A noite da família humana e 7 temas do Papa para o pós-pandemia (análise)

| 13 Abr 20

“A noite de um mundo já a braços com desafios epocais e agora oprimido pela pandemia (…) coloca a uma dura prova a nossa grande família humana”, afirmou o Papa na sua alocução da bênção urbi et orbi deste Domingo de Páscoa.

Ao contrário do habitual, em que uma multidão de milhares de pessoas enche a Praça de São Pedro, desta vez, tal como acontece desde há mais de um mês, Francisco esteve praticamente sozinho, dentro da Basílica Vaticana.

Esta frase do Papa, no início da sua intervenção, pode servir de pano de fundo para sete ideias de um guião possível, que já se pode perceber nas principais intervenções de Francisco acerca do momento presente e como propostas para o pós-pandemia.

papa Francisco. Páscoa 2020 O Papa Francisco, no final da sua mensagem urbi et orbi neste Domingo de Páscoa. Imagem da transmissão dos canais vídeo do Vaticano.

 

1. As feridas dentro do barco

“Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados”, afirmou o Papa na sua poderosa Oração pela Humanidade, de 27 de Março, quando subiu sozinho a escadaria da Praça de São Pedro, debaixo da chuva que lavava as pedras e o céu. Ao mesmo tempo, somos todos “importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento”, acrescentava. E, como que acordando a memória colectiva, afirmava que estamos todos no mesmo barco e não nos salvaremos se não nos unirmos. “Só o conseguiremos juntos.

Na bênção deste Domingo de Páscoa, o Papa argentino falou do corpo do ressuscitado como um corpo glorioso que, no entanto, é o mesmo do crucificado: “Indeléveis no seu corpo glorioso, traz as chagas: feridas que se tornaram frestas de esperança. Para Ele, voltamos o nosso olhar para que sare as feridas da humanidade atribulada.”

Francisco recordou os que já foram atingidos pelo coronavírus – doentes, mortos, familiares – e, em especial, os que idosos, os que estão sem ninguém ou em particular vulnerabilidade, os que trabalham em hospitais, os que vivem nos quartéis e nas prisões. “Para muitos, é uma Páscoa de solidão, vivida entre lutos e tantos incómodos que a pandemia está a causar, desde os sofrimentos físicos até aos problemas económicos.”

Sozinhos, nada conseguiremos, dissera dia 27; sozinhos a nenhures chegaremos, repetiu nesta Páscoa, de outro modo: “Verdadeiramente palavras como indiferença, egoísmo, divisão, esquecimento não são as que queremos ouvir neste tempo. Mais, queremos bani-las de todos os tempos!”

 

2. Unidade e doação contra os medos

Se não nos salvamos sozinhos, a afirmação positiva é a de que só a unidade é o caminho. Desde logo, para os crentes, privados que têm estado da celebração comunitária e dos sacramentos, signos tangíveis dessa expressão comunitária da fé no caso cristão e especificamente católico, mas também da convicção pessoal de cada um(a).

“Permanecendo unidos na oração, temos a certeza de que [Deus] colocou sobre nós a sua mão, repetindo a cada um com veemência: Não tenhas medo! ‘Ressuscitei e estou contigo para sempre’.

Só o sentido de comunidade, unidade e fraternidade podem ajudar a ultrapassar os medos que a todas e todos atingem. Desde logo, pelo espírito de doação e serviço de que tantas pessoas têm dado mostras. Na oração de dia 27, o Papa recordou todos os que já entenderam que só salvando outros se podem salvar a si mesmos: as “pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espectáculo”. Essas que, “hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, responsáveis, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho”.

Na bênção do Domingo pascal, todos esses foram recordados de novo: “Jesus, nossa Páscoa, dê força e esperança aos médicos e enfermeiros, que por todo o lado oferecem um testemunho de solicitude e amor ao próximo até ao extremo das forças e, por vezes, até ao sacrifício da própria saúde. Para eles, bem como para quantos trabalham assiduamente para garantir os serviços essenciais necessários à convivência civil, para as forças da ordem e os militares que em muitos países contribuíram para aliviar as dificuldades e tribulações da população, vai a nossa saudação afetuosa juntamente com a nossa gratidão.”

 

3. A proximidade, os gestos e o ecumenismo

Papa Francisco Francisco a 25 de Março, quando pediu a todos os cristãos para rezar o Pai-Nosso à mesma hora. Imagem da transmissão dos canais vídeo do Vaticano.

 

Um dos primeiros momentos intensos propostos pelo Papa foi quando, a 25 de Março, o Papa propôs a todos os cristãos – católicos, ortodoxos, protestantes, anglicanos, evangélicos e muitas outras correntes – que, ao meio-dia, rezassem juntos a oração do Pai-Nosso, num gesto de grande profundidade ecuménica.

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