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Birmânia

A freira ajoelhada é uma das 100 mulheres inspiradoras

| 10/12/2021

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Freira birmanesa ajoelha-se perante polícia e militares do regime, em março de 2021. Foto DR

 

“Terão de passar sobre mim. Disparem contra mim em vez destes jovens.” Esta frase e o gesto de se ajoelhar diante de militares abrindo os braços, valeu à irmã Ann Rose Nu Tawng, da Birmânia (ou Myanmar, o nome do país adoptado há anos pelos militares), a inscrição do seu nome na lista das 100 mulheres mais inspiradoras ou influentes deste ano, da BBC.

Integrando as irmãs de São Francisco Xavier, Ann Rose, 45 anos, trabalha em Myitkyina, a capital de Kachin, o estado mais setentrional do país, na Birmânia rural. Foi o seu gesto, no dia 1 de Março, que fez com que polícias e militares parassem de perseguir manifestantes em fuga, numa das múltiplas manifestações contra o golpe de Estado militar de 1 de Fevereiro. 

O golpe depôs a primeira-ministra Aung San Suu Kyi que, no final da última semana, foi condenada a quatro anos de prisão por um tribunal não reconhecido pela comunidade internacional. 

A foto da irmã Ann Rose ajoelhada diante dos militares – gesto que fez com que dois agentes das forças de segurança se ajoelhassem também com ela – correu mundo através dos meios de comunicação e das redes sociais. 

Na lista da BBC, incluem-se outras mulheres como Malala Yousafzai, a mais nova vencedora do Prémio Nobel da Paz, a filantropa norte-americana Melinda Gates, a primeira-ministra de Samoa, Fiame Naomi Mata’afa, e a negociadora da paz no Afeganistão, Fatima Gailani (metade das nomeadas, este ano, é do Afeganistão). 

Uma semana depois da foto, contou ela, não pôde deixar de chorar quando viu uma cena mais trágica: “Diante dos meus olhos, um manifestante foi morto a tiro, que fez explodir a sua cabeça, morrendo na poça de sangue. Os doentes feridos foram trazidos para a clínica, pelo que o sangue estava por todo o lado dentro da clínica. Quando dois pacientes com as cabeças atingidas foram trazidos, já tinham morrido nessa altura. Outros ficaram gravemente feridos, como um campo de batalha ensanguentado.” 

Uma outra freira, Sung Hee Moon, coreana neste caso, considera Ann Rose “uma mulher comum religiosa na casa dos 40 anos”. No primeiro contacto em que a religiosa coreana lhe pediu uma conversa, a irmã Ann Rose respondeu: “Estou tão ocupada a deslocar-me [aos] campos de deslocados internos, mas vou tentar arranjar tempo para responder às suas perguntas.”

Nascimentos e mortes no quotidiano

Trabalhando como enfermeira numa clínica, a irmã Ann Rose Nu Tawng já ajudou centenas de bebés a nascer, conta a coreana Sung Hee Moon, num texto publicado no portal Global Sisters Report (GSR), das religiosas católicas dos Estados Unidos.

“Nascimentos e mortes são a sua experiência quotidiana. Com os hospitais públicos fechados após a partida de trabalhadores da saúde em protesto contra o golpe, ela está hoje em dia a fazer trabalhos extra, cuidando dos doentes nos campos de deslocados internos”, conta a irmã Moon sobre a colega birmanesa. Mas não só: a BBC refere também que ela cuida igualmente de doentes com covid-19. 

Um outro texto do GSR refere os muitos comentários nas redes sociais elogiando a atitude da irmã Tawng. Entre eles, alguém escreve: “Este tipo de pessoas são raras.”

A irmã birmanesa também contou à sua colega coreana como surgiu a foto: “Fiquei surpreendida ao descobrir que a fotografia de mim a chorar e a implorar aos soldados para não matar pessoas se tornou viral. Nessa altura, as pessoas fugiram para salvar a sua vida, com medo, no meio de tiroteios.” Momentos depois, aconteceu: “Um jovem que se escondia perto da clínica perguntou-se porque havia um súbito silêncio e foi verificar o que se passava. Viu uma freira ajoelhada diante dos soldados, tirou algumas fotos e depois fugiu. Não conhecia este jovem antes disso, mas ele voltou para se me apresentar dizendo que é um jovem budista. E disse-me que tinha colocado as fotografias online.”

Ann Rose não tem dúvidas sobre o seu gesto, como conta no mesmo testemunho no GSR: “Eu estava a usar a minha própria vida para ganhar tempo para que os jovens pudessem fugir. Foi um gesto pequeno, mas ao fazer isto com grande amor, este acto chamou a atenção da comunidade internacional. Sinto profundamente que isto também foi Deus a querer que o mundo conhecesse a situação em Myanmar. Deus quer que a comunidade internacional faça algo para salvar Myanmar e que parem de matar.”

A irmã Ann Rose está convencida de que as pessoas estão mais assutadas com o regime militar golpista que com a covid – apesar de a doença já ter provocado uma situação grave na sua cidade, Myitkyina, com 70% de pessoas a testar positivo, na terceira vaga. Muitas das pessoas com sintomas graves não podiam aceder aos sistemas médicos governamentais ou ter oxigénio porque os militares os guardavam para si, contava ela. Isto, note-se, num país que, desde a independência, em 1948, tem estado quase sempre em guerra civil. 

“A fome de poder custa a vida de muitas vidas inocentes. Quando vou a campos de deslocados, observo muitas pessoas a enfrentar muitas dificuldades, a lutar para sobreviver, uma vez que não existem oportunidades de subsistência. Penso sempre em como posso ser útil ao povo… Por vezes ajudo a entregar oxigénio e medicamentos a quem deles necessita. Outras vezes, fui fazer testes” à covid-19 em zonas mais remotas. “Os casos para além da minha capacidade estão a ser encaminhados para outros prestadores de serviços. Faço o meu melhor com toda a minha paixão e deixo o resto nas mãos de Deus.”

Doente de covid: “Compreendi melhor”

A irmã Ann também providencia alojamento para quarentenas quando alguém não pode auto-isolar-se em casa. Paróquias ou instalações da Diocese de Myitkyina são mobilizadas para tal fim. Actualmente, conta ainda a mesma fonte, a religiosa tem de ficar 24 horas na clínica, uma vez que não há verba para pagar a mais médicos. E também chegou a vez de ela contrair covid, tendo em conta o facto de estar permanentemente em contacto com doentes. “Apesar de ter usado todo o equipamento de protecção”, diz ela. Mas também isso foi visto positivamente pela religiosa: “Compreendi melhor os pacientes da covid-19 e como ajudá-los.”

Já passaram nove meses depois do golpe e todos os relatos das últimas semanas, incluindo a notícia da condenação da primeira-ministra Aung San Suu Kyi mostra que os militares não estão interessados em renunciar ao poder – que nunca largaram por completo, aliás, mesmo quando Suu Kyi chefiava o governo. Continua a haver protestos em várias cidades, muitas pessoas passaram à clandestinidade – inclusive armada, lutando contra os militares. Ann Rose também confessa medos: “Há coisas que não posso partilhar abertamente neste momento, mas tenho de as guardar no meu coração. O regime pode vir e prender-me a qualquer momento. Tenho de confiar sempre em Deus e rezar-lhe. Abro-me sempre a Ele e peço a Sua ajuda.”

Os gestos da irmã Ann levaram mesmo o Papa Francisco a afirmar, em Março: “Eu também me ajoelho nas ruas de Myanmar e digo: ‘Parem a violência’. Também eu estendi os meus braços e disse: ‘Abram alas para o diálogo’.”

À UCANews, Ann Rose declarou: “Preparei-me para dar a minha vida pela Igreja, pelo povo e pela nação. Sou uma freira católica mas sou também cidadã de Myanmar, por isso tenho a mesma sensação que o povo de Myanmar. Estou sempre a pensar em como posso dar uma mão ao povo.”

 

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