
Emissão de selos “Memória dos salvadores do Holocausto”, homenageando Aristides de Sousa Mendes, Carlos Sampaio Garrido, Alberto Teixeira Branquinho, padre Joaquim Carreira e José Brito Mendes.
São duas frases curtas, uma a convidar, outra recusando a proposta recebida. Uma e outra, sem grandes delongas nem justificações. Em 8 de Setembro de 1970, o então bispo de Leiria, João Pereira Venâncio, escreveu ao padre Joaquim Carreira, assistente eclesiástico da Embaixada de Portugal junto da Santa Sé e que tinha sido, durante a Segunda Guerra Mundial, reitor do Pontifício Colégio Português, de Roma: “…peço-te que me não digas que não: vem ocupar o lugar de Reitor do Santuário” de Fátima, pedia o bispo, entre a súplica e a ordem.
A revelação deste pormenor da vida do padre Joaquim Carreira, inédito até agora, é feita na reportagem A Lista do Padre Carreira, que passa nesta quarta-feira, 31, no Jornal Nacional da TVI, numa parceria entre o 7MARGENS e a TVI/CNN-Portugal (com a co-autoria do jornalista Joaquim Franco). O padre que acolhera refugiados em Roma durante a Segunda Guerra Mundial, e que ficou a viver na capital italiana até morrer, em 7 de Dezembro de 1981, foi afinal convidado para dirigir aquele que, já nessa altura, era o maior centro religioso português.
Não terá sido pela concessão de hospitalidade a perseguidos, partisans, socialistas e outras pessoas em perigo que o bispo formulou o convite. Aliás, o facto de Joaquim Carreira ter dado abrigo e protecção a meia centena de refugiados – incluindo pelo menos três judeus –, durante a ocupação nazi de Roma, entre Setembro de 1943 e Junho de 1944, era praticamente desconhecido: o próprio quase não falava disso, como atestam vários testemunhos e a história tinha ficado registada apenas no relatório que ele escreveu sobre o ano lectivo. E o bispo Venâncio também pouco saberia sobre o assunto.
“O risco era muito grande”
Nos nove meses que durou a ocupação nazi de Roma e que coincidiram com o início da invasão de Itália pelos Aliados, a partir do Sul, Joaquim Carreira correu riscos: “A hospitalidade que está na base dos princípios da caridade cristã e a exemplo de todas as comunidades religiosas de Roma, achei que a devia oferecer a pessoas perseguidas, procuradas ou em perigo”, escreveu ele no relatório, finalizado no dia 31 de Julho de 1944, e que pode ser lido na íntegra no livro A Lista do Padre Carreira (ed. Vogais).
Em 2015, o testemunho de Elio Cittone – um dos judeus que esteve, durante poucas semanas e ainda adolescente, no Colégio Português – permitiu ao Yad Vashem, Centro Mundial de Memória do Holocausto, de Jerusalém, declarar o padre Carreira como “Justo Entre as Nações”. Ou seja, alguém que durante a Shoah arriscou a sua vida para salvar judeus, sem esperar nada em troca.
Entrevistado em 2012, e citado no livro, Elio Cittone recordava que tinha ido inicialmente com o tio (o pai ter-se-á juntado mais tarde), Isacco Cittone, bater à porta do Colégio num dia de Outubro de 1943. “Vivíamos em Milão, tínhamos ido para Roma para fugir aos alemães.” O tio trabalhava com o pai de Elio, Roberto, na venda de tapeçarias antigas. Um outro tio, o advogado Alberto Luppolli, ajudara-os a procurar refúgio. “Nunca mais vi ninguém [desse tempo], mas estou muito grato” ao padre Carreira, dizia Elio Cittone em 2012, recordando a experiência no colégio.
“Concedi asilo e hospitalidade no colégio a pessoas que eram perseguidas na base de leis injustas e desumanas.” A decisão levou Joaquim Carreira a tomar um “maior contacto com as misérias, as dores e as tragédias em consequência da guerra”, como o próprio acrescentava naquele documento. “O risco era muito grande para os superiores: a condenação à morte, o fuzilamento…”, dizia em Novembro, em entrevista para esta reportagem, o historiador Andrea Riccardi, que tem investigado a acção do Vaticano e do Papa Pio XII durante a Segunda Guerra Mundial.
“Vais ficar, talvez, admirado!”

A multidão em Fátima durante o “milagre do sol”, em 13 de Outubro de 1917: a mãe de Joaquim Carreira esteve na Cova da Iria neste dia; um ano antes, perguntara ao filho se não querioa ser padre; três anos depois, Joaquim entrou no seminário. Foto © Judah Ruah, via Wikimenda Commons,
Depois de receber o convite do bispo para ser reitor do Santuário de Fátima, a resposta de Joaquim Carreira, com data de 2 de Outubro, chegou ao bispo, seca e curta: “apresso-mе também da minha parte a dizer que me não sinto capaz de aceitar o cargo de Reitor do Santuário da Fátima, para que V. Ex.cia Rev.ma me convidava na sua carta de 8 de Setembro passado. Não é lugar para mim.”
A carta de convite do bispo – tal como a resposta, guardada no arquivo do santuário – tinha sido escrita na noite de 8 de Setembro, aniversário natalício de Joaquim Carreira. Pereira Venâncio começava por dar os parabéns ao padre e acrescentava: “Mas devo confessar que não é principalmente por isso que te estou a escrever… Vais ficar, talvez, admirado!” O bispo explica a seguir que teria de encontrar em breve um reitor para o santuário. E recordava uma conversa entre os dois: “Em palavras um pouco enigmáticas, disseste-me ou deste-me a entender que ias deixar o lugar da Embaixada… E que irias para outro campo… e alguém me disse – não recordo quem – que pensavas nas missões, nomeadamente em Timor.”
De facto, o padre Carreira andava a pôr a hipótese de se vincular aos jesuítas ou aos franciscanos e partir em missão. O mesmo dado é confirmado pelo sobrinho, o também padre (dos Missionários Espiritanos) João Carreira Mónico, que escreveu uma biografia do tio, publicada em edição de autor em 2008, a propósito do centenário do nascimento de Joaquim Carreira.
O seu destino, no entanto, não seria Timor, nem Fátima. Apesar de ser um profundo devoto de Fátima, até por circunstâncias da sua vida pessoal: o dia de nascimento de Joaquim Carreira coincide, na liturgia católica, com a festa da Natividade de Nossa Senhora. “Foi uma graça que Deus andou a estudar para mim. Será por isso que digo do meu coração: sou um doido por Nossa Senhora”, escreveria ele em 29 de Agosto de 1981, numa carta a Maria da Conceição Primitivo, de Santa Catarina da Serra (Leiria), com quem se correspondeu nos últimos dez meses de vida.
Seria também a esta costureira que o padre Joaquim Carreira contaria: miúdo ainda, chegou um dia a casa e foi ter com a mãe à eira. “Assentei-me a seu lado e prosseguia no diálogo, quando o sino tocou as ave-marias. Levantou-se e, cheia de paciência, rezou comigo. (…) Foi nessa tarde quente, ao findar do dia, que na nossa eira a minha querida mãe me disse assim: ‘Olha lá, filho, e se Nossa Senhora quisesse que tu fosses padre? Tu não querias?” Na altura, Joaquim ficou “quieto e calado”. Um ano depois, no dia 13 de Outubro de 1917, a mãe presenciou o “milagre do sol”. Outro ano volvido, em Outubro de 1918, Inácia Carreira morreu. Mas dois anos e Joaquim entrou no seminário. “A maior pena” que teve na vida foi o facto de a mãe não o ter visto ordenado padre.
Os cogumelos venenosos na Igreja

O Castel Sant’Angelo, em Roma, situado a 200 metros do edifício do então Colégio Pontifício Português, numa foto feita pelo padre Joaquim Carreira, reitor do Colégio durante a II Guerra Mundial, publicada no livro “Roma – História, Arte e Religião” (1975): o gosto pela fotografia manteve-se durante toda a vida. Foto: Direitos reservados.
Outro elemento que o ligou ao santuário foi o facto de, confirmado o seu gosto pela fotografia que o acompanhou vida fora – aspecto também referido na reportagem –, ter desempenhado entre 1931-1936 a função de fotógrafo oficial do nascente Santuário de Fátima. O padre João Mónico regista que o tio organizou um álbum intitulado Vinte e Quatro Vistas de Fátima, que terá desaparecido.
Entre os outros livros que publicou, estão Rosa de Ouro (1965), um pequeno opúsculo sobre a oferta feita pelo Papa Paulo VI ao Santuário, e Fátima e o Evangelho (1967), que procura aprofundar a mensagem que lhe dizia tanto. No livro biográfico sobre o tio, o padre João Mónico cita a introdução do bispo João Pereira Venâncio à obra de Joaquim Carreira, que não era “um principiante nos assuntos” relativos ao santuário. Antes vivia “como poucos os seus problemas” e era um “apóstolo ardente e convicto da mensagem evangélica de oração e penitência” do santuário – chegava a comprar pagelas e publicações para distribuir em Roma, entre as famílias, crianças ou outras pessoas que acompanhava.
A sua devoção coincidiu, sobretudo nos anos pós-Concílio Vaticano II (1962-65), com críticas a alguns rumos que a Igreja tomava: apesar de ter participado em algumas sessões conciliares como auxiliar dos bispos portugueses, Carreira entendia que o Concílio não tinha dito para os padres andarem “à paisana”, criticava o “espírito de desobediência” entre o clero e não gostava que os clérigos se deixassem tratar por tu. “À sombra da grande árvore que foi o Concílio nasceram muitos cogumelos venenosos que era preciso arrancar, assim como outras ervas daninhas que se aproveitaram para alargar os seus ramos rasteiros”, escrevia, numa carta citada na biografia escrita pelo sobrinho. “Não está bem tanta relaxação, a que chamam actualidade, e tanto mundanismo entre nós, ministros de Deus”, acrescentava.
Era este mesmo homem que, no final de Julho de 1944, ao resumir o ano difícil que atravessara, escrevera no seu relatório que a hospitalidade oferecida às pessoas em perigo “levou o Colégio a um maior contacto com as misérias, as dores e as tragédias consequências da guerra”. E concluía: “Foi com alegria que pude arriscar todas as minhas atividades para este fim, e mesmo se passei por momentos de séria preocupação e ansiedade, agradeço ao Senhor por ter-me concedido o poder, ainda que mínimo, de fazer um pouco de bem para a sempre maior glória de Deus e benefício do Pontifício Colégio Português em Roma.”
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