
“E os outros? Conflitos com colegas (bullying, exclusão, pressão social); a escola (dificuldades escolares, défice de atenção, absentismo, ausência de projetos); experimentação e consumos; a família (dificuldades de comunicação, relacionais).” Foto © Iluha Zavaley / Unsplash
Exemplos de questões típicas que surgem em consulta de Medicina do Adolescente:
O meu corpo será normal? Acne, crescimento, desenvolvimento pubertário, excesso de peso/obesidade, cefaleias, dor abdominal, alergias, …
E o que eu sinto? Medos, dúvidas, sexualidade (contraceção, irregularidades menstruais, orientação sexual, namoros), problemas de sono, tristeza, ansiedade, stress, dificuldade de concentração, depressão, isolamento, …
E os outros? Conflitos com colegas (bullying, exclusão, pressão social); a escola (dificuldades escolares, défice de atenção, absentismo, ausência de projetos); experimentação e consumos; a família (dificuldades de comunicação, relacionais).
Porque é que ando tão ansioso? Tenho medo de que a minha namorada me deixe, que não consiga vencer o 12º ano e entrar na faculdade, que não consiga corresponder às expectativas que colocam em mim, tenho medo de ‘ter uma doença no coração’, ‘sinto palpitações, às vezes até parece que me falta o ar’, ‘agora até me custa a adormecer’.
Através de uma entrevista estruturada seguindo os princípios da entrevista motivacional, envolvendo a família sempre que necessário, avaliam-se as várias dimensões da vida do adolescente: relação com a família, escola, pares/amigos, atividades lúdicas, sexualidade, comportamentos, saúde mental.
Sempre que seja necessária a articulação com outras especialidades, o que acontece frequentemente, por exemplo na doença crónica, o médico de adolescentes funciona como ‘gestor de caso’, com o objetivo de facilitar o processo de comunicação entre os vários intervenientes, estabelecer canais de ligação e integrar todas os aspetos da saúde do adolescente.
Os determinantes biológicos da adolescência são em si mesmos universais; contudo a duração e características específicas deste período variam através dos tempos e culturas. Os diversos contextos (culturais e socioeconómicos, familiares, de saúde ou de doença) em que as transformações se desenvolvem diferem de adolescente para adolescente e irão, naturalmente, exercer uma influência determinante no desenvolvimento do adolescente. Por esta razão se dá tanta importância em Medicina do Adolescente à avaliação desses contextos, com o objetivo de promover um desenvolvimento saudável. A condução da entrevista deverá garantir a privacidade e confidencialidade. As questões deverão ser abertas, começando-se por temas mais gerais, para progressivamente se ir para temas mais específicos e não devem ser emitidos juízos de valor.
Na consulta do adolescente existe um tempo ‘a sós’ com o adolescente, devidamente enquadrado e autorizado pelos pais e pelo próprio adolescente. Começamos por conversar sobre os aspetos que o adolescente preza em si, os seus sonhos e projetos. Esta conversa inicial permite extrair alguns aspetos concretos da visão geral do adolescente sobre si próprio, identificar eventuais mudanças que se entendam como desejáveis e as capacidades a desenvolver para as concretizar. Facilita ainda a abordagem de situações mais sensíveis/íntimas, em particular as mais difíceis de verbalizar na presença dos pais. Pretende-se a autonomização e responsabilização do jovem. No final da consulta poderão ser discutidas as propostas e orientações com o adolescente e a família, preservando sempre o princípio da confidencialidade.
Esta abordagem contrasta com a abordagem biomédica clássica que se centra sobre os problemas, focando-se sobre os pontos fracos da pessoa, as más classificações escolares, por exemplo, conduzindo a um enfoque no que está errado, levando a um sentimento de culpa e à frustração que lhe está associada.
Os pais perceberam que esta especialidade existe, apesar de ainda não estar suficientemente divulgada, e atualmente estão mais despertos para procurar ajuda. Quando vão a uma primeira consulta invariavelmente constatam os benefícios de poderem concentrar num mesmo interlocutor vários problemas, sem terem necessidade de os fragmentar por múltiplas especialidades.

Uma das tiras de Mafalda, por Quino, publicada em Portugal pela Dom Quixote e, agora, pela Penguin.
O sucesso de uma entrevista bem conduzida advém de uma combinação entre a empatia, a utilização de estratégias de comunicação inteligentes e do humor, confrontando-nos, desafiando-nos mutuamente, utilizando uma linguagem que possibilite o encontro. Não interessa só o que o adolescente verbaliza. Tanto ou mais importante é o que não diz ou o que ainda não diz. O treino para captar indícios não verbais passa por ler as emoções do adolescente com base no seu tom de voz, postura e expressão facial. A interação fica facilitada se mostrarmos compreensão pelos sentimentos expressos, se agirmos de uma forma compassiva olhando deliberadamente o adolescente nos olhos e levando em linha de conta as suas expressões emocionais. Criar uma empatia inicial e alimentar a ligação emocional acabam, a longo prazo, por poupar tempo e permitir ganhar em eficácia. O que os muitos anos de trabalho nesta área me têm permitido perceber, é que sugerir tem muito mais força do que dizer.
Helena Fonseca é pediatra especializada em Medicina do Adolescente e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Correio eletrónico: helenaregalofonseca@gmail.com










