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Pastora. Rebanho
[diz-me bela pastora / hei de escutar a voz? ― / tato de mão para mão © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

A pastora e os dialetos da vocação

| 12/05/2025

[domingo iv da páscoa //
último dia da semana de oração pelas vocações /
primeiro dia da semana da vida – c ― 2025]

 

 

1. Uma história, uma visão e alguns desafios.
Adentremo-nos na Palavra escutada, que inaugura paisagens.
Talvez as palavras surjam aos ouvidos
a fazer lembrar um aguaceiro de maio.
Ou então na semelhança de generosas manadas de pétalas,
como sucedeu na «Batalha das Flores» que, há dias,
apreciámos, em Barcelos, por ocasião da Festa das Cruzes.
Efetivamente, nesta Semana de Oração pelas Vocações,
são várias as equipas de promoção vocacional
que rezam em dezenas de comunidades deste arciprestado.
Sejam, pois, as palavras como bátegas de pétalas
a desabotoar o nosso pensamento orante na alegria pascal.

2. Vamos à história, que é, creio eu, fonte de aprendizagens.
Há precisamente onze anos, vários amigos de Braga,
no contexto de um estudo para a Capela Cheia de Graça,
visitaram, com a Inês Gil e um repórter de imagem e som,
os Casais da Serra, em Folgosinho, lugar idílico na Serra da Estrela.
Acompanhava-nos o padre António Morais
― para mim, um pastor-dos-cânticos-do-Cântico ―,
que nos proporcionou, entre tantos diálogos inesquecíveis,
o encontro com uma pastora, que andava a apascentar o seu rebanho.
Enquanto nos abeirávamos, lembrava-me do filme de Jorge Pelicano,
sobre os últimos pastores da Serra da Estrela, onde consigo avistá-la.

3. Entrada na idade, a pastora só acedeu ao encontro
depois que reconheceu a voz do padre Morais, seu pároco.
Dela recordo palavras como as que Jesus hoje nos dirigiu.
Aliás, as dela fazem-me compreender melhor as de Jesus.
Apascentando um rebanho de cabras e ovelhas,
num campo cheio de flores e de esparsas espigas de centeio,
dizia que só os pastores levavam os rebanhos aos pontos mais elevados,
enquanto as pastoras os apascentavam nas proximidades de casa.
Andava acompanhada de dois cães, porque, conforme nos referiu,
o pequeno conseguia identificar os lobos a grande distância
e o maior, sem essa sensibilidade, tinha força para enfrentá-los.
Assim cooperam na proteção do rebanho.

Rebanho. Cão

[Vigilância do cão maior, capaz de enfrentar os lobos © fotografia: Joaquim Félix]

Para que as ovelhas se aproximassem, usou um dialeto próprio,
formado por assobiadelas, interjeições e sons intraduzíveis.
E chamou, inclusive, pelo nome de algumas delas.
Reconhecendo a sua voz, vieram até às suas mãos,
para comer do seu pão, que guardava no lenço do avental.
Falou-nos, também, do cuidado no fabrico do queijo,
da qualidade do coalho em função dos pastos das vertentes.
Enfim, referiu-se a tantas outras dimensões da vida
que só uma sabedoria de cuidado e proximidade pode praticar.

4. Deixemos por agora esta história, que reaparecerá no final,
para avançar com a narração de uma visão.
Com a palavra de Deus deste domingo em eco distendida,
dei comigo a ver ― ou a imaginar ― algo a acontecer.
Não, não era nos céus, mas nas comunidades das quais fazemos parte.
Enquanto o evangelista João via «uma multidão imensa» (cf. Ap 7,9),
diante do trono do Cordeiro, seu pastor,
eu comecei a ver pequenos grupos, formados sobretudo por jovens,
que, em três temporadas, faziam exercícios de discernimento vocacional.
A primeira delas substituía um ano do atual decénio da catequese,
a segunda sucedia à celebração do Crisma
e a terceira ocorria durante o 12º ano de escolaridade.

Seminário de Braga. Raparigas

[Grupo de raparigas em visita ao Seminário Conciliar acompanhadas pelas Irmãs da Aliança de Santa Maria © fotografia: Joaquim Félix]

5. Que trabalhavam nessas temporadas? ― perguntareis vós.
Com aqueles que assim o desejavam, de forma livre, portanto,
cada «pequenino rebanho» iniciava-se à «arte de discernir»,
tendo por base não só aprofundar o autoconhecimento
mas também atender aos serviços na comunidade de pertença.
Investiam na leitura orante de várias passagens da Escritura,
sobretudo com parábolas e atos de Jesus e dos Apóstolos.
Aprendiam a ler os sinais dos tempos à luz da sua fé e esperança,
combatendo os medos e tomando algumas decisões com alegria.
Mais, visitavam periodicamente casas de leigos consagrados,
de ‘religiosos’ e presbíteros,
nas quais conversavam familiarmente com eles, homens e mulheres,
sobre os seus trabalhos, os tempos livres, as esperanças, etc.
Rezavam e partilhavam o lanche que levavam.
Também frequentavam a casa de certas famílias,
as suas e de outros casais da comunidade,
cujo matrimónio se tinha celebrado há muito, ou há poucos anos,
para dialogar com os pais e os filhos, avós e tios que nelas houvesse.

Caminhada. Natureza

[Caminhada pela Natureza. Monte Oural, Vila Verde © fotografia: Joaquim Félix]

Em certos fins de semana, proporcionavam-se momentos de retiro,
com filmes, leituras, momentos de silêncio e diversos tipos de oração,
inclusive na presença de ícones e obras de arte
e em caminhadas pela natureza.
Visitavam doentes e imigrantes,
com quem tinham gestos de atenção e de hospitalidade.
Enfim, vi muitas outras coisas, que me dispenso de narrar.

6. Todavia, há uma que me chamou muito a atenção:
Quando meditavam nos temas do namoro e do matrimónio,
reparei que, surpreendentemente, alguns grupos se serviam dos textos
das duas orações eucarísticas, presentes no Missal Romano,
para as Conferências Episcopais dos bispos católicos do Canadá.
De facto, na sua brevidade e escrita poética,
elas apresentam uma belíssima teologia do matrimónio.
E porque se fez isso com a oração eucarística V, perguntavam-se:
Porque não solicitá-las para o Missal Romano em língua portuguesa?

Natureza

[Belíssima teologia do matrimónio © fotografia: Joaquim Félix]

7. O Seminário Conciliar de Braga tem proporcionado
este tipo de encontros através da iniciativa «Portas Abertas».
Ao longo deste ano, foram vários os grupos barcelenses
que a aproveitaram, fazendo a experiência da alegre hospitalidade.
Seria bom que estas e outras iniciativas fossem promovidas,
não em regime avulso ou esporádico, mas articuladas
num processo gradual de iniciação ao discernimento vocacional.
E, seguramente, com um espírito de maior corresponsabilidade.
No fundo, foi este o apelo lançado pelo Papa Francisco,
na Mensagem que escreveu para esta Semana, que vale a pena meditar.

Catacumbas de S. Calisto, Roma

[Escultura do Bom Pastor nos jardins das Catacumbas de S. Calisto, Roma © fotografia: Joaquim Félix]

 

8. Estando nós a celebrar o «Domingo do Bom Pastor», ouvimos,
através da leitura dos Atos dos Apóstolos e do Livro do Apocalipse,
que a Palavra do Senhor se destina a todas as nações.
Porém, pelo que depreendemos, há entropias que começam dentro,
instigadas e concretizadas por quem menos se esperaria;
sim, outrora como hoje, por gente muito piedosa e distinta.
Eis porque a nossa ação terá de ter outro foco:
abrindo janelas e portas vocacionais na pastoral das comunidades,
veremos que crescerá o número daqueles que aderem à fé em Jesus.
Nesse sentido, tal como Paulo e Barnabé,
contribuamos para que muitos se encham de alegria e do Espírito Santo.
Encorajemo-nos mutuamente, à Luz da Palavra,
anulando, com energias renováveis, o apagão que alguns preferem.

Casais da Serra, Folgosinho. Natureza

[Escuta numa paisagem dos Casais da Serra, Folgosinho © fotografia: Joaquim Félix]

 

9. Saboreando a breve passagem do Evangelho
― retirada, no entanto, de um longo discurso de Jesus (cf. Jo 10) ―,
aceitaremos que, no processo de iniciação ao discernimento vocacional,
a escuta é uma atitude primordial.
Quem não escuta a luminosa Voz,
não pode aproximar-se e seguir Jesus, o belo Pastor.
Quem não escuta dificilmente O reconhece nem se conhece.
Assim no-lo mostrou também a pastora dos Casais da Serra.
De mão para mão, do Pai para o Filho,
escutando e seguindo, seremos quotidianamente amparados.
O «Pastor dos Pastores» (1Pd 5,4) dá-nos a vida
no tempo e fora do tempo;
conduz-nos às fontes da água viva (Ap 7,17) e ao pão da unidade.
E, neste tempo pejado de guerras, enxuga as lágrimas dos olhos.
Depois que O reconhecemos, através da escuta da sua Palavra,
avancemos para o pão da unidade que surgirá sobre toalha do altar.

Lenha. Forno

[Lenha recolhida para o forno do pão © fotografia: Joaquim Félix]

10. «Eu e o Pai somos um só» (Jo 10,30) dizia Jesus.
Com esta sentença se alinha o lema do novo pastor, o Papa Leão XIV:
«Nele que é Um, nós somos um».
Que ele cuide da unidade do povo de Deus,
através da construção de novas pontes, sustentadas nos pilares da paz,
conforme quanto disse à multidão
reunida na Praça de S. Pedro e em todas as nações do mundo.

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia do domingo, 11 de maio, último dia da semana de oração pelas vocações e primeiro dia da semana da vida, proferida no Santuário de Nossa Senhora das Necessidades, em Barqueiros, e em Chavão (onde se encontravam também os jovens de Grimancelos); todas paróquias do arciprestado de Barcelos.

 

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