
“O que já será problemático é quando a pressão é prolongada ou não a conseguimos controlar. Nesses casos, sentimos que nos oprime, sufoca-nos e pode dar origem a sintomas que podemos identificar como de stress.” Foto © Lacie Slezak / Unsplash
A pressão em si mesma não constitui um problema. Termos solicitações e prazos até é bom; sem eles (por mim falo), seríamos muito menos produtivos.
O stress pode constituir uma força positiva se sentimos que nos motiva e que o conseguimos controlar. Particularmente quando temos um fim à vista (uma avaliação escolar, por exemplo), a pressão pode conduzir ao regozijo de missão cumprida, constituindo um reforço positivo. Neste aspeto, a pressão q.b. é desejável e pode ser considerada uma forma saudável de stress.
O que já será problemático é quando a pressão é prolongada ou não a conseguimos controlar. Nesses casos, sentimos que nos oprime, sufoca-nos e pode dar origem a sintomas que podemos identificar como de stress. Estamos basicamente a falar de ansiedade. Nessas ocasiões produzimos mais adrenalina que pode originar uma sensação de secura da boca, batimentos cardíacos acelerados, sensação de aperto no estômago. Por outro lado, a tensão muscular pode originar cefaleias, dores de costas ou de barriga. O stress prolongado pode causar dano ao corpo através do aumento da tensão arterial, supressão do sistema imunitário, aumentando a probabilidade de doença. Todos sabemos como as pessoas que são altamente stressadas têm maior probabilidade, por exemplo, de sofrer acidentes.
Se é verdade que todos nós experienciamos stress de vez em quando, os adolescentes são particularmente mais atreitos. Anna Freud classificou a adolescência como um período de storm and stress, por outras palavras, de conflito interno. A instabilidade emocional faz parte do ser adolescente.
A adolescência é o tempo de experiências e sentimentos novos, de ganhos e perdas importantes, de sucessos e frustrações. Seja pelas grandes e rápidas transformações físicas que ocorrem associadas, muitas vezes, a dúvidas relativamente à normalidade, até ao sentimento de não ser escutado nem compreendido e às pressões inerentes à escola e aos conflitos familiares, o adolescente vive em stress.
O mundo em que vivemos, constantemente em mudança e onde a incerteza relativamente ao futuro é grande, em muito contribui para tal. Os adolescentes, por ainda não terem encontrado o “seu modo” de lidar com esta instabilidade e turbulência, serão potencialmente mais afetados. Têm de se adaptar a um mundo onde a produtividade e a competitividade são grandes. Uns conseguem melhor que outros. Alguns não conseguem e precisam de ajuda.

“A teoria do desenvolvimento juvenil positivo (Youth Positive Development) defende que esta tarefa estará facilitada se o sentimento de pertença estiver presente. Por outras palavras, se o adolescente se sentir ligado a adultos de referência na família, na escola e/ou na comunidade.Foto © Eliott Reyna / Unsplash
A teoria do desenvolvimento juvenil positivo (Youth Positive Development) defende que esta tarefa estará facilitada se o sentimento de pertença estiver presente. Por outras palavras, se o adolescente se sentir ligado a adultos de referência na família, na escola e/ou na comunidade.
O adolescente, tal como o jovem adulto, debate-se com várias dificuldades, nomeadamente, a necessidade de se expressar enquanto indivíduo, o que está muitas vezes em conflito com a família e os pares; a necessidade de competir e, sobretudo, encontrar a aprovação social; a necessidade de ser independente, enquanto ainda é dependente. É difícil agradar a todos ao mesmo tempo (incluindo a si próprio!). Tentar encontrar compromissos a todos estes níveis é certamente uma grande fonte de stress.
Há ocasiões em que é fácil identificar o que está por detrás: um exame que não se conseguiu passar, a morte de alguém significativo, uma ligação que terminou. Pais atentos compreendem a situação e dão colo. Mas, infelizmente, com alguma frequência não é assim tão fácil perceber o que se está a passar e o sofrimento que envolve.
Há adolescentes que são mais vulneráveis aos efeitos adversos do stress do que outros. Entre eles estão: adolescentes com baixa auto-estima; adolescentes que se sentem diferentes (exemplo: por orientação sexual minoritária ou por alguma alteração física ou doença crónica); adolescentes que sofreram perdas significativas (morte ou separação dos pais); adolescentes que foram abusados física, sexual ou emocionalmente; filhos de pais com consumos ou doenças mentais; vítimas de guerra, privação económica, institucionalizados, imigrantes, refugiados.
Por detrás de um humor deprimido, insucesso escolar, distúrbio do comportamento alimentar, perturbação do sono, consumos ou comportamentos sexuais de risco, pode estar uma perturbação de ansiedade. Já vi na minha prática clínica muitos adolescentes medicados para o défice de atenção com metilfenidato, e que na verdade aquilo de que sofrem é de uma perturbação ansiosa.
As expectativas que muitas vezes colidem com a perceção do que são as capacidades reais, podem gerar desconforto e angústia. Leva tempo até que o adolescente encontre o seu lugar, entre aquilo que pensa e deseja para si, as expectativas dos pais e a pressão dos pares.
Helena Fonseca é pediatra especializada em Medicina do Adolescente e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Correio eletrónico: helenaregalofonseca@gmail.com










