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A morte das referências

| 26/10/2022

 “A dimensão individual da religião não é individualista. Um religioso apenas é um religioso se deixar o outro acrescentar algo na sua esfera privada, e que o todo tenha algo a dizer sobre o seu carácter e conduta.” Foto © Pexels / Pixabay

 

Uma sociedade sem referências é uma sociedade dando sinais de falência. As referências morais que justificavam a nossa esperança na humanidade caíram e, com elas, foi ao fundo a confiança que tínhamos, não só nas instituições, mas principalmente nos líderes das várias áreas da influência da sociedade.

Não creio que a morte figurada das referências nos deva levar a excluir toda a personalidade, seja ela de que quadrante for, do cenário social. Precisamos de referências que nos ajudem a entender o mundo e a fazer o bem. Mas o cenário religioso atual é agonizante. E infelizmente não me refiro a uma ou outra religião ou seita, porque a maioria delas estão a passar por grandes crises deontológicas. Mesmo assim, a religião ainda tem algo a dizer sobre a moral e a ética. Nem os anos negros da Inquisição nem os anos áureos de iluminismo conseguiram destruir a religião.

A fé e a sua institucionalização mais ou menos formal é intrínseca ao ser humano. Mesmo que alguns não a consideram como tal, têm de admitir que ela é histórica e relevante. E isto aconteceu porque quando a fé era viva, ela conseguia trazer prosperidade humana, embora não mensurável, e promover o bem comum. Assim, a tendência para a aniquilação das instituições religiosas (e outras) é absurda. Nem tudo foi bom, mas nem tudo foi mau. Não podemos misturar o todo com o individual, nem condenar instituições complexas por causa dos defeitos de personalidades. E mesmo não podendo apagar o passado, podemos com ousadia planear o futuro de uns e de outros. Para além disso também não podemos apagar a fé daqueles que olham para lá de uma instituição ou de líderes moralmente condenáveis. A pergunta não é como aniquilar religiões numa sociedade secular que não vê a sua necessidade, mas sim como resgatar a necessidade da religião numa sociedade que precisa de novas referências de toda a espécie, até para aqueles que decidem ter e confessar uma fé.

Já existem várias pessoas que escreveram bons textos sobre a restauração da fé e da religião na sociedade e no espaço público. De facto, é preciso repensar, filosoficamente ou não, sociologicamente ou não, a fé e a religião na conjuntura atual. Mas acima de tudo é necessário que pessoas sejam capazes de admitir as falhas de instituições que ofendem deliberadamente a integridade dos elementos de uma sociedade.

Quando a religião é colocada em causa, os primeiros a afastar-se da cena deveriam ser as pessoas, para que a verdadeira religião fosse posta à prova e, sendo relevante, ganhasse novos atores. Mas há medo da crise. E por isso é difícil a prática da humildade para admitir que seres humanos, em qualquer instância, são falíveis. Porque não há humildade também não há espaço para a tão importante e indispensável prestação de contas. Se a religião é realmente uma vivência comunitária, os seus fiéis não podem de maneira nenhuma vivê-la sem serem responsáveis pelos atos uns dos outros. A dimensão individual da religião não é individualista. Um religioso apenas é um religioso se deixar o outro acrescentar algo na sua esfera privada, e que o todo tenha algo a dizer sobre o seu carácter e conduta. As consequências da ausência deste policiamento estão à vista. Mas não apenas isso. Quando o todo é uma mera soma de vontades egocêntricas deixa de ser um todo. O resultado são vontades que se juntam para proteger os seus e não o que primeiramente os uniu.

As razões que levaram Friedrich Nietzsche a dizer que Deus estava morto, por muita coceira que traga aos ouvidos de quem o ataca, são reais: uma religião vazia e fiéis impostores que nada trazem para o bem comum da sociedade. Mas Nietzsche não está certo. Deus não está morto, alguns dos que usam o seu nome é que estão. Depois do funeral e do luto destes, acontecimento desta época, há uma grande hipótese de a sociedade voltar a ver raiar a luz divina.

 

Débora Hossi é gestora de redes sociais; integra a Missão Evangélica Intercultural e considera-se peregrina e apaixonada por Jesus e pelos seus ensinamentos. Contacto: deborahossi@gmail.com

 

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