP assinala que esse trabalho foi “construído, em larga medida, a partir da experiência brasileira, onde existe uma bancada evangélica parlamentar organizada, com décadas de história e milhões de eleitores”.
Realidades inexistentes em Portugal, país que “não tem, à luz dos Censos de 2021, dimensão demográfica para algo equivalente”, porquanto “os evangélicos / protestantes representam 2,13 por cento da população portuguesa com 15 ou mais anos (186.832 pessoas)”, pelo que “a esmagadora maioria do eleitorado de qualquer partido português é, pela aritmética mais simples, necessariamente não evangélica”.
Daqui decorre, segundo a Aliança Evangélica Portuguesa, que “aplicar ao caso português modelos interpretativos construídos para o caso brasileiro, sem atender a esta diferença de escala e de história institucional, arrisca substituir a análise pela analogia” não fundamentada.
A mesma entidade que acolhe a maioria das Igrejas protestantes em Portugal, acrescenta ainda que é muitas vezes sugerida a existência de “uma sobreposição geográfica entre a implantação evangélica e o eleitorado do Chega”. Sobreposição que “os dados disponíveis não confirmam”, pois “segundo dados da própria Aliança Evangélica e os Censos de 2021, o crescimento evangélico em Portugal concentra-se sobretudo em zonas urbanas e periurbanas de forte presença migrante: a Área Metropolitana de Lisboa (incluindo Sintra), a Margem Sul do Tejo, em particular o distrito de Setúbal, e o distrito de Braga”.
Ora, “os resultados das legislativas de maio de 2025 mostram um padrão misto, não uma sobreposição direta: o Chega venceu, de forma histórica, o distrito de Setúbal; mas o seu resultado mais expressivo a nível nacional foi em Faro (33,9%), e as suas outras vitórias deram-se no interior alentejano, em Beja e Portalegre, zonas de reduzida presença evangélica. Em Braga, distrito de forte crescimento evangélico ligado à imigração, o Chega não venceu, tendo a AD mantido uma vantagem confortável”.
A AEP conclui: “Não existe, até hoje, nenhum estudo geo-religioso rigoroso que sustente uma correspondência entre a implantação evangélica e o voto no Chega, e os indícios disponíveis, examinados com cuidado, sugerem antes uma coincidência parcial e não uma correlação robusta.”










